domingo, 24 de agosto de 2025

«Cresça onde eu não posso»

 No inverno mais cruel de 1943, quando o gueto de Lviv desmoronou sob a fome, doenças e terror das deportações, uma mãe tomou a decisão mais difícil que um ser humano pode imaginar. Ela não pensou em si mesma, mas na vida do seu filho.

Com o gueto prestes a ser aniquilado, um grupo de trabalhadores polacos do esgoto arriscava tudo para tirar clandestinamente crianças judeus através de túneis escuros e gelados. Naquela noite, a jovem mãe enrolou o seu bebé em um xaile gasto, colocou-o em um balde de metal e, com um último beijo na testa, entregou-o à escuridão. Enquanto o desciam para os esgotos, sussurrou com a serenidade de quem ama além de si mesma:
«Cresça onde eu não posso».
Ela não saiu do gueto. Nunca mais se soube o seu nome ou o seu túmulo. O seu destino perdeu-se no silêncio, como o de tantas mães anónimas que escolheram morrer para que os seus filhos vivessem.
A criança frágil e doente sobreviveu. Foi levado pelas entranhas da cidade e emergiu para a vida. Décadas depois, tornado-se um homem e com um futuro que só existia graças ao sacrifício da sua mãe, regressou a Lviv. Tinha uma rosa na mão. Parou em frente a uma velha tampa de esgoto enferrujada, perto do antigo gueto, depositou-a silenciosamente e murmurou:
"Aqui começou a minha vida".
Foi nesse lugar, na escuridão do subsolo, que a sua mãe entregou tudo o que tinha para lhe dar um destino. Em tempos onde o amor parecia impossível, ela transformou-o em um ato eterno.
Porque mesmo em Auschwitz, em Lviv, nos guetos e nas sombras do ódio, o amor de uma mãe brilhou mais forte que a morte.



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