segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A vida, esse mistério!

 O que é a vida?

Dostoiévski: É o inferno.
Para Dostoiévski, a vida era uma batalha com as partes mais escuras da alma humana - um crucible de sofrimento onde confrontamos nossos medos e desejos mais profundos.
Sócrates: É um teste.
A vida é o último exame da virtude, sabedoria e verdade. Para Sócrates, não vale a pena viver uma vida não examinada.
Aristóteles: É a mente.
A vida é a busca pelo conhecimento e pela razão - uma jornada para compreender o mundo através da lógica, ética e metafísica.
Nietzsche: É poder.
A vida é a vontade de poder - uma luta pela auto-superação e domínio das circunstâncias, rejeitando a complacência e abraçando o crescimento.
Freud: É morte.
Freud viu a vida como uma tensão entre o instinto de vida (Eros) e o instinto de morte (Thanatos) - um impulso constante em direção à criação e destruição.
É a ideia.
Para Marx, a vida é moldadada pelas condições materiais e pelas ideologias que surgem delas - uma luta para criar um mundo de igualdade e justiça.
Picasso: É arte.
A vida é criação - uma tela para pintar nossas paixões, emoções e sonhos, moldadada pela imaginação e expressão.
Gandhi: É amor.
Gandhi acreditava que a vida está enraizada na não-violência, compaixão e amor universal - uma jornada em direção à paz e ao serviço altruísta.
Schopenhauer: É sofrimento.
Para Schopenhauer, a vida é um esforço incessante que inevitavelmente leva à dor e à insatisfação, temperada apenas por momentos de beleza e arte.
Bertrand Russell: É competição.
A vida é moldada por desejos e ambições humanos - um ato de equilíbrio entre interesse próprio e progresso coletivo.
Steve Jobs: É fé.
A vida é confiar no processo - correr riscos e seguir a intuição, mesmo quando o caminho à frente é incerto.
Einstein: É conhecimento.
Einstein via a vida como uma busca para compreender os mistérios do universo, impulsionada pela curiosidade e espanto.
Stephen Hawking: É esperança.
A vida é perseverança diante da adversidade - uma crença no futuro e o poder da engenhosidade humana.
Kafka: É apenas o começo.
A vida é surreal e enigmática, muitas vezes absurda, mas sempre abrindo portas para transformação e possibilidade.
Camus: É a rebelião.
A vida é encontrar sentido em um universo sem sentido, desafiando o absurdo com coragem e paixão.
Thoreau: É simplicidade.
A vida é tirar o desnecessário - abraçar a natureza e viver deliberadamente.
Rumi: É uma dança.
A vida é uma jornada espiritual - um ritmo de amor e conexão divina tecido em cada momento.
Kierkegaard: É um salto de fé.
A vida exige abraçar a incerteza e dar passos corajosos fundamentados na crença e na autenticidade.
Epicuro: É prazer.
A vida é sobre maximizar prazeres simples e duradouros enquanto minimiza dores desnecessárias.
Laozi: É harmonia.
A vida flui como a água - sem esforço e alinhada com a ordem natural do universo.
Confúcio: É virtude.
A vida é cumprir papéis com integridade, respeito e compromisso com a comunidade e a família.
Carl Jung: É individuação.
A vida é integrar o consciente e o inconsciente - tornando-se inteiro e autêntico.
Alan Watts: É um jogo.
A vida é para ser experimentada e brincada com maravilhas - não levada muito a sério.
Victor Frankl: É um significado.
A vida é encontrar propósito, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, através do amor e do serviço.
Simone de Beauvoir: É liberdade.
A vida é o poder de se definir e rejeitar os papéis impostos pela sociedade.
Heráclito: É mudança.
A vida é um fluxo constante - um rio em que pisamos uma vez antes de fluir de novo.
Hegel: É progresso.
A vida é um processo dialético, avançando através da contradição e resolução em direção a uma maior compreensão.
É sobrevivência.
A vida no seu estado natural é "nojenta, brutal e curta", exigindo que os sistemas mantenham a ordem.
Rousseau: É liberdade na natureza.
A vida é mais autêntica quando voltamos ao nosso estado natural, livres da corrupção social.
Marco Aurélio: É aceitação.
A vida é abraçar o momento presente com determinação estoica, guiada pela razão e pela virtude.
Sêneca: É preparação para a morte.
A vida não é sobre a sua duração, mas sim a sua qualidade - ensinando-nos a viver bem e a deixar ir graciosamente.
Qual destas visões sobre a vida ressoa mais contigo?
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Bem e mal nas relações humanas!

 Quando nós dizemos o bem, ou o mal... há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação... No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades... Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar esta simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do género por onde se chega não ao egoísmo mas à relação humana.

(José Saramago, in "Revista Diário da Madeira, Junho 1994")
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O Significado das coisas!

 A Insignificância De Um Significado

Viver exclusivamente à sombra do que faz sentido é submeter-se ao cárcere do racional, é comprimir-se em uma existência sem jamais permitir que a vida, com sua vastidão misteriosa, nos envolva por completo. É a recusa dos instintos, a rejeição das nuances do sentir, como se o pensamento fosse um soberano tirano e a razão, seu algoz. Quem assim vive transforma os olhos em instrumentos rígidos, insensíveis ao que não pode ser traduzido em conceitos, cegando-se para a delicadeza que pulsa além do visível. Nesse estado, o significado, como um escultor obsessivo, fere a carne da arte, limitando-a, até que dela reste apenas uma forma pálida, aprisionada em nomeações que nada mais contêm senão sua própria insuficiência.
Há momentos em que a vida exige que nos despeçamos do esforço exaustivo de explicá-la e, sobretudo, da pretensão de entendê-la. Shakespeare, em sua inesgotável sabedoria poética, já advertia pela voz de Hamlet: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.” O que foge à compreensão é o que verdadeiramente transcende. Palavras, por mais engenhosas que sejam, morrem em sua tentativa de conter a vastidão do indizível. Elas constroem muros onde deveria haver horizontes, como se pudéssemos capturar o infinito em molduras tão estreitas quanto o pensamento que as criou. A vida, contudo, é indomável: ela escorre por entre os dedos das definições, escapa aos grilhões da linguagem.
Há mais vida nas entrelinhas do que nas palavras, mais verdade nos silêncios do que nos discursos. O poeta Rilke compreendeu essa verdade ao afirmar que “as perguntas são pássaros que jamais se deixam capturar”. Eu, por minha vez, faço das entrelinhas o meu quintal, um espaço onde o indizível floresce livre, onde o sentido é uma possibilidade e nunca uma prisão. É ali que reside a liberdade, esse instante em que o pensamento suspende sua tirania e cessa de tentar abarcar o incomensurável.
O silêncio, para mim, é mais do que ausência de palavras: é um santuário. É nele que encontro o acalanto, a pausa necessária para escapar do ruído incessante das interpretações. Wittgenstein, em seu Tractatus Logico-Philosophicus, dizia que “o que não se pode falar, deve-se calar.” Contudo, em meu silêncio, não calo o indizível, mas acolho sua plenitude. Ele pensa sem pensar, fala sem dizer, habita um limite onde o limite, paradoxalmente, se dissolve.
O meu lar é este espaço onde o pensamento deixa de pensar e a linguagem repousa, exaurida de significar. Nesse universo, tudo pode ser dito porque nada precisa ser explicado. É o território da poesia, onde, como dizia Pessoa, “o mistério das coisas é ser elas próprias.” É ali, nas margens do que escapa ao nome, que o infinito me encontra, não como algo a ser compreendido, mas como algo a ser vivido.
Oliver Harden
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domingo, 2 de fevereiro de 2025

Fevereiro o mês do Amor / Coração! Público 2, edição deste domingo.

 

Neste mês do amor, cinco formas de amar melhor

Esquecemo-nos que os amores não se encontram — eles constroem-se. Relações felizes e satisfatórias envolvem trabalho, empenho, para os quais nem sempre estamos disponíveis

GETTY IMAGES

Fevereiro é popularmente conhecido como “o mês do amor”. Para muitas e muitos, apenas uma comemoração capitalista sem sentido. Para mim, mais uma boa oportunidade de celebrar o amor e, acima de tudo, ref etir sobre ele.

Atrevo-me a afirmar que, todas e todos queremos, em algum momento, encontrar o amor. Porém, geralmente, esquecemo-nos que os amores não se encontram — eles constroem- se. Relações felizes e satisfatórias envolvem trabalho, empenho, para os quais nem sempre estamos disponíveis. Ou, por vezes, até estamos, porém, não sabemos bem como fazê-lo. Assim sendo, vamos a cinco coisas que a ciência já mostrou contribuírem para a saúde e felicidade das nossas relações.

Evitar generalizações

A forma como comunicamos é decisiva. Afinal de contas, a comunicação é a ponte entre nós e o outro. É importante criar pontes sólidas, seguras e que nos permitam fazer chegar a mensagem ao outro lado.

Um dos erros que, frequentemente, prejudicam esta travessia, é o uso de palavras como “nunca” ou “sempre”. Ninguém é ou faz “sempre” ou “nunca” alguma coisa. E dizê-lo deste modo perturba a compreensão da mensagem pelo outro, ativa o modo defensivo e descentra a atenção do conteúdo para a forma.

Substituir, por exemplo, um “nunca fazes o que peço!” por um “estoume a sentir sobrecarregada”; ou um “para ti faço sempre tudo mal!” por um “estou a tentar, mas sinto-me muito criticado” pode fazer toda a diferença!

2. Encher a conta bancária emocional

As críticas e desentendimentos vão acontecer e são, na verdade, muitas vezes necessários. Porém, segundo os estudos de Gottman, de forma a mantermos a saúde da nossa relação, são necessárias cinco interações positivas para compensar cada interação negativa. Embora isto não funcione, obviamente, como uma ciência exacta, estes números dão-nos uma noção de como uma crítica mais dura ou um momento pouco empático precisarão de uma conta bancária emocional recheada para amortecer o impacto. E como recheá-la? Elogiando de forma sentida e descritiva, facilitando o dia do outro resolvendo-lhe um problema, mostrando interesse e preocupação, planeando um date, entre muitos outros!

3. Falar sobre sexo

Com o tempo, as obrigações familiares e laborais, eventualmente os filhos, com o cansaço e a falta da comunicação… a monotonia e o tédio sexual podem instalar-se.

Também nesta área, a comunicação aberta e honesta é essencial. Sobre preferências, fantasias, desejos ou até mesmo para pedir apoio e compreensão em períodos em que tudo isto está mais adormecido. Porém, é essencial criar um espaço seguro e sem julgamento para que estas partilhas possam acontecer.

Certo é que casais que comunicam abertamente sobre estes temas relatam níveis mais elevados de satisfação sexual e no relacionamento.

4. Agendar tempo de qualidade (inclusive para o sexo)

Não se constroem relações de qualidade sem tempo de qualidade. Sem conversas boas, atividades interessantes, inteiramente focados um no outro. E bem sei que na correria dos dias parece impossível parar para fazê-lo. E por isso é que este tempo deve ser agendado e ritualizado com o mesmo empenho e compromisso que colocamos em tantas outras tarefas. Uma sugestão: a cada duas semanas, um encontro a sós; a cada dois meses, uma viagem de fim-desemana só os dois; a cada dois anos, uma semana de férias sozinhos.

Igualmente, a nossa vida sexual também ganhará bastante em ser planeada. Porque, com tantas obrigações diárias e com a transformação que o desejo vai sofrendo ao longo da relação, se vamos esperar pelo dia em que os astros se alinham e há tempo, vontade e todas as condições reunidas talvez seja melhor esperarmos sentadas/os.

Com o passar dos anos, o desejo que no início da relação era espontâneo — isto é, acontecia “naturalmente”, sem grande investimento — tende a tornar-se responsivo, especialmente nas mulheres. Ou seja, surge em resposta a estímulos a que intencionalmente nos expomos. E atenção: não é forçar-nos nem fazer fretes pelo outro — é predispormonos a iniciar uma experiência que sabemos que, no final das contas, nos fará sentir bem.

“Já percebi, Tânia… Mas, agendar o sexo parece tão forçado…”

Sempre que trago esta sugestão, surge alguma resistência. Romantizamos a espontaneidade no amor e no sexo a um nível em que tudo aquilo que seja previamente combinado parece perder a magia. Mas, na adolescência, o sexo não era marcado também para aquelas poucas horas em que não estava ninguém em casa? E as férias que marcamos e passamos meses a antecipar entusiasticamente? Porque é que não podemos fazer o mesmo com o sexo? Antecipando, fantasiando, trocando mensagens sugestivas quando o dia está a chegar!

5. Novidade

A novidade é essencial para a contínua construção da intimidade. E novidade não tem que ser ir escalar o Evereste ou trazer brinquedos sexuais para apimentar a relação. Pode, mas não tem.

A intimidade está relacionada com a ligação emocional, expressão de afecto e sensação de proximidade. E, apesar de crescer rapidamente nos primeiros tempos da relação — já que é um período de grande partilha de sentimentos, histórias de vida, experiências —, depois desacelera. Mas é importante que continue em ascensão, mesmo que mais lentamente. Em geral, metemos o pé no acelerador quando há partilha de informação nova, quando percebemos algo sobre o outro que ainda não conhecíamos, quando mantemos curiosidade pela pessoa que temos ao nosso lado. E esta sensação de livro eternamente por acabar de ler é essencial para manter viva a intimidade, o desejo e a satisfação.

Feliz mês do amor! E se não vos servir para mais nada, que sirva para lembrar que está também nas nossas mãos amar melhor e construir relações mais felizes. Não só neste mês, mas todo o ano, toda a vida.

Será que haverá volta a dar? - O Público 02-02-25

 

“Briturn”? Já há cartazes nas ruas

STEFAN WERMUTH/REUTERS

Cinco anos depois do Brexit, o Reino Unido precisa da União Europeia e a União Europeia precisa do Reino Unido

1.Passaram, no dia 31 de Janeiro, cinco anos sobre a entrada em vigor do acordo que formalizou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Foram cinco anos alucinantes em que muita coisa mudou no mundo, na Europa e no próprio Reino Unido. Ou, por ouras palavras, o mundo em que o Brexit foi negociado e concretizado já não é existe.

Há coincidências que nos dizem muito. O referendo convocado pelo primeiro-ministro David Cameron para que os britânicos decidissem se queriam manter-se, ou não, na União Europeia ocorreu em Junho de 2016. Cameron convocou-o porque tinha quase a certeza de que o seu resultado seria a favor da UE, acreditando que resolveria de uma vez por todas as divisões que atravessavam os Conservadores e enfraqueceria o partido nacionalista de Nigel Farage, o arauto da saída. O resultado do referendo foi o contrário. O primeiro-ministro demitiu-se. Theresa May, que o substitui em Downing Street, ainda tentou negociar uma saída que não fosse radical. A entrada em cena de Boris Johnson, um líder populista que fez do “Brexit” a sua porta de entrada para a liderança do partido, venceu as eleições prometendo fechar rapidamente um acordo com Bruxelas, que representaria um corte radical com o passado. Tal como a campanha do referendo, os defensores do “Brexit” prometeram um mundo de vantagens para o Reino Unido, desde o controlo das fronteiras para pôr fim à imigração “descontrolada” até à descida do custo da habitação (que ainda não parou de aumentar), passando pela poupança de 350 milhões de libras enviadas anualmente para orçamento comunitário.

Em Novembro de 2016, as eleições presidenciais americanas tiveram um resultado que quase ninguém antecipara. Donald Trump, um empresário do imobiliário com um discurso errático e um comportamento anormal, derrotou Hillary Clinton, contra todas as expectativas. Era um defensor devoto do “Brexit” contra uma Europa que desprezava.

Cinco anos depois, onde estamos?

2. Donald Trump é, de novo, o Presidente dos Estados Unidos. O Labour, que batalhou pela permanência do Reino Unido na União, regressou finalmente ao poder. A economia do país estagnou. A imigração triplicou. Hoje, uma maioria dos britânicos vê com bons olhos uma aproximação a Bruxelas ou mesmo o regresso. A reeleição de Trump foi a última machadada na ilusão de que a alternativa à Europa era a special relationship com a América. Se somarmos o gigantesco impacto da invasão russa da Ucrânia nas condições de segurança da Europa democrática, a aproximação ao continente é vista pela opinião pública como uma inevitabilidade.

Do lado europeu, desfez-se a velha desconfiança em relação à “pérfida Albion” que, em alguns países, sobretudo em França, era vista como um travão a mais integração ou um “Cavalo de Tróia” da América. Face à ameaça russa e à deriva americana, o Reino Unido volta a ser indispensável. Nomeadamente, em matéria de segurança e defesa. O primeiro-ministro Keir Starmer já negociou um acordo de segurança com Berlim (Acordo de Trinity House), renovou o que já tinha com Paris antes do Brexit (Acordo de Lencastre House), que vai replicar com outros países. Já existe com os países bálticos e nórdicos uma Força Expedicionária conjunta.

Em Londres, o primeiro-ministro continua a dizer que não é preciso escolher entre Washington e Bruxelas, retomando a estratégia equidistante de Tony Blair, antes do Iraque. Teme que uma aproximação demasiado rápida possa dar força aos nacionalistas de Farage, cujo partido obteve um bom resultado nas eleições do ano passado. A sua ministra das Finanças, Rachel

Reeves, tem um discurso bastante mais ousado. Não tem medo de dizer que a saída é a primeira causa da quebra de crescimento da economia britânica nos últimos anos. Diz que pretender recuperar esse crescimento perdido com mais cooperação com Bruxelas.

Cálculos feitos por algumas instituições independentes avaliam em 30 a 40 mil milhões de perdas anuais com a saída do Mercado Único e do Mercado Comum, numa economia de mais de três biliões (triliões na língua inglesa) de libras. Para um referendo que foi ganho a prometer travar a imigração, os números ainda são mais gritantes. Em Junho de 2019, véspera da entrada em vigor do acordo, tinham chegado, num ano, 347 mil imigrantes de fora da UE; em Junho de 2024, atingiram um milhão. Houve, é verdade, uma redução dos imigrantes vindos da Europa. O problema é que isso teve consequências negativas em vários sectores, nomeadamente, nas Universidades e no Serviço Nacional de Saúde. Hoje, Bruxelas e Londres estão a discutir como voltar a facilitar o acesso dos estudantes europeus às universidades britânicas. Um estudo de Oxford sobre migrações, de 2022, conclui que os imigrantes europeus vinham para trabalhar. Os oriundos da Ásia do Sul e da África subsariana vêm sobretudo ao abrigo da reunião familiar crianças, mulheres e mais velhos.

Quando à special relationship, já restam escassas ilusões. Elon Musk foi a Londres apoiar Farage. J.D. Vance disse que o Governo do Labour “transformou o Reino Unido num país islâmico”. Trump não faz qualquer distinção entre Londres ou Bruxelas – são todos europeus, que se aproveitaram da América, seja na segurança, seja no comércio. Os únicos governos que aprecia são os populistas e nacionalistas. Lá estava Boris Johnson na sua tomada de posse. O Reino Unido é um dos mais firmes apoiantes da Ucrânia, incluindo em termos militares. Na sexta-feira, o Presidente americano anunciou a aplicação de taxas alfandegárias às importações europeias. Não se imagina que o Reino Unido fique de fora.

3. “A Grã-Bretanha nunca pareceu tão exposta, à deriva no Atlântico num mundo pleno de perigos”, escreveu o colunista do britânico Observer, Andrew Rawnsley. “Keir Starmer está confrontado com vários dilemas estratégicos que não se resolverão por wishful thinking.” Rawnsley citava um discurso do chefe das Forças de Defesa britânicas, Almirante Tony Radakin, no qual descreveu o ambiente de segurança como “mais contestado, mais ambíguo e mais perigoso” do que em qualquer outro momento da sua carreira. A guerra híbrida de Moscovo, que passa pela ingerência nas democracias, pela sabotagem e pela desinformação, coloca desafios completamente novos. “O Reino Unido é um dos principais alvos de ciberataques por agentes estatais e não estatais. O número dos que estão na parte superior de grau de severidade triplicou num ano, incluindo um visando hospitais.” E ninguém dirá que o Reino Unido não é dos países da NATO militarmente mais fortes.

Os desafios são comuns à Europa. A defesa passou a estar no centro da agenda europeia. António Costa preside amanhã a um Conselho Europeu informal para discutir a segurança e defesa, que terá como convidados o primeiro-ministro britânico e secretário-geral da NATO, Mark Rutte.

4. Em 2016, quando do referendo britânico e da primeira eleição de Trump, o mundo ainda era outro. A Rússia já tinha invadido o Donbass e anexado a Crimeia, sem que a Europa e os Estados Unidos (de Obama) fizessem grande coisa para dissuadir Putin. A China já era um enorme desafio estratégico, mas os europeus só invejavam o seu gigantesco mercado. A economia europeia estava a sair da Grande Recessão do início da década sem ter aprendido qualquer lição sobre os riscos dos grandes choques assimétricos. Trump ainda era uma relativa incógnita.

Hoje, dos dois lados do Canal da Mancha, caíram todas as ilusões. Cinco anos depois do Brexit, o Reino Unido precisa da União Europeia e a União Europeia precisa do Reino Unido. Para não ficaram isolados, divididos e “expostos” no Atlântico, num mundo que lhes é adverso. Às suas democracias, aos seus interesses estratégicos, à paz e a prosperidade com que se habituaram a viver. A maioria dos britânicos quer uma aproximação à Europa e desconfia dos Estados Unidos. Já foi lançado, entretanto, o movimento “Briturn”. É um bom sinal.