domingo, 23 de fevereiro de 2025

O impacto das obras de vários escritores no leitor!

 Para Dostoiévski, as Noites eram Brancas, envoltas na melancolia dos sonhos irrealizados e na efemeridade do amor platônico, onde a solidão se dissolve em devaneios, apenas para ser reafirmada ao amanhecer.

Para Proust, o tempo era perdido, mas não irremediavelmente; ele se escondia nos interstícios da memória involuntária, nos aromas e sabores que despertam mundos esquecidos, onde o passado não é um lugar distante, mas uma dimensão oculta, acessível apenas àqueles que sabem sentir.
Para Kafka, o processo era infinito, e a condição humana, um labirinto de burocracia e culpa, onde a busca por justiça se converte em absurdo, e o indivíduo se dissolve em um sistema que o julga sem explicação, sem redenção, sem saída.
Para Camus, o estrangeiro era o próprio homem, um ser exilado em sua própria existência, condenado a uma liberdade que não pediu e a uma lucidez que o distancia do mundo, onde o sol escaldante sobre um corpo morto pode decidir um destino.
Para Joyce, o Ulisses moderno vagava por Dublin, mas sua odisseia não se fazia em mares revoltos, e sim na linguagem, na consciência fragmentada e nas epifanias do cotidiano, onde cada instante, por mais banal, carrega o peso e a complexidade do universo.
Para Nietzsche, Zaratustra falava, mas poucos o ouviam; suas palavras anunciavam o fim dos velhos deuses e a necessidade de criar novos valores, pois aquele que ousa olhar para o abismo deve estar pronto para se tornar algo além do humano, para dançar sobre o caos sem temê-lo.
Para Mann, a montanha era mágica, um microcosmo onde o tempo se distorcia, onde a tuberculose era metáfora da decadência europeia, e onde a contemplação da morte se misturava ao desejo pelo sublime, em um eterno diálogo entre a razão e a febre.
Para Borges, o Aleph continha tudo, e em um único ponto do espaço estavam contidas todas as experiências, todos os tempos, todas as histórias já contadas e por contar, pois o infinito não é algo além de nós, mas aquilo que se reflete em cada palavra, em cada livro, em cada pensamento.
Para Virginia Woolf, a senhora Dalloway comprava flores, e nesse gesto trivial estava encapsulada toda a fragilidade da existência, a passagem inexorável do tempo e a necessidade de reafirmar, através dos rituais do dia a dia, uma identidade sempre à beira da dissolução.
Para Pessoa, o desassossego era uma condição natural, pois não há um único eu, mas múltiplos, que coexistem e se contradizem, que escrevem versos sob heterônimos como quem busca escapar de si mesmo, apenas para descobrir que o abismo interior é infinito e inexorável.
E para o leitor, cada página é um espelho onde o tempo, a solidão, o destino e a existência se refletem, aguardando que sua alma, por um instante, se perca e se encontre entre as palavras.
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Aprender a viver com a solidão!

 

A imprescindível aprendizagem da solidão

Urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a refletir

JORM SANGSORN/GETTY IMAGES

Num contexto social em que as crianças são altamente investidas, é muito valorizado o acompanhamento constante dos mais novos, exercido através de uma supervisão intensiva por parte dos adultos. Os pais procuram que os filhos estejam permanentemente acompanhados, quer para ocupar de forma considerada produtiva o tempo da criança, quer para potencializar o seu desenvolvimento cognitivo ou, ainda, para controlar a exposição ao risco. Mas não só. Existe outra ordem de razões para esta supervisão intensiva das crianças. Esta prende-se com o receio de que se sintam sozinhas ou de que se aborreçam.

Nesta sociedade caraterizada pelo excesso de positividade, a presença é altamente valorizada, ao invés da solidão, considerada como algo de negativo, que deve ser combatido a todo o custo, com companhia constante. Para mais, com a diminuição da taxa de natalidade, há muitas crianças que são filhas únicas, pelo que em casa só têm a possibilidade de interagir com os adultos, que as habituam à sua presença permanente, ou quase permanente.

Acostumadas a este modelo de relação, as crianças cedo se tornam dependentes não só da presença como da interação constante com os adultos. São disto exemplo as crianças que não conseguem estar sozinhas — nem que seja apenas por breves momentos — e ainda menos entreter-se com autonomia. Com o passar do tempo, este modelo que foi criado pelos adultos acaba por se tornar invasivo para os seus próprios criadores, que veem o seu tempo sugado por uma exigência excessiva de atenção por parte das crianças.

Apesar deste modelo se tornar invasivo para os próprios adultos que o criaram, poderia pensar-se que, pelo menos para as crianças, seria positivo, na medida em que benefif ciariam de mais atenção. Mas este excesso de atenção, de supervisão, de orientação e de companhia também poderá tornar-se negativo para os mais novos, que não só se tornam demasiado dependentes, como se veem impedidos de desenvolver a autonomia, o sentido de responsabilidade e a saudável capacidade de estarem sós.

Para o pedopsiquiatra Pedro Strecht, não restam dúvidas nesta matéria. Tal como alerta na obra Pais suficientemente bons, “a incapacidade de estar só é um mal psíquico dos tempos atuais”. Esta inaptidão para estar só deve-se, na sua perspetiva, a um excesso de ligação, a um contacto permanente que permite pouco espaço pessoal, que satura com facilidade diversas relações e fragiliza processos de autonomia e de solidez emocional. As consequências estão à vista: “Demasiada ligação, ocupação e proteção desviam os mais novos de desenvolverem de forma lógica os seus padrões de autonomia e responsabilidade”.

Por contraposição a esta excessiva ligação, ocupação e proteção, este pedopsiquiatra defende a saudável capacidade de estar só: “Em tempos em que a aparente necessidade de estar sempre em ligação com tudo e todos, sobretudo através das redes sociais, e em que muitos parecem não saber como lidar com o silêncio ou com a mera ausência de estímulo externo, reaprender a desenvolver esta saudável capacidade surge como uma ideia importante a recuperar”.

Esta saudável capacidade de estar só favorece a possibilidade de desenvolver aquilo que o pedopsiquiatra Donald Winnicott denominou como integração emocional. É precisamente esta capacidade de integração que permite guardar e digerir as experiências, de modo a que estas façam sentido e adquiram espaço na memória de uma construção emocional individual e coletiva.

O movimento de introspeção, que se atinge fundamentalmente quando estamos sós, é responsável pelo desenvolvimento da capacidade de pensar e de criar. Construído a partir da infância, é este movimento que, nas palavras de Pedro Strecht, nos desafia a expandir “a riqueza do nosso diálogo interno, aquele que nos põe a falar, a pensar e a imaginar connosco próprios e com os outros, sem que a sua presença física seja necessária”.

É precisamente por esse motivo que urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a ref etir e, sobretudo, a integrar toda uma série de experiências vividas”, tal como salienta este autor.

De acordo com esta visão, estar sempre em cima dos filhos, não lhes dando a possibilidade de estarem sós, pode implicar uma dificuldade posterior em cuidarem de si mesmos, o risco de manutenção de ligações de total dependência dos outros e uma marcada sensação de insatisfação, que nada nem ninguém parece capaz de preencher.

Para o prevenir, é necessário dar tempo e espaço aos mais novos para que tenham oportunidade de estarem sós. É esta imprescindível aprendizagem da solidão que lhes vai permitir integrar as experiências emocionais, expandir o seu mundo interior, fortalecer a autonomia pessoal, desenvolver a imaginação e aprofundar o pensamento independente.

Quem ama mais quem? in Jornal o Público edição 23-02-25

 

Um ama, o outro nem tanto

Tenho uma teoria sobre o amor. Aplica-se a qualquer casal. Para explicá-lo, é preciso apresentar uma medida, que é a amoria. Uma amoria é a quantidade de energia romântica necessária para levar um beijinho na bochecha. É como se fosse uma caloria erótica. Para dar — e não apenas levar — um beijinho na bochecha já são necessárias cinco amorias. Uma amoria é pelo beijinho em si, as outras quatro são pelo apetecimento de plantar um beijo na bochecha do companheiro.

Cada casal dispõe de 50 mil amorias, que é o suficiente para viverem felizes para o resto da vida, caso sejam prudentes e equitativos, e não esbanjem as amorias todas nos primeiros tempos e nas primeiras rodadas.

Deveriam ficar 25 mil amorias para cada um. Mas é aqui que começam os problemas. É que, na febre e na novidade de amar, há sempre um parceiro com excesso de zelo que açambarca um excesso de amorias.

Num extremo — e conheço um caso que é mesmo assim — um deles fica com 50 mil amorias e o outro fica com zero. O marido, por exemplo, morre de amores pela mulher, mas a mulher não pode com ele.

O marido até não se importa, desde que a mulher não o deixe, mas a mulher sofre muito, porque ninguém compreende que ela trate tão mal uma pessoa que gosta tanto dela.

É um extremo, mas o desnível está quase sempre presente: assim como há sempre uma pessoa mais gorda em qualquer casal, há sempre um membro do casal que gosta mais do outro do que o outro dele.

Para mais, o que é rico em amorias persegue o pobre, porque, gostando muito mais dele, tira muito mais partido da companhia dele.

Já o pobre, que só tem as amorias suficientes para aturar o rico, foge sempre que pode, porque não aguenta o convívio de natureza amorosa e voluntária.

A cada casal compete gerir este desequilíbrio na distribuição do amor.

O rico, apesar de não ser correspondido, é mais feliz, porque tem um propósito na vida: ir atrás de quem ama.

Mas o pobre também se safa, fazendo a vida negra a quem o persegue.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

A Alma gémea

 


John Legend - All of you

》história de alma gêmea《

A expressão do amor foi explicada na história por Aristófanes, que viveu no século IV a.C., com uma lenda mitológica:
“Quando os humanos foram criados, eles tinham quatro braços,
de quatro patas,
Eles eram criaturas muito poderosas, com duas faces separadas em uma cabeça e uma única alma.
Como eram autossuficientes e muito poderosos, eles foram mimados pela ganância e queriam mais.
Eles pediram aos seus criadores o mesmo poder com um corpo, dois braços e duas pernas.
Zeus ficou muito bravo com o que aconteceu e dividiu o povo ao meio;
um lado é masculino, o outro lado é feminino.
Os dois pedaços ficaram tão assustados que se abraçaram.
Zeus enviou todos eles para diferentes partes do mundo em uma ordem caótica.
Aqui estão as peças que ficaram inacabadas desde aquele dia,
Eles buscavam que suas outras metades estivessem completas.
Quando o encontram, eles se tornam uma só alma e se tornam completos novamente.
A partir daquele dia, começou a solidão para aqueles que não tiveram sorte e não conseguiram encontrar sua alma gêmea até a morte.
Hoje
O conceito conhecido como “alma gêmea”
é baseado nesta lenda.
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Crônicas Históricas

Ninguém é dono(a) de ninguém!

 


Deixe-os/as ir.

Se alguém quer sair da sua vida, deixe-o(a) ir. Se alguém escolher outra pessoa em vez de você apesar de receber todo o seu amor, deixe-a estar. Permita que essas pessoas vivam as suas vidas como quiserem.
Se alguém cria distância num relacionamento bonito sem motivo, deixe-o(a) ir. Priorizar alguém que nunca o/ a considerou prioridade é estupidez. A distância num relacionamento também é uma forma de desrespeito.
Se alguém pode passar dias, meses ou até mais tempo sem falar consigo, que seja. Essas pessoas nunca perceberam verdadeiramente a sua importância.
Se alguém não sente falta da sua presença, se pode viver sem o / a ver, deixa-os(as) ficar onde estão. O amor não pode ser unilateral. Agarrar-se a alguém que se retirou de si só leva à auto-humilhação.
No fim de contas, a verdade inegável é que não se pode segurar ninguém para sempre. Tudo na vida é temporário.
Você nasceu sozinho(a), lutou suas maiores batalhas sozinho(a), e um dia, você deixará este mundo sozinho(a). Então escolha sabiamente. Se alguém prioriza o outro em vez de si, então para ele/ ela, essa pessoa não passa de uma parte do seu passado.
Agarrar-se a alguém que nunca o/ a escolheu é auto-engano. O passado é uma ilusão - as memórias são apenas experiências e lições. Então, não olhe para trás. Não ficou nada para trás. A vida é somente sua, e você deve trilhar seu caminho sozinho(a).


Peço desculpa!

 

A guerra contra a desculpa

Penso nas pessoas bondosas que conheci, para ver se consigo chegar a uma definição de bondade que não sirva para envergonhar aqueles que não tiveram a sorte (ou o azar) de nascer bons. Ocorre-me que todas elas estavam constantemente a fazer uma coisa que irritava os outros: arranjar desculpas para quem era atacado por isto ou por aquilo. Arranjar desculpas não é desculpar, mas também não é compreender ou justificar — embora faça parcialmente esses três trabalhinhos.

Arranjar desculpas é um exercício de altruísmo — e logo de bondade. É o procurar razões e atenuantes que é bondoso. É o querer encontrar essas coisas, mesmo quando não se consegue.

Desculpar quem não conhecemos, quem não nos pode nem prejudicar, nem beneficiar começa por ser uma oferta de tempo e de actividade cerebral.

Toda a minha vida odiei quem me tentava calar quando queria defender alguém, dizendo “Ele não precisa que tu o defendas. Ele defende-se sozinho!”. Acho que essa é a voz da maldade. Tenho pena que me tenha levado tanto tempo a perceber isso, mas, sobretudo, tenho pena das vezes todas em que me calei quando me disseram isso.

A bondade não é só desinteressada — também é independente da realidade, daquilo que poderá constituir a verdade ou os factos sobre uma pessoa que não se conhece.

Arranjar desculpas é, acima de tudo, humanizar. É o resultado de pensar “se eu tivesse feito essa coisa repreensível, o que é que me poderia ter levado a fazer uma coisa dessas?” Esta é, por sinal, a grande força dos livros de Maigret: os assassinos são pessoas exactamente como as pessoas que não assassinam ninguém. Simenon era um grande desculpador: se calhar, porque o comportamento dele também tinha muito para desculpar.

Arranjar desculpas não é desculpar: é conversar. Conversar é desequilibrar, ouvir, fazer faísca, acompanhar um pensamento. Na volta, as desculpas irritam mais precisamente por serem bondosas, quando a graça das bisbilhotices é a maldade.

A virtude da compreensão

A Compreensão como Último Refúgio
Observar o homem é contemplar um teatro sem fim, onde cada ator ignora o roteiro e improvisa com a convicção de um papel bem ensaiado. Entre o riso e o desprezo, ergue-se uma terceira via: a compreensão, esse olhar que não julga, mas decifra; que não condena, mas investiga; que não se ergue acima, mas mergulha fundo.
A tragédia e a comédia se enlaçam no destino humano, pois a existência oscila entre a grandeza e a pequenez, entre o sublime e o ridículo. Rir das quedas dos outros é esquecer que tropeçamos do mesmo modo. Desprezar suas ilusões é ignorar as nossas. E, no entanto, há uma tentação irresistível nesses dois gestos: o riso preserva a distância, o desprezo protege da contaminação. Mas compreender exige proximidade, risco, exposição à vertigem de saber-se também parte do jogo.
O olhar que compreende não se fecha na ironia nem na indiferença. Ele adentra as contradições humanas com o rigor de um pensador e a ternura de um poeta. Vê na loucura uma forma de lógica tortuosa, na hipocrisia um refúgio contra o desamparo, no erro a tentativa cega de acerto.
Pois o homem é um ser que tateia no escuro, guiado por certezas que amanhã serão pó. Ele erra porque busca, cai porque caminha, mente porque teme. E, se tudo isso é um espetáculo absurdo, não cabe ao sábio ser espectador zombeteiro, mas sim aquele que, em meio ao caos das máscaras, ousa enxergar a verdade oculta nos gestos mais banais.
Oliver Harden
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