sábado, 26 de julho de 2025

Josefa de Óbidos

 A 22 de julho de 1684 faleceu Josefa de Ayala Figueira, mais conhecida como Josefa de Óbidos, pintora barroca do século XVII. Passam hoje 341 anos. Herdou do seu pai, Baltazar Gomes Figueira, a vocação para a pintura. Ficou célebre pelas suas pinturas de temas religiosos e as suas naturezas mortas. Na imagem, natureza morta com Doces e Barros (Biblioteca Municipal Braamcamp Freire, Santarém).




Educação e valores

 

Educação e valores

Li recentemente uns artigos de opinião da autoria de dois amigos que muito prezo e estimo, em que se defende que a escola não tem como missão transmitir valores. Com toda a sinceridade, não estou de acordo, e não ficaria de bem com a minha consciência se não o assumisse publicamente, embora perceba que nos escritos dos meus amigos o conceito de valores possa ser diferente do que eu utilizo nesta minha reflexão. Passo a explicar porquê.

A missão da escola assenta em três pilares: o ensino dos conhecimentos de base científica; o desenvolvimento de certos comportamentos e atitudes; e a transmissão de valores. Os conhecimentos são os clássicos: línguas (materna e estrangeiras), matemática, história, geografia, física, química, biologia, geometria descritiva, informática nas suas diferentes dimensões e ainda o aproveitamento das aptidões de cada um em expressão plástica e exercício físico.

O desenvolvimento de certos comportamentos e atitudes é indispensável, porque o que hoje mais conta na vida são as capacidades habilitantes que incentivam a liderança, a responsabilidade, o trabalho em equipa, a curiosidade, a inovação e, sobretudo, a proatividade, que constitui a característica fundamental que um candidato deve demonstrar quando se propõe para um lugar numa qualquer organização.

Os valores a transmitir também são fáceis de elencar. São a honestidade, a justiça, o respeito pelos outros, a solidariedade, o sentido da ética, a não-violência na resolução dos conflitos e o respeito escrupuloso pela verdade.

Deverão os professores e as educadoras ser tolerantes com a prática da mentira, como hoje se tolera na vida política? Não deverá ser norma nas escolas corrigir as crianças que retiram os objetos aos colegas e tentar educar aqueles que praticam esse atos? Poderemos não exigir dos professores, dos estudantes e dos familiares um comportamento ético elevado, de forma a evitarem-se os comportamentos menos dignos a que vamos assistindo, quase diariamente, na nossa vida pública? Não será adequado reprimir os comportamentos violentos, designadamente a violência verbal, que ocorrem entre alunos, de forma a prevenirem-se estes atos que hoje parecem ser aceites como normais entre adultos com responsabilidades? Promover o diálogo para a resolução de conflitos não é um valor que deve ser transmitido pela escola? Pode o código de conduta de uma escola permitir que um aluno de pele branca se dirija a um outro estudante chamando-lhe “o preto” ou “o monhé”?

O respeito pelos outros não é um valor que deva ser promovido pela escola? Não deve a escola incentivar a solidariedade entre todos criando grupos de trabalho, equipas e clubes nas mais diversas áreas, a fim de se consolidarem laços e solidariedade entre os seus membros? A solidariedade não é um valor que reforça a coesão social, desenvolve o bom entendimento dos membros de uma sociedade e combate as desigualdades? Poderemos ter uma escola em que se admitem decisões injustas e que acentuam as desigualdades e promovem situações iníquas?

Em resumo: a escola não se substitui à família nem à educação que os pais transmitem aos seus filhos, mas tem a responsabilidade de consolidar a transmissão de valores que devem estar presentes em todos os atos da vida de cada um.

Tive a sorte e o privilégio de frequentar, entre 1945 e 1949, um jardim-escola numa cidade do interior do país. Na década de oitenta, Robert Fulghum publicou nos Estados Unidos um livro cujo título é All I Really Need to Know I Learned in the Kindergarten (Tudo o que realmente preciso de saber aprendi no jardim-escola). Tinha três anos quando entrei pela primeira vez no jardim-escola e considero que tudo o que lá me foi transmitido em matéria de valores completou, e bem, o que me foi transmitido pelos meus pais.

As escolas que não têm a preocupação de transmitir e praticar estes valores não cumprem com a missão que eu entendo que uma escola deve ter. Peço desculpa de o dizer, mas é o que penso. Talvez seja por ter uma formação de engenheiro e não saber nada, nem de sociologia nem de ciência política.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Como Perder Amigos Rapidamente - Os Perigos da Percepção (Zigurate, 2025)

 

As nossas percepções estão quase sempre erradas

Os erros de percepção podem ter consequências graves para a nossa vida em sociedade. Um exemplo paradigmático foi o referendo do “Brexit”, em 2016, que levou à saída do Reino Unido da União Europeia

DRPintura de Salvador Dalí, O Olho, de 1945



A maioria de nós tem uma resposta na ponta da língua para quase qualquer pergunta sobre o mundo — ou sobre o país em que vive — acerca de temas como pobreza, rendimentos, segurança, desemprego, imigração, entre outros. Para todos estes assuntos estão disponíveis dados oficiais e trabalhos de investigação científica, mas, em geral, não os consultamos antes de nos pronunciarmos sobre eles — ficamos satisfeitos em ter “só uma ideia”. Só que essa ideia, muitas vezes, está errada — devido a preconceitos, enviesamentos, desinformação e falhas na forma como pensamos, como irei contar neste ensaio, que faz parte da série Como Perder Amigos Rapidamente.

Em média, quantos parceiros sexuais pensam que pessoas com idades entre os 45 e os 54 anos tiveram? Esta questão é discutida no livro Os Perigos da Percepção (Zigurate, 2025), da autoria do investigador social britânico Bobby Duffy. As estimativas para o número de parceiros dos homens não andam longe da realidade — entre 16 e 19, considerando dados dos EUA, Reino Unido e Austrália.

O caso torna-se desconcertante quando se pede aos homens para estimarem o número médio de parceiros das mulheres. Nos EUA, aqueles estimam que estas têm 27, quando elas dizem ter apenas 12. Um número não negligenciável de inquiridos alvitrou mesmo números superiores a 50, revelando uma imagem muito distorcida da sexualidade feminina.

Outro facto curioso é que os números de parceiros declarados por homens e mulheres são incompatíveis, uma vez que o das mulheres é significativamente inferior — tal sugere que ambos os sexos mentem, embora em sentidos opostos.

Os erros de percepção não se limitam ao domínio da sexualidade. Inquéritos realizados pelo Instituto Ipsos, que Bobby Duffy dirigiu, revelam outros desvios impressionantes. Numa média de 37 países, 20% das pessoas consideram que as vacinas causam autismo em crianças saudáveis — uma crença sem qualquer fundamento. Na maioria dos países, as populações sobrestimam de forma significativa a percentagem de imigrantes e de muçulmanos residentes.

Para Bobby Duffy, estes erros resultam de duas grandes causas: a desinformação a que estamos expostos e as limitações do nosso modo de pensar.

O psicólogo israelita e norte-americano Daniel Kahneman, prémio Nobel da Economia em 2002, propôs uma teoria influente sobre o funcionamento da mente humana, assente em dois sistemas de pensamento.

O sistema 1 é um tipo de pensamento rápido, inconsciente e contínuo. Baseia-se em intuições, associações, emoções e experiências passadas, permitindo-nos reacções rápidas, essenciais para a sobrevivência. Ele é muito útil para reconhecer rostos ou evitar ser atropelado. No entanto, este sistema recorre a atalhos mentais que podem distorcer o raciocínio lógico.

Por outro lado, o sistema 2 é esforçado e consciente, pelo que requer tempo e concentração. Permite-nos resolver problemas matemáticos complexos ou efectuar planeamentos sofisticados, sendo capaz de corrigir os erros do primeiro. Como é lento e cansativo, o nosso tipo de pensamento dominante é o sistema 1. Usamos uma imagem dramática na televisão que prende a nossa atenção para formar as nossas impressões rápidas. Já a análise de dados estatísticos é custosa e demorada.

Também o médico sueco Hans Rosling, autor do livro Factfulness (Temas e Debates, 2019), se debruçou sobre as nossas percepções. Rosling argumenta que o mundo melhorou enormemente em quase todos os indicadores de desenvolvimento humano, mas que muitas pessoas instruídas têm percepções sistematicamente mais pessimistas… E erradas. Ele e a sua equipa da Fundação Gapminder desenvolveram inquéritos com questões objectivas sobre dados reais.

Por exemplo: “Quantas meninas nos países de baixos rendimentos completam a escola primária?” Apresentam-se três opções de resposta: 20%, 40% e 60%. A resposta correcta é 60%, mas, em média, apenas 7% das pessoas a escolhem, segundo dados recolhidos em vários países. Se pedíssemos a um grupo de chimpanzés para seleccionar aleatoriamente uma resposta, eles acertariam cerca de 33% das vezes. Porque é que os humanos acertam menos do que os chimpanzés? Por causa de preconceitos, formados a partir de imagens e notícias negativas que nos marcam emocionalmente.

Outro factor que distorce a nossa percepção da realidade é o enviesamento. O psicólogo e cientista político norte-americano Philip E. Tetlock, autor do livro Superprevisões (Gradiva, 2016), realizou extensas investigações nesta área. Os seus estudos mostraram que os especialistas com posições ideológicas rígidas — sejam de esquerda ou de direita — têm um desempenho inferior a fazer previsões quando comparados com pessoas mais moderadas ou cognitivamente flexíveis. Um dos motivos é o chamado raciocínio motivado: a tendência para interpretar os factos à luz do que gostaríamos que fosse verdade, e não daquilo que os dados reais simplesmente indicam.

Os erros de percepção podem ter consequências graves para a nossa vida em sociedade. Um exemplo paradigmático foi o referendo do “Brexit”, em 2016, que levou à saída do Reino Unido da União Europeia (UE). O resultado foi influenciado por diversas ideias erradas, como o exagero amplamente divulgado sobre o valor das contribuições britânicas para a UE. Infelizmente, não se trata de um caso isolado. Continuamos a formar opiniões com base em intuições falíveis — e isso não só nos afasta da realidade como também pode moldar decisões colectivas com resultados nefastos.

David Marçal - Bioquímico e divulgador de ciência

quinta-feira, 24 de julho de 2025

As imensas distâncias até as estrelas

 As imensas distâncias até as estrelas e as galáxias significam que todos os corpos que vemos no espaço estão no passado – alguns deles tal como eram antes que a Terra viesse a existir. Os telescópios são máquinas do tempo. Há muitas eras, quando uma galáxia primitiva começou a derramar luz na escuridão circundante, nenhuma testemunha poderia ter adivinhado que bilhões de anos mais tarde alguns blocos remotos de rocha e metal, gelo e moléculas orgânicas se juntariam para formar um lugar chamado Terra; nem que surgiria a vida, nem que seres pensantes evoluiriam e um dia captariam um ponto dessa luz galáctica, tentando decifrar o que a enviara em sua trajetória. E depois que a Terra morrer, daqui a uns 5 bilhões de anos, depois que ela for calcinada ou até tragada pelo Sol, surgirão outros mundos, estrelas e galáxias – e eles nada saberão de um lugar outrora chamado Terra.”

Carl Sagan, Pálido Ponto Azul, cap. 2 - Aberrações da Luz.





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A Ajuda, ”extra-muros” da cidade de Lisboa

 A Ajuda, ”extra-muros” da cidade de Lisboa, há 165 anos atrás.

Fantástica ilustração da autoria de Tomás da Anunciação, datada de c. 1860, de uma vista que presumo tirada do Alto de Santo Amaro.
Nela se distinguem-se claramente a Torre de Belém (ao fundo, à esquerda), a Capela de São Jerónimo (mais ao fundo, ao cimo, à direita), o Real Paço da Ajuda, a Torre Sineira, a Rua do Cruzeiro, a cúpula da Igreja da Memória e o casario que compunha a Freguesia, à época pertencente não a Lisboa mas ao então recém-criado (e depois extinto) Concelho de Belém.











A Cidade Sagrada de Caral no Peru...

 A Cidade Sagrada de Caral no Peru...

Com quase 5.000 anos, é a cidade mais antiga das Américas e antecede até as grandes Pirâmides do Egito. Inclui 6 pirâmides, a maior das quais mede 150 x 160 metros, 2 praças cerimoniais submersas, bairros residenciais e um sistema de irrigação.
Caral encontra-se no Vale do Supe, a 200 quilómetros a norte de Lima, no Peru. A civilização de Caral , a mais antiga do continente americano, foi contemporânea de outras como as da China, Egipto, Índia e Mesopotâmia; tendo-se convertido já naquela época numa cidade-estado, rodeada por outras civilizações reunidas ainda no que se denomina "sociedades aldeãs".
Assim, trata-se de uma das zonas geográficas que se podem considerar como berço da civilização mundial pela sua antiguidade, e pelo seu desenvolvimento independente.O Caral é considerado Patrimônio Mundial da UNESCO.
A antiguidade da Cidade Sagrada de Caral confirmou-se através de 42 datações rádio carbónicas realizadas nos Estados Unidos. Segundo estes, a Cidade Sagrada de Caral tem uma antiguidade média de entre 2627 a 2100 anos a.C. aproximadamente, enquanto no resto da América o desenvolvimento urbano começou 1550 anos depois deste Peru. A sua descoberta muda as teorias que até agora existiam sobre o aparecimento das antigas civilizações no Peru.
Até há pouco tempo considerava-se a Chavín de Huántar o mais velho foco cultural deste país, com um máximo de 1500 anos a.C.
A cidade existiu durante os anos 3000 a.C. até 1800 a.C., quando sofreu com secas, fome, doenças e os seus habitantes abandonaram-na até ser descoberta em 1905.


Somos os Sultões do Swing!

 O ano era 1977, Mark Knopfler entra num bar quase vazio, em Deptford, Londres. No palco, uma banda de jazz tocava para algumas cadeiras vazias como que para um grande público. Ao terminar o seu desempenho, o cantor fechou a noite com um comentário carregado de humor e dignidade: "Boa noite, somos os Sultões do Swing! ”.

Knopfler ficou fascinado com a irónica atitude dos músicos, que, embora ninguém os ouvisse, não perdiam o amor nem o orgulho pela sua arte. O episódio ficou se repetindo em sua mente durante toda aquela noite, e chegando a casa, escreveu a letra num guardanapo, transformando esse postal cinza na vibrante história de músicos reais que tocam por pura paixão, sem promessas de fama ou fortuna.
Quando os Dire Straits lançaram em 1978, Sultans of Swing conquistaram o mundo com a sua narrativa honesta e a guitarra inesquecível que parecia contar a história nota a nota.
Essa música tornou-se uma homenagem a todos os músicos de bares, anónimos, que fazem música por amor, não pelo brilho falso da indústria.



Freud visitou a Grécia

 Em 1904, Freud visitou a Grécia pela primeira e última vez. Quando chegou ao topo da colina da Acrópole em Atenas, experimentou sentimentos de espanto e descrença. Ele revisitou sua experiência mais de trinta anos depois em uma carta aberta ao escritor francês Romain Rolland, texto denominado "Um Distúrbio de Memória na Acrópole".

“O que abalou a minha segurança foi o pensamento: ‘Então tudo isso é verdade, como dizíamos em nossa infância — que nós um dia estaríamos em Atenas e veríamos a Acrópole!’ No momento em que isso se tornou realidade, eu não conseguia acreditar.” (Freud em "Um Distúrbio de Memória na Acrópole", 1936)