domingo, 9 de fevereiro de 2025

Isabel Figueiredo in O Expresso de 07-02-25 - E agora a reforma!?

 



Não existe um motivo que me leve a sonhar com a reforma. Pelo contrário, nesta altura da vida, repudio a ideia

06 fevereiro 2025 22:57

Respondi, “Eu, cá, quando me reformar...” e parei. Tinha iniciado uma frase cuja conclusão não corresponderia ao que realmente penso. Quando me reformar o quê? Fiquei a pensar. Apanhada pela súbita impossibilidade de concretizar o enunciado.

Explico: quando me reformar vou viajar? Trabalharei no jardim e na horta sem culpa do que tenho por fazer em casa? Passarei o dia a ler e ver filmes? Vou fazer outros cursos? Esta última hipótese agradou-me, mas logo me lembrei que comprei um curso de poda de árvores há duas semanas, mas ainda não tive tempo para assistir às aulas e ler os materiais.

Não existe um motivo que me leve a sonhar com a reforma. Pelo contrário, nesta altura da vida, repudio a ideia. Muitos terão vontade de me responder duramente, ao ler estas palavras. Mas falo por mim, apenas. Não é ideologia liberal. É liberdade de pensamento e de expressão. Todos temos direito à atribuição de uma pensão justa, e à desvinculação de um horário e de preocupações laborais mais cedo do que consigna a lei. Mas como é possível pensar em reforma quando o que somos e o que fazemos está ligado de forma tão umbilical? Se fizer uma grande viagem de lazer, será impossível não escrever sobre o que vivi. Se ler um bom livro ou vir um bom filme, é impossível não estabelecer relações com o que escrevi e quero escrever. A vida inspira-me. A obra alheia inspira-me. Tudo em mim vai acabar na minha profissão ou nas tarefas do quintal e no jardim. Essas, fisicamente pesadas. Muitas pessoas que se dedicam ao trabalho cultural, artístico têm esta reação: “Ganho pouco, estou cansado, mas quero continuar.”

Não o diria nos tempos em que lecionava. Mas a minha vida deu uma guinada inesperada. Já não acordo com vontade de fugir ao trabalho e à vida. É exatamente o contrário. Quando chegar a idade da reforma, quero continuar a fazer exatamente isto: escrever crónicas, escrever mais isto e também aquilo.

O trabalho, tal como o concebo, deve ser um sentido para a vida, não para ganhar a vida. As senhoras reformadas, na minha aldeia alentejana, fazem tapetes para estarem entretidas

Para que este efeito se dê, precisaremos de juntar alguns fatores. Um: gostar muito do que fazemos; dois: o trabalho não pesar excessivamente em relação ao conjunto de interesses da nossa vida; três: tornar inadmissível o abuso das nossas capacidades; quatro: denunciar as usuais tentativas de humilhação ou desvalor do trabalho. São inconcebíveis. A maioria dos trabalhadores, em todos os sectores, desenvolve as suas atividades sob as ameaças diretas ou indiretas que acabei de referir. Sei como o fazem em escolas e em jornais. Sei quem são as vítimas preferidas. Conheço o agressor-tipo.

O trabalho é, em muitos casos, um longo caminho para o Calvário, porque se tem filhos para criar, contas de luz, do supermercado e uma casa para pagar, fora o resto. A isto as pessoas chamam vida. Eu chamo cativeiro com trabalhos forçados. Estes cidadãos anseiam justamente pela reforma.

Marx defendia, e bem, que o salário é a retribuição suficiente para nos mantermos em condições de trabalhar a fim de nos mantermos. É neste contexto que se enquadra o “eu, quando me reformar, isto e aquilo” que nos é tão familiar.

É verdade que gostaria de conseguir visitar meia dúzia de países, sem ser a trabalho. Também gostaria de só apanhar sol enquanto bebo um copo de água. Mas quanto tempo de viagem e sol suportaria? Tenho trabalhado muito e preciso de descanso, consciência que desencadeou este texto. A semana passada revelei ao meu editor: “Este ano escrevo o livro x e depois tiro um ano de sabática só para ler e descansar.” Ele sorriu, como sorri sempre que digo as minhas infantilidades e inconveniências e respondeu: “Acho que faz muito bem.” Disse-o porque me conhece e está convencido de que se me deixar à solta, sem programação, a minha mente rapidamente encontra um “projeto muito engraçado”. Desgraço-me sozinha. No dia seguinte, entrei numa casa bonita, contemplei a decoração, e disse algo que nunca tinha pensado até aquele momento: “Esta casa dava um programa de televisão. Estou a imaginar o seguinte...” E descrevi o programa que a minha mente estava a ver. Ri-me, os outros riram-se.

O trabalho, tal como o concebo, deve ser um sentido para a vida, não para ganhar a vida. As senhoras reformadas, na minha aldeia alentejana, fazem tapetes para estarem entretidas. Algumas estão com 90 anos. Não precisam do que fazem, mas acordam todos os dias para os seus tapetes. Assim que o sol aquece, sentam-se à porta, no seu banquinho de madeira e palha, desenrolam a tela, que logo lhes cobre as pernas e se estende pelo chão. Pegam na cesta das lãs, nos esquemas, e ali passam o dia, parando para almoçar e ir ao ATL contar histórias antigas. Estas senhoras tiveram trabalhos duros. No campo ou na cidade. O que fazem depois de se reformar? Trabalham. Ao seu ritmo, quando e porque querem. Todos estes tapetes são vendidos nas lojas de artesanato em Arraiolos. Fazer tapetes ao sol, conversando com quem passa parece-me uma reforma tão boa como escrever a vida inteira.

Isabel Figueiredo in O Expresso de 07-02-25

 

As crianças também sofrem

 

A psicoterapia na infância: reforçar as bases para o desenvolvimento emocional

Ao longo do tempo, a investigação sobre os efeitos do tratamento tornou-se mais rigorosa e precisa, documentando com clareza as técnicas mais adequadas para cada problemática

SVT1992/GETTY IMAGES

À semelhança dos adultos, as crianças podem sofrer de stress, ansiedade, depressão e dificuldades interpessoais. Uma vez que as suas capacidades de regulação emocional ainda estão em desenvolvimento, quanto mais nova for a criança, maior a dificuldade de gestão dos sentimentos complexos. É comum estas adversidades manifestarem-se através de alterações comportamentais e emocionais, o que aumenta o desafio dos pais.

Os esforços para ajudar crianças e jovens a lidarem com dificuldades emocionais e comportamentais são antigos e a crescente percepção da importância deste tipo de apoio foi favorável à evolução de modelos e métodos de psicoterapia. A compreensão da psicopatologia da infância e da adolescência evoluiu significativamente, inf uenciando a forma como os problemas de saúde mental das crianças e jovens são avaliados, compreendidos e tratados.

Ao longo do tempo, a investigação sobre os efeitos do tratamento tornou-se mais rigorosa e precisa, documentando com clareza as técnicas mais adequadas para cada problemática. Este avanço permitiu a personalização da psicoterapia e aumentou a probabilidade de sucesso das intervenções.

No final do século XX, a psicoterapia da criança e do adolescente contava com diversas abordagens baseadas em evidências para diferentes condições, sendo a mais conhecida a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Atualmente, a efif cácia da intervenc a o psicolo gica encontra-se amplamente demonstrada pela literatura científica, comprovando o seu papel no ali vio do sofrimento associado aos problemas de saúde psicológica e na redução das conseque ncias sociais e econo micas.

Segundo a ordem dos psicólogos portugueses, a psicoterapia consiste num método que engloba um conjunto de técnicas e procedimentos, fundamentados em evidência científica e orientados por princípios éticos, com o propósito de modificar comportamentos, pensamentos e emoções, visando a redução do sofrimento psicológico e a promoção do desenvolvimento pessoal e do bem-estar. A psicoterapia da infância proporciona um espaço adequado para compreender e potenciar o desenvolvimento e a expressão das vivências e sentimentos que geram sintomas e mal-estar na criança. Trata-se de uma intervenção terapêutica bem estabelecida e especializada que considera os factores inerentes ao desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança/jovem para responder às suas necessidades, considerando a faixa etária, a dinâmica familiar, as circunstâncias específicas de vida e o mundo que a rodeia. Pode ser realizada em contexto público ou privado, como os centros de saúde, as clínicas ou os hospitais.

Ao longo da terapia, os pais, a família e/ou outros prestadores de cuidados devem funcionar como coterapeutas, sendo esta parelha especialmente pertinente para uma compreensão e intervenção mais personalizada dos sinais e sintomas da criança e para garantir que as novas competências são utilizadas em casa, na escola e noutros contextos. Em algumas situações, a combinação da psicoterapia com a farmacoterapia pode ser necessária para otimizar a eficácia do tratamento, especialmente em casos de maior gravidade ou quando há um comprometimento significativo do funcionamento emocional e comportamental da criança ou jovem.

A literatura demonstra que existem diferenças nas práticas baseadas em evidências identificadas para

A psicoterapia na infância não é uma solução mágica, mas um processo complexo

crianças mais novas em relação às crianças mais velhas ou adolescentes para vários problemas, com impacto diferenciado do envolvimento dos pais. A TCC e o treino parental e a intervenção familiar, em conjunto com uma boa aliança terapêutica encontram bons resultados. A psicoterapia torna-se mais eficaz quando a criança se sente à vontade para confiar e expressar o que sente, tornando o tempo de terapia num momento só da criança.

O terapeuta exerce a função de facilitador, sendo capaz de identifif car as dificuldades e auxiliar na procura de melhores alternativas, ao mesmo tempo que orienta os pais sobre como agirem perante as dificuldades da criança, que muitas vezes advêm de dificuldades encontradas dentro da família.

No caso das crianças pequenas, as intervenções precoces que se centram no treino de competências demonstraram ser muito eficazes. É comum recorrer-se à terapia baseada no jogo, dado expressarem-se melhor através daquilo que consideram brincadeira. Este tipo de terapia, sempre orientada, envolve o uso de brinquedos, desenhos e jogos para ajudar a criança a identificar temas difíceis, além de reconhecer, identificar e verbalizar sentimentos e ensinar competências sociais e emocionais essenciais para tornarse mais f exível e resiliente. Através de uma combinação da conversação terapêutica e do brincar, a criança tem a oportunidade de compreender e gerir melhor os seus conf itos, sentimentos e comportamentos, reduzir os comportamentos agressivos, resolver problemas, ou lidar com situações de stress (como o divórcio dos pais ou o luto), de modo a dar novos significados aos seus sentimentos e emoções.

A psicoterapia na infância não é uma solução rápida ou mágica, mas um processo complexo que procura reduzir os sintomas e proporcionar qualidade de vida à criança. O recurso a este tipo de ajuda com sucesso é preventivo do desenvolvimento de dificuldades emocionais no adulto.

A contra informação ou a falsa perceção?

 

Onde está a verdade?

Vivemos numa época de “factos alternativos”, notícias falsas, mentiras repetidas várias vezes que se tornam aceites com verdades e perceções que se sobrepõem às provas. É por isso cada vez mais difícil saber quão perto estamos da verdade. Usando como critério para lá chegar a quantidade e solidez das provas, facilmente concluímos que a aplicação rigorosa do método científico é a nossa arma mais poderosa. Isto apesar das limitações deste método sistemático.

Einstein terá afirmado que “nenhuma quantidade de experimentação pode provar que estou certo; uma única experiência pode provar que estou errado”, o que reflete as limitações do método científico. Provavelmente, referia-se à dificuldade ou incapacidade da ciência em provar algo definitivamente.

De facto, a ciência lida com modelos e hipóteses (em linguagem mais comum, teorias, termo que utilizarei), que vão resistindo, ou não, à sua testagem controlada e à luz de novos conhecimentos. Mas isto não quer dizer que não seja possível acumular provas suficientes para afirmar algo com certeza e ter teorias que resistem ao teste do tempo. Por exemplo, a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin tem sido testada ao longo de cerca de 170 anos e todas as provas recolhidas a apoiam. Por isso, é seguro afirmar que não é apenas mais uma teoria e que explica cabalmente a diversidade da vida na Terra.

Não podemos é pôr ao mesmo nível provas obtidas através do método científico, que implica a sujeição à avaliação pelos pares e crenças ou suposições.

Por isso, não devemos discutir no mesmo plano a teoria da evolução das espécies de Darwin e o design inteligente ou a prova de que a Terra é redonda e o “terraplanismo”. E aqui a comunicação social pode e deve contribuir para garantir que os planos não se misturam.

Claro que deve haver debate de ideias, mas entre diferentes teorias que seguem o método científico e foram submetidas à avaliação por pares. Também pode haver debate entre o que nem sequer são teorias científicas, mas num contexto diferente. De facto, têm surgido nos últimos anos vários tipos de negacionismo, das vacinas às alterações climáticas, mas que não têm qualquer prova científica que as apoie; ou são apoiadas por provas submetidas a revisão por pares mas falsificadas, como é o caso da ligação entre as vacinas e o autismo.

Numa altura em que temos à disposição um manancial de informação sem precedentes, o que não significa necessariamente conhecimento, é preciso mais do que nunca ser crítico e não apenas alinhar com a maioria. De facto, não é por haver muita gente a dizer algo que isso se torna verdadeiro. Muitas vezes é o contrário, pois uma mentira sensacionalista tem mais eco nas notícias e nas redes sociais que uma verdade trivial.

Mesmo no meio científico, novas teorias começam muitas vezes com uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas que desafia o conhecimento estabelecido. Desta forma, é crucial avaliar como foram testadas as teorias, quais as provas existentes e como foram demonstradas. Claro que isto requer conhecimento técnico e por isso a comunicação de ciência, feita por cientistas e jornalistas, é tão importante.

Podemos, assim, concluir que a ciência é a nossa maior aliada nesta procura incessante pela verdade sobre o mundo que nos rodeia. Não que seja perfeita, pois é um edifício em constante construção e uma teoria só é válida até que surja uma prova que a substitua por outra. Mas o método científico já demonstrou que é o melhor que existe e por isso deve ser seguido e defendido sem reservas.

Professor associado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Os professores também sofrem!



Bullying: os professores também são vítimas

Numa época marcada por perceções, em que o “achismo” impera, a Missão Escola Pública lançou um inquérito para apurar dados sobre o bullying a docentes. Não é um fenómeno recente, mas agudizou-se nos últimos anos. Habituada a falar dele entre crianças e jovens, a sociedade tende a esquecer-se de que a escola é também o local onde professores são igualmente vítimas de assédio por parte das estruturas que integram. Entendido como um comportamento agressor por parte de alguém no exercício de uma relação de poder, será fácil perceber que ele aconteça também entre professores.

A indisciplina crescente, as agressões verbais e, muitas vezes, físicas, a vandalização de carros e a criação de contas online para aniquilamento da honra profissional e pessoal são algumas das ações levadas a cabo por alunos e apuradas por este inquérito. Os encarregados de educação (EE) questionam avaliações e práticas pedagógicas e pressionam para alteração de notas dos seus educandos quando estas não correspondem às expetativas que a falta de trabalho dos jovens não cumpriu. Estes poderiam parecer atos simples de violência e vandalismo, mas a verdade é que os professores se encontram completamente desprotegidos na sua prática diária, enfraquecidos por políticas sucessivas de descrédito perante a opinião pública, e qualquer EE pode apresentar queixa num órgão do Ministério da Educação, que este também não defenderá o seu trabalhador; mesmo que a queixa não contenha matéria para um processo disciplinar, será sempre aberto um e o docente terá de provar a sua inocência, negando aquele pressuposto geral de que somos todos inocentes até prova em contrário.

As direções das escolas, ao invés de proteger os seus docentes, aplicam na maior parte das vezes uma justiça discricionária no exercício de uma autonomia conferida pela lei, que lhes permite coagir e perseguir quando são questionadas: a atribuição de horários desumanos, com inúmeros níveis de lecionação, carregados de tarefas burocráticas e desnecessárias, desrespeito pela antiguidade na atribuição de horários, o não registo atempado das informações nas plataformas que permitem as progressões na carreira, acesso a drives e emails pessoais nos domínios institucionais, coação para aceitação de horas extraordinárias, pressão para a subida de classificações e ameaças de instauração de processos disciplinares quando tudo o que impõem falha.

Nalguns casos, também os assistentes operacionais exercem sobre os docentes os seus pequenos poderes, tentando agradar às direções (que também os avaliam), marcando faltas por atrasos de minutos, quando estes se encontravam a receber EE ou a resolver assuntos da escola num mundo que não se regula pelos mesmo horários que esta.

Dos seus pares, também recebem agressões, com tentativas de descredibilização do seu trabalho perante as direções e os coordenadores de departamento, em virtude de uma avaliação de desempenho, quando se encontram num universo em que apenas um ou dois terão direito ao “excelente”.

As consequências de todos estes atos nem sempre são claras, mas resultam sempre em problemas de saúde física e mental, que redundam todos eles num desencantamento pela profissão e, num expoente mais elevado, até pela própria vida.

Nada disto são apenas perceções. Era importante que a sociedade compreendesse todas as implicações e a necessidade de se rever o Modelo de Gestão das Escolas e o Estatuto da Carreira Docente, focando-se nos aspetos que minam todo o processo que procura o sucesso da sociedade do futuro.

Numa carta a Einstein, Freud explicava os fundamentos da guerra, com a pulsão da morte do outro em defesa da sua pulsão de vida, mas esta não pode ser a explicação e o fim para todos estes atos de agressão. Há que criar estruturas e procedimentos que minimizem esta pulsão intrínseca à espécie humana. Essa é a nossa responsabilidade como seres pensantes. Porque há preços que nenhuma sociedade deve estar disposta a pagar, como este de não existir capital humano para assegurar a aprendizagem da sociedade do futuro. 

A minha opinião como professor:

A minha perceção leva-me a afirmar, sem certezas absolutas, que o bullying sobre os professores existe. A pressão de alunos, encarregados de educação, e outros intervenientes do processo educativo é real. O facto das "evidências" terem um papel importante no processo de avaliação docente e não docente leva a que haja uma certa competição, por vezes, negativa. Felizmente, na nossa ilha, os casos referidos no artigo ainda não tomaram contornos demasiado sérios. Contudo, há que repensar a legislação vigente e dar maior proteção aos docentes, que, diga-se de passagem, hoje em dia já não têm aquele estatuto social que em tempos usufruiram. 

08-02-25






Apaixonar-se

 

Por quem nos apaixonamos

As pessoas por quem nos apaixonamos mostram o que queremos. Mais do que qualquer outra coisa, mais do que qualquer psicanálise, mostram-nos o que escolhe a nossa alma — a nossa alma desprevenida, e cega, quando está livre de considerações práticas, de juízo, de medo, de cálculo.

Lembro-me de ter cinco ou seis anos e de ter ficado estarrecido quando li, numa quadra que uma namorada me deu, o verso Love is blind.

Pareceu-me tão violento falar assim do amor, que eu julgava ser a vontade de abraçar os meus pais e os meus gatinhos, mais a perdição que sentia quando estava longe deles.

Levei décadas a perceber que o amor é mesmo cego — que se ri das tentativas de nos dizer quem é que devemos ou não devemos amar. Mesmo assim (as apps de encontros são a mais recente iteração), achamos — incrivelmente — que não se perde tempo em tentar conduzir as coisas do amor no sentido em que nos dá mais jeito.

Quem é que devo escolher para partilhar a minha vida? Porque é tão fácil a toda a gente responder a essa pergunta, quando são outros, mesmo desconhecidos, que perguntam? Talvez a única esperança seja alterar a pergunta, para lhe dar uns pozinhos de realismo. Por exemplo: em quem devo arriscar para partilhar a minha vida? Quem é que devo escolher para negociar e discutir — a todo o momento — a minha vida?

Na verdade, não escolhemos a pessoa que amamos. Apenas escolhemos o que vamos esperar dela. É uma escolha feita sem justiça e sem realismo, já que a pessoa já está escolhida e, a bem dizer, não temos direito a contrapartida.

Muita sorte tivemos nós em ter conseguido apanhar a pessoa que amamos: o resto é o vale de lágrimas que merecemos. Também não temos influência sobre a nossa própria alma: seria como a chuva mandar na chuva.

Talvez a melhor estratégia seja aprender a viver com a alma (e o amor) que se tem, deixando-a ser como ela insiste em ser, e guardando as nossas energias para a minimização regular e metódica dos estragos.

 SUCCESS

To laugh often and much; to win the respect of intelligent people and the affection of children; to earn the appreciation of honest critics and endure the betrayal of false friends; to appreciate beauty, to find the best in others; to leave the world a bit better, whether by a healthy child, a garden patch or a redeemed social condition; to know even one life has breathed easier because you have lived. This is to have succeeded.
~ Bessie Anderson Stanley
>> Source: Bessie Anderson Stanley was best known for her poem “Success” (also referred to as “What is Success?” or “What Constitutes Success?”). The poem is often mistakenly attributed to Ralph Waldo Emerson or Robert Louis Stevenson.
Stanley was born in Newton, Iowa, and married Arthur Jehu Stanley in 1900, after which the couple resided in Lincoln, Kansas. In 1904, she wrote her famous piece for a contest hosted by Brown Book Magazine under the sponsorship of George Livingston Richards Co. of Boston, Massachusetts. Rather than submitting her entry as a poem, she presented it as an essay in response to the prompt, “What is success?” (with a limit of 100 words). Stanley’s entry won the first prize, earning her $250.
May be an image of text that says "What is success? www.facebook.com/Englishitrt earn To laugh often and much; to win the respect of intelligent people and the affection of children; to the appreciation of honest critics and endure the betrayal of false friends; to appreciate beauty, to find the best in others; to leave the world a bit better, whether by a healthy child, a garden patch or a redeemed social condition; to know even one life has breathed easier because you have lived. This is t have succeeded. ~Bessie Anderson Stanley www.facebook.com/EnglihLtrat English Literature"
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

John Keats - an English Poet


 

 

Bob Marley: 80 Anos de um Legado que Ecoa no Tempo

Hoje, 6 de fevereiro de 2025, celebramos o que seria o 80.º aniversário de Robert Nesta Marley, mais conhecido como Bob Marley. Se estivesse vivo, o "Rei do Reggae" continuaria a ser um farol de esperança, amor e resistência, inspirando gerações com a sua música e mensagem atemporal. Nascido em Nine Mile, na Jamaica, em 1945, Marley não foi apenas um músico; foi um ícone cultural, um ativista e um mensageiro da paz cuja influência transcende fronteiras e décadas.
### **A Música como Arma de Libertação**
Bob Marley elevou o reggae a um patamar global, transformando-o num veículo de luta e consciência social. Canções como *"Get Up, Stand Up"* e *"Redemption Song"* não são apenas melodias cativantes; são hinos de resistência que ecoam até hoje. A sua música, enraizada na filosofia rastafári, abordava temas como a igualdade racial, a justiça social e a liberdade, tornando-se um símbolo de união e esperança para milhões.
A sua capacidade de unir pessoas foi demonstrada em momentos históricos, como o *One Love Peace Concert* de 1978, onde conseguiu reunir líderes políticos rivais no mesmo palco, promovendo a reconciliação num país dividido.
### **Um Legado que Inspira o Mundo**
O impacto de Marley vai além da música. Ele foi um dos primeiros artistas do chamado "Terceiro Mundo" a conquistar o mercado internacional, abrindo caminho para outros estilos e culturas ganharem visibilidade global. A sua mensagem de amor e união continua a ressoar, especialmente num mundo ainda marcado por divisões e conflitos.
A sua influência estende-se também à moda, com os seus dreadlocks e roupas coloridas tornando-se símbolos de identidade e resistência cultural. Além disso, a sua defesa do uso ritualístico da cannabis ajudou a mudar a percepção global sobre a planta, contribuindo para debates sobre a sua legalização.
### **Celebrações do 80.º Aniversário**
Para marcar esta data especial, a família Marley e fãs de todo o mundo organizaram uma série de eventos. O destaque é o concerto *"Uprising"*, transmitido ao vivo a partir dos Tuff Gong Studios, em Kingston, Jamaica, com performances de artistas como Mortimer, Bugle e Naomi Cowan.
Além disso, um coral de 8.000 crianças, o *Young Voices*, realizou um singalong global, interpretando clássicos como *"One Love"* e *"Three Little Birds"*. Este evento, transmitido a partir de Manchester, no Reino Unido, simboliza a universalidade da mensagem de Marley, que continua a unir pessoas de todas as idades e origens.
### **A Mensagem Eterna de Bob Marley**
Bob Marley partiu precocemente aos 36 anos, vítima de um cancro, mas o seu legado permanece vivo. O álbum *"Legend"*, lançado postumamente, é o mais vendido da história do reggae, com mais de 33 milhões de cópias comercializadas em todo o mundo.
A sua música não é apenas um reflexo do passado; é um guia para o futuro. Num mundo ainda marcado por desigualdades e conflitos, as suas palavras continuam a inspirar: *"Liberte-se da escravidão mental. Ninguém além de você pode libertar a sua mente"*.
### **Conclusão**
Bob Marley não era apenas um músico; era um visionário cuja arte transcendia barreiras culturais e geográficas. Hoje, ao celebrarmos os 80 anos do seu nascimento, honramos não apenas o artista, mas o homem que acreditava no poder da música para mudar o mundo. O seu legado é uma prova de que, mesmo após a partida física, o amor, a paz e a resistência continuam a ecoar, unindo-nos numa só voz.
🎵
One love, one heart, let's get together and feel all right.
🎵
– Bob Marley.

O Desporto e os Jovens - in O Público edição 07-02-25

Desporto escolar vs. Desporto federado

1. É tema recorrente o das relações entre os dois segmentos em título e dura, pelo menos, desde quando foi publicado o Decreto-Lei n.º 95/91, de 26 de Fevereiro, que aprovou o regime jurídico da Educação Física e do desporto escolar. Autonomia? Desporto escolar como antecâmara do desporto federado? Duas linhas paralelas?

Se mirarmos a lei — esse texto que tudo pretende dizer —, no concreto a Lei n.º 5/2007, de 16 de Janeiro, Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, temos o artigo 28.º, em especial seus n.ºs 1 e 2: “1 — A educação física e o desporto escolar devem ser promovidos no âmbito curricular e de complemento curricular, em todos os níveis e graus de educação e ensino, como componentes essenciais da formação integral dos alunos, visando especificamente a promoção da saúde e condição física, a aquisição de hábitos e condutas motoras e o entendimento do desporto como factor de cultura. 2 — As actividades desportivas escolares devem valorizar a participação e o envolvimento dos jovens, dos pais e encarregados de educação e das autarquias locais na sua organização, desenvolvimento e avaliação.” Programático, nada mais. Mas a narrativa é bonita.

Se olharmos para o Programa do Governo (outros diriam o mesmo), as palavras continuam a ser bonitas. No espaço “Um País com futuro para os jovens e para as crianças”, há um lugar para o “Desporto e Actividade Física”: “A qualidade de vida é, também, afectada pelos fracos níveis de prática de actividade física e desportiva da população portuguesa, a que acrescem problemas de literacia motora e desportiva. É fundamental melhorar significativamente a prática desportiva em idade escolar até ao ensino superior. Torna-se necessário, hoje mais do que nunca, assumir e impulsionar o desporto como uma ferramenta de inclusão social.”

Também lá estão as santas “sinergias”: “Clarificar competências e potenciar sinergias entre a educação física, o desporto na escola (todos os níveis de ensino), o desporto no clube, as actividades de recreio desportivo de cariz comunitário e o desporto para segmentos populacionais específicos.”

2. Uma história vizinha. No início do ano escolar 2023/2024, um pai procurou inscrever as duas filhas num clube de basquetebol. Porém, o clube negou tal inscrição, sustentando que as meninas não se inscreveram num dado programa — multidesportivo — escolar. O pai requereu então à Diputación de Gipuzkoa que fosse permitida a inscrição no clube, sem necessidade de estarem inscritas no programa escolar, frisando que a actividade se realizaria fora das horas lectivas. A resposta: “A participação das meninas numa escola de basquetebol está subordinada à participação no referido programa do centro escolar.” Foram invocados os riscos de uma precoce especialização e a prossecução do desenvolvimento educativo integral do menor através do desporto. Em suma, a obrigatoriedade de as crianças fazerem desporto na escola é um requisito indispensável para se inscreverem num clube.

3. Quem não concordou foi o Tribunal Superior de Justicia do País Basco. Para o tribunal, de acordo com a Ley del Deporte do País Basco, deve-se garantir preferencialmente a prática multidesportiva, mas nunca a tornar obrigatória. Por outro lado, não são de descartar as preferências dos menores no desenvolvimento da prática desportiva.

4. A história accionou a memória. Dispunha o artigo 1.º do Decreto 11:561, de 7 de Maio de 1926: “Nenhum aluno das escolas dependentes do Ministério da Instrução Pública poderá dedicar-se a práticas desportivas de qualquer natureza sem uma autorização escrita dos chefes dos estabelecimentos em que se encontrem matriculados, declarando-o apto para as realizar.” Segundo o artigo 2.º, a falta da autorização escrita implicava para os alunos que “indevidamente se dedicarem à prática de qualquer desporto a anulação da sua matrícula”. Simpático.