domingo, 23 de fevereiro de 2025

Quando precisam de ti!

 Quando eu era criança, meu avô me disse:

"Nunca empreste seu guarda-chuva a alguém que só se lembra de você quando chove".
Naquele momento eu não entendi.
Achei uma frase bonita, nada mais.
Mas eu cresci, e a vida me ensinou o seu significado da pior forma.
Aprendi que tem pessoas que só aparecem quando precisam de algo, que te procuram quando o seu mundo desmorona,
mas quando o sol brilha,
Eles nem sequer se lembram do teu nome.
Agora, quando alguém se aproxima sob a tempestade,
Pergunto-me se amanhã, quando o sol nascer,
continuarei existindo para ele / ela.
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Os livros de fevereiro 2025

 

                     Os livros mais importantes do mês de fevereiro de 2025


 

Este será um artigo mensal em que faço uma análise do que melhor li / estou a ler durante o mês em curso.

Começo por um livro da escritora Argentina Ariana Harwicz – Trilogia da Paixão, editado pela Elsinore. Este livro reúne num único volume os três primeiros romances da escritora (Mata-me, Amor; A Atrasada Mental; Precoce) que compõem, segundo a autora, uma trilogia involuntária sobre a maternidade e os seus tabus. A sua escrita é única e explosiva em que o prazer do paradoxo, da transgressão e da imoralidade flui livremente numa linguagem poderosa e poética.

Ela, a heroína sem nome, na primeira pessoa, um violento turbilhão de paixões, duelos, medos e obsessões que a perseguem em casa, no hospital, no bosque, na estrada. Ela e a febril sensação de estar presa a um papel que não foi da sua inteira escolha, a uma realidade doméstica e familiar que a destrói e da qual anseia fugir. Sempre ela no limite alucinante do amor, da sanidade e da vida. *****

 

O segundo livro que sugiro ainda não está editado em Português, a previsão é maio ou junho de 2025. Percival EverettJames, editado pela Mantle. Comprei-o na Leya do Funchal. Uma preciosidade. Lembram-se das Aventuras de Huckleberry Finn e do Tom Sayer? James dá-nos a visão do escravo Jim / James. Na altura em que foi escrito Jim / James era uma personagem secundária, agora é a personagem principal. Inesquecível, cheio de emoção, belo e brutal, uma tragédia e uma farsa, este romance reescreve um romance brilhante e dá-nos a conhecer uma voz, a de James / Jim que foi suprimida aquando do romance original. Percival Everett já tinha publicado outro excelente romance, As Árvores. Esteve na Shortlist do famoso, The Booker Prize 2024. *****

 

O terceiro livro que recomendo é um excelente ensaio que nos faz refletir sobre o nosso papel numa sociedade cada vez mais exigente, dominada pela tecnologia.

O Guia para Não Fazer Nada da escritora / ensaísta Jenny Odell e publicado pela Casa das Letras. Jenny Odell oferece uma alternativa a um ambiente dominado pela tecnologia viciante, desenhada para monopolizar a nossa atenção e maximizar a produtividade, um ambiente que parece ser impossível escapar. Como podemos recuperar as nossas vidas? Para ela, a nossa atenção é um recurso essencial, desperdiçado quando subordinado às prioridades capitalistas. O seu guia convida-nos a escolher como utilizar a nossa atenção de modo intencional e transformador, propondo a redescoberta da nossa conexão com o mundo natural e social. A sua leitura faz-nos pensar / refletir sobre o nosso lugar na sociedade digital. *****

 


O quarto livro será editado em Portugal a 06 de março de 2025. Orbital de Samantha Harvey foi o vencedor do The Booker Prize 2024 o mais conceituado prémio literário em língua inglesa. A vida no planeta Terra contada pela primeira vez pelas vozes de seis astronautas na sua nave espacial em orbita. Estão lá para recolher informações meteorológicas e levar a cabo experiências científicas. No entanto, estão confinados a um espaço exíguo, separados da Terra, o seu mundo. Chegam notícias da morte da mãe de um deles e a partir daqui somos testemunhas de pensamentos e desejos de regresso a casa. Tão longe do planeta, contudo nunca se sentiram tão ligados a ele. O que seria a vida sem a Terra, e a Terra sem a humanidade? *****

 

O último livro que vos sugiro chama-se Contos Sombrios da escritora Shirley Jackson. Volume póstumo, Contos Sombrios reúne as dezassete histórias mais perturbadoras de Shirley Jackson, incluindo a Possibilidade do Mal, a que foi atribuído o Edgar Allan Poe Award em 1966. Considerada mestre do gótico literário e do suspense psicológico, a autora norte-americana retrata de uma forma exímia a crueldade do quotidiano e a ambiguidade humana, num mundo onde a loucura e o terror estão à espreita. Aconselho-vos a começar a coletânea pelo conto O Aprendiz de Feiticeiro, um clássico à Poe. *****

Quando quiseres!

 “Liga-me quando quiseres, quando sentires vontade, mas não como quem carrega a obrigação de fazê-lo. Não seria justo nem para ti, nem para mim.

Às vezes imagino como seria maravilhoso receber a tua ligação sem motivo aparente, apenas porque sim, como quem sente sede e busca um copo de água. Um gesto simples, natural, despretensioso.
Mas sei que esperar isso seria exigir o impossível. Comigo, nunca precisarás de fingir uma sede que não sentes. Nunca precisarás de inventar um desejo que não existe.”
(José Saramago)
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O impacto das obras de vários escritores no leitor!

 Para Dostoiévski, as Noites eram Brancas, envoltas na melancolia dos sonhos irrealizados e na efemeridade do amor platônico, onde a solidão se dissolve em devaneios, apenas para ser reafirmada ao amanhecer.

Para Proust, o tempo era perdido, mas não irremediavelmente; ele se escondia nos interstícios da memória involuntária, nos aromas e sabores que despertam mundos esquecidos, onde o passado não é um lugar distante, mas uma dimensão oculta, acessível apenas àqueles que sabem sentir.
Para Kafka, o processo era infinito, e a condição humana, um labirinto de burocracia e culpa, onde a busca por justiça se converte em absurdo, e o indivíduo se dissolve em um sistema que o julga sem explicação, sem redenção, sem saída.
Para Camus, o estrangeiro era o próprio homem, um ser exilado em sua própria existência, condenado a uma liberdade que não pediu e a uma lucidez que o distancia do mundo, onde o sol escaldante sobre um corpo morto pode decidir um destino.
Para Joyce, o Ulisses moderno vagava por Dublin, mas sua odisseia não se fazia em mares revoltos, e sim na linguagem, na consciência fragmentada e nas epifanias do cotidiano, onde cada instante, por mais banal, carrega o peso e a complexidade do universo.
Para Nietzsche, Zaratustra falava, mas poucos o ouviam; suas palavras anunciavam o fim dos velhos deuses e a necessidade de criar novos valores, pois aquele que ousa olhar para o abismo deve estar pronto para se tornar algo além do humano, para dançar sobre o caos sem temê-lo.
Para Mann, a montanha era mágica, um microcosmo onde o tempo se distorcia, onde a tuberculose era metáfora da decadência europeia, e onde a contemplação da morte se misturava ao desejo pelo sublime, em um eterno diálogo entre a razão e a febre.
Para Borges, o Aleph continha tudo, e em um único ponto do espaço estavam contidas todas as experiências, todos os tempos, todas as histórias já contadas e por contar, pois o infinito não é algo além de nós, mas aquilo que se reflete em cada palavra, em cada livro, em cada pensamento.
Para Virginia Woolf, a senhora Dalloway comprava flores, e nesse gesto trivial estava encapsulada toda a fragilidade da existência, a passagem inexorável do tempo e a necessidade de reafirmar, através dos rituais do dia a dia, uma identidade sempre à beira da dissolução.
Para Pessoa, o desassossego era uma condição natural, pois não há um único eu, mas múltiplos, que coexistem e se contradizem, que escrevem versos sob heterônimos como quem busca escapar de si mesmo, apenas para descobrir que o abismo interior é infinito e inexorável.
E para o leitor, cada página é um espelho onde o tempo, a solidão, o destino e a existência se refletem, aguardando que sua alma, por um instante, se perca e se encontre entre as palavras.
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Aprender a viver com a solidão!

 

A imprescindível aprendizagem da solidão

Urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a refletir

JORM SANGSORN/GETTY IMAGES

Num contexto social em que as crianças são altamente investidas, é muito valorizado o acompanhamento constante dos mais novos, exercido através de uma supervisão intensiva por parte dos adultos. Os pais procuram que os filhos estejam permanentemente acompanhados, quer para ocupar de forma considerada produtiva o tempo da criança, quer para potencializar o seu desenvolvimento cognitivo ou, ainda, para controlar a exposição ao risco. Mas não só. Existe outra ordem de razões para esta supervisão intensiva das crianças. Esta prende-se com o receio de que se sintam sozinhas ou de que se aborreçam.

Nesta sociedade caraterizada pelo excesso de positividade, a presença é altamente valorizada, ao invés da solidão, considerada como algo de negativo, que deve ser combatido a todo o custo, com companhia constante. Para mais, com a diminuição da taxa de natalidade, há muitas crianças que são filhas únicas, pelo que em casa só têm a possibilidade de interagir com os adultos, que as habituam à sua presença permanente, ou quase permanente.

Acostumadas a este modelo de relação, as crianças cedo se tornam dependentes não só da presença como da interação constante com os adultos. São disto exemplo as crianças que não conseguem estar sozinhas — nem que seja apenas por breves momentos — e ainda menos entreter-se com autonomia. Com o passar do tempo, este modelo que foi criado pelos adultos acaba por se tornar invasivo para os seus próprios criadores, que veem o seu tempo sugado por uma exigência excessiva de atenção por parte das crianças.

Apesar deste modelo se tornar invasivo para os próprios adultos que o criaram, poderia pensar-se que, pelo menos para as crianças, seria positivo, na medida em que benefif ciariam de mais atenção. Mas este excesso de atenção, de supervisão, de orientação e de companhia também poderá tornar-se negativo para os mais novos, que não só se tornam demasiado dependentes, como se veem impedidos de desenvolver a autonomia, o sentido de responsabilidade e a saudável capacidade de estarem sós.

Para o pedopsiquiatra Pedro Strecht, não restam dúvidas nesta matéria. Tal como alerta na obra Pais suficientemente bons, “a incapacidade de estar só é um mal psíquico dos tempos atuais”. Esta inaptidão para estar só deve-se, na sua perspetiva, a um excesso de ligação, a um contacto permanente que permite pouco espaço pessoal, que satura com facilidade diversas relações e fragiliza processos de autonomia e de solidez emocional. As consequências estão à vista: “Demasiada ligação, ocupação e proteção desviam os mais novos de desenvolverem de forma lógica os seus padrões de autonomia e responsabilidade”.

Por contraposição a esta excessiva ligação, ocupação e proteção, este pedopsiquiatra defende a saudável capacidade de estar só: “Em tempos em que a aparente necessidade de estar sempre em ligação com tudo e todos, sobretudo através das redes sociais, e em que muitos parecem não saber como lidar com o silêncio ou com a mera ausência de estímulo externo, reaprender a desenvolver esta saudável capacidade surge como uma ideia importante a recuperar”.

Esta saudável capacidade de estar só favorece a possibilidade de desenvolver aquilo que o pedopsiquiatra Donald Winnicott denominou como integração emocional. É precisamente esta capacidade de integração que permite guardar e digerir as experiências, de modo a que estas façam sentido e adquiram espaço na memória de uma construção emocional individual e coletiva.

O movimento de introspeção, que se atinge fundamentalmente quando estamos sós, é responsável pelo desenvolvimento da capacidade de pensar e de criar. Construído a partir da infância, é este movimento que, nas palavras de Pedro Strecht, nos desafia a expandir “a riqueza do nosso diálogo interno, aquele que nos põe a falar, a pensar e a imaginar connosco próprios e com os outros, sem que a sua presença física seja necessária”.

É precisamente por esse motivo que urge alterar a visão negativa que temos dos chamados tempos “mortos” ou dos momentos de alguma natural solidão. Estes desempenham um papel relevante para ajudar “a crescer, a pensar e a ref etir e, sobretudo, a integrar toda uma série de experiências vividas”, tal como salienta este autor.

De acordo com esta visão, estar sempre em cima dos filhos, não lhes dando a possibilidade de estarem sós, pode implicar uma dificuldade posterior em cuidarem de si mesmos, o risco de manutenção de ligações de total dependência dos outros e uma marcada sensação de insatisfação, que nada nem ninguém parece capaz de preencher.

Para o prevenir, é necessário dar tempo e espaço aos mais novos para que tenham oportunidade de estarem sós. É esta imprescindível aprendizagem da solidão que lhes vai permitir integrar as experiências emocionais, expandir o seu mundo interior, fortalecer a autonomia pessoal, desenvolver a imaginação e aprofundar o pensamento independente.

Quem ama mais quem? in Jornal o Público edição 23-02-25

 

Um ama, o outro nem tanto

Tenho uma teoria sobre o amor. Aplica-se a qualquer casal. Para explicá-lo, é preciso apresentar uma medida, que é a amoria. Uma amoria é a quantidade de energia romântica necessária para levar um beijinho na bochecha. É como se fosse uma caloria erótica. Para dar — e não apenas levar — um beijinho na bochecha já são necessárias cinco amorias. Uma amoria é pelo beijinho em si, as outras quatro são pelo apetecimento de plantar um beijo na bochecha do companheiro.

Cada casal dispõe de 50 mil amorias, que é o suficiente para viverem felizes para o resto da vida, caso sejam prudentes e equitativos, e não esbanjem as amorias todas nos primeiros tempos e nas primeiras rodadas.

Deveriam ficar 25 mil amorias para cada um. Mas é aqui que começam os problemas. É que, na febre e na novidade de amar, há sempre um parceiro com excesso de zelo que açambarca um excesso de amorias.

Num extremo — e conheço um caso que é mesmo assim — um deles fica com 50 mil amorias e o outro fica com zero. O marido, por exemplo, morre de amores pela mulher, mas a mulher não pode com ele.

O marido até não se importa, desde que a mulher não o deixe, mas a mulher sofre muito, porque ninguém compreende que ela trate tão mal uma pessoa que gosta tanto dela.

É um extremo, mas o desnível está quase sempre presente: assim como há sempre uma pessoa mais gorda em qualquer casal, há sempre um membro do casal que gosta mais do outro do que o outro dele.

Para mais, o que é rico em amorias persegue o pobre, porque, gostando muito mais dele, tira muito mais partido da companhia dele.

Já o pobre, que só tem as amorias suficientes para aturar o rico, foge sempre que pode, porque não aguenta o convívio de natureza amorosa e voluntária.

A cada casal compete gerir este desequilíbrio na distribuição do amor.

O rico, apesar de não ser correspondido, é mais feliz, porque tem um propósito na vida: ir atrás de quem ama.

Mas o pobre também se safa, fazendo a vida negra a quem o persegue.