Para Dostoiévski, as Noites eram Brancas, envoltas na melancolia dos sonhos irrealizados e na efemeridade do amor platônico, onde a solidão se dissolve em devaneios, apenas para ser reafirmada ao amanhecer.
domingo, 23 de fevereiro de 2025
O impacto das obras de vários escritores no leitor!
Aprender a viver com a solidão!
A imprescindível aprendizagem da solidão
Urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a refletir
- Público - Edição Lisboa
- Professora do 1.º Ciclo
Num contexto social em que as crianças são altamente investidas, é muito valorizado o acompanhamento constante dos mais novos, exercido através de uma supervisão intensiva por parte dos adultos. Os pais procuram que os filhos estejam permanentemente acompanhados, quer para ocupar de forma considerada produtiva o tempo da criança, quer para potencializar o seu desenvolvimento cognitivo ou, ainda, para controlar a exposição ao risco. Mas não só. Existe outra ordem de razões para esta supervisão intensiva das crianças. Esta prende-se com o receio de que se sintam sozinhas ou de que se aborreçam.
Nesta sociedade caraterizada pelo excesso de positividade, a presença é altamente valorizada, ao invés da solidão, considerada como algo de negativo, que deve ser combatido a todo o custo, com companhia constante. Para mais, com a diminuição da taxa de natalidade, há muitas crianças que são filhas únicas, pelo que em casa só têm a possibilidade de interagir com os adultos, que as habituam à sua presença permanente, ou quase permanente.
Acostumadas a este modelo de relação, as crianças cedo se tornam dependentes não só da presença como da interação constante com os adultos. São disto exemplo as crianças que não conseguem estar sozinhas — nem que seja apenas por breves momentos — e ainda menos entreter-se com autonomia. Com o passar do tempo, este modelo que foi criado pelos adultos acaba por se tornar invasivo para os seus próprios criadores, que veem o seu tempo sugado por uma exigência excessiva de atenção por parte das crianças.
Apesar deste modelo se tornar invasivo para os próprios adultos que o criaram, poderia pensar-se que, pelo menos para as crianças, seria positivo, na medida em que benefif ciariam de mais atenção. Mas este excesso de atenção, de supervisão, de orientação e de companhia também poderá tornar-se negativo para os mais novos, que não só se tornam demasiado dependentes, como se veem impedidos de desenvolver a autonomia, o sentido de responsabilidade e a saudável capacidade de estarem sós.
Para o pedopsiquiatra Pedro Strecht, não restam dúvidas nesta matéria. Tal como alerta na obra Pais suficientemente bons, “a incapacidade de estar só é um mal psíquico dos tempos atuais”. Esta inaptidão para estar só deve-se, na sua perspetiva, a um excesso de ligação, a um contacto permanente que permite pouco espaço pessoal, que satura com facilidade diversas relações e fragiliza processos de autonomia e de solidez emocional. As consequências estão à vista: “Demasiada ligação, ocupação e proteção desviam os mais novos de desenvolverem de forma lógica os seus padrões de autonomia e responsabilidade”.
Por contraposição a esta excessiva ligação, ocupação e proteção, este pedopsiquiatra defende a saudável capacidade de estar só: “Em tempos em que a aparente necessidade de estar sempre em ligação com tudo e todos, sobretudo através das redes sociais, e em que muitos parecem não saber como lidar com o silêncio ou com a mera ausência de estímulo externo, reaprender a desenvolver esta saudável capacidade surge como uma ideia importante a recuperar”.
Esta saudável capacidade de estar só favorece a possibilidade de desenvolver aquilo que o pedopsiquiatra Donald Winnicott denominou como integração emocional. É precisamente esta capacidade de integração que permite guardar e digerir as experiências, de modo a que estas façam sentido e adquiram espaço na memória de uma construção emocional individual e coletiva.
O movimento de introspeção, que se atinge fundamentalmente quando estamos sós, é responsável pelo desenvolvimento da capacidade de pensar e de criar. Construído a partir da infância, é este movimento que, nas palavras de Pedro Strecht, nos desafia a expandir “a riqueza do nosso diálogo interno, aquele que nos põe a falar, a pensar e a imaginar connosco próprios e com os outros, sem que a sua presença física seja necessária”.
É precisamente por esse motivo que urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a ref etir e, sobretudo, a integrar toda uma série de experiências vividas”, tal como salienta este autor.
De acordo com esta visão, estar sempre em cima dos filhos, não lhes dando a possibilidade de estarem sós, pode implicar uma dificuldade posterior em cuidarem de si mesmos, o risco de manutenção de ligações de total dependência dos outros e uma marcada sensação de insatisfação, que nada nem ninguém parece capaz de preencher.
Para o prevenir, é necessário dar tempo e espaço aos mais novos para que tenham oportunidade de estarem sós. É esta imprescindível aprendizagem da solidão que lhes vai permitir integrar as experiências emocionais, expandir o seu mundo interior, fortalecer a autonomia pessoal, desenvolver a imaginação e aprofundar o pensamento independente.
Quem ama mais quem? in Jornal o Público edição 23-02-25
Um ama, o outro nem tanto
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
Tenho uma teoria sobre o amor. Aplica-se a qualquer casal. Para explicá-lo, é preciso apresentar uma medida, que é a amoria. Uma amoria é a quantidade de energia romântica necessária para levar um beijinho na bochecha. É como se fosse uma caloria erótica. Para dar — e não apenas levar — um beijinho na bochecha já são necessárias cinco amorias. Uma amoria é pelo beijinho em si, as outras quatro são pelo apetecimento de plantar um beijo na bochecha do companheiro.
Cada casal dispõe de 50 mil amorias, que é o suficiente para viverem felizes para o resto da vida, caso sejam prudentes e equitativos, e não esbanjem as amorias todas nos primeiros tempos e nas primeiras rodadas.
Deveriam ficar 25 mil amorias para cada um. Mas é aqui que começam os problemas. É que, na febre e na novidade de amar, há sempre um parceiro com excesso de zelo que açambarca um excesso de amorias.
Num extremo — e conheço um caso que é mesmo assim — um deles fica com 50 mil amorias e o outro fica com zero. O marido, por exemplo, morre de amores pela mulher, mas a mulher não pode com ele.
O marido até não se importa, desde que a mulher não o deixe, mas a mulher sofre muito, porque ninguém compreende que ela trate tão mal uma pessoa que gosta tanto dela.
É um extremo, mas o desnível está quase sempre presente: assim como há sempre uma pessoa mais gorda em qualquer casal, há sempre um membro do casal que gosta mais do outro do que o outro dele.
Para mais, o que é rico em amorias persegue o pobre, porque, gostando muito mais dele, tira muito mais partido da companhia dele.
Já o pobre, que só tem as amorias suficientes para aturar o rico, foge sempre que pode, porque não aguenta o convívio de natureza amorosa e voluntária.
A cada casal compete gerir este desequilíbrio na distribuição do amor.
O rico, apesar de não ser correspondido, é mais feliz, porque tem um propósito na vida: ir atrás de quem ama.
Mas o pobre também se safa, fazendo a vida negra a quem o persegue.
sábado, 22 de fevereiro de 2025
A Alma gémea
John Legend - All of you
》história de alma gêmea《
Ninguém é dono(a) de ninguém!
Deixe-os/as ir.
Peço desculpa!
A guerra contra a desculpa
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
Penso nas pessoas bondosas que conheci, para ver se consigo chegar a uma definição de bondade que não sirva para envergonhar aqueles que não tiveram a sorte (ou o azar) de nascer bons. Ocorre-me que todas elas estavam constantemente a fazer uma coisa que irritava os outros: arranjar desculpas para quem era atacado por isto ou por aquilo. Arranjar desculpas não é desculpar, mas também não é compreender ou justificar — embora faça parcialmente esses três trabalhinhos.
Arranjar desculpas é um exercício de altruísmo — e logo de bondade. É o procurar razões e atenuantes que é bondoso. É o querer encontrar essas coisas, mesmo quando não se consegue.
Desculpar quem não conhecemos, quem não nos pode nem prejudicar, nem beneficiar começa por ser uma oferta de tempo e de actividade cerebral.
Toda a minha vida odiei quem me tentava calar quando queria defender alguém, dizendo “Ele não precisa que tu o defendas. Ele defende-se sozinho!”. Acho que essa é a voz da maldade. Tenho pena que me tenha levado tanto tempo a perceber isso, mas, sobretudo, tenho pena das vezes todas em que me calei quando me disseram isso.
A bondade não é só desinteressada — também é independente da realidade, daquilo que poderá constituir a verdade ou os factos sobre uma pessoa que não se conhece.
Arranjar desculpas é, acima de tudo, humanizar. É o resultado de pensar “se eu tivesse feito essa coisa repreensível, o que é que me poderia ter levado a fazer uma coisa dessas?” Esta é, por sinal, a grande força dos livros de Maigret: os assassinos são pessoas exactamente como as pessoas que não assassinam ninguém. Simenon era um grande desculpador: se calhar, porque o comportamento dele também tinha muito para desculpar.
Arranjar desculpas não é desculpar: é conversar. Conversar é desequilibrar, ouvir, fazer faísca, acompanhar um pensamento. Na volta, as desculpas irritam mais precisamente por serem bondosas, quando a graça das bisbilhotices é a maldade.
A virtude da compreensão



