domingo, 23 de agosto de 2026

Semana de 16 a 23 de agosto de 2026 - melhores sons da semana!

 

Semana de 16 a 23 de agosto de 2026

A partir de hoje, e com alguma periodicidade, escreverei um pequeno artigo sobre os grupos musicais que mais me chamaram à atenção, e que valem a pena, ouvir um pouco sobre cada um dos seus projetos. Darei alguma informação sobre cada grupo / artista e colocarei, sempre, uma faixa de introdução; o nome do artista/ grupo; o álbum que está para estrear, e respetiva data, ou, que já está nas plataformas de streaming.

Esta semana a minha escolha recai sobre os seguintes artista / grupo:

Arab Strap; Venus Grrrls; Fontaines D. C.; Westside Cowboy; Swapmeet; Wishy; Beck; Sweeping Promises; Deceits; Phoebe Bridgers; Getdown Services, Fawlers e Gurriers.

1.    Os Arab Strap são uma influente banda escocesa de indie rock e música alternativa fundada em 1995 pelo vocalista Aidan Moffat e pelo guitarrista Malcolm Middleton. A banda tornou-se um marco do cenário independente ao misturar guitarras atmosféricas com batidas eletrónicas de club, elementos de folk e pós-rock. São mundialmente conhecidos pela voz de barítono sussurrada e laconismo falado de Moffat, que narra letras cruas, explícitas e de uma honestidade brutal sobre relações problemáticas, sexo, noites de excessos e a melancolia do quotidiano.

Be a Man – Arab Strap – Half- told Tales – 4 de setembro 2026.

2.    As Venus Grrrls são uma banda de rock alternativo originária de Leeds e Newcastle, no norte de Inglaterra. O grupo descreve-se frequentemente como um "clã" (coven) de goth-grunge, combinando uma forte atitude feminista com sonoridades sombrias e místicas.

Mother knows – Venus Grrrls – To die as Lovers May – 16 de outubro 2026.

3.    Os Fontaines D.C. são uma das bandas mais aclamadas do rock alternativo e pós-punk contemporâneo, formada em Dublin, Irlanda, em 2017. O grupo ganhou enorme destaque internacional pela sua energia crua, sonoridade intensa e letras profundas influenciadas pela poesia.

Marianne – Fontaines D. C. Dopamine Chamber – 16 de outubro de 2026

4.    Os Westside Cowboy são uma banda britânica de rock alternativo formada em Manchester em 2023. O grupo destaca-se pela sua sonoridade única que mistura indie rock, folk e um estilo próprio batizado de "Britainicana", sendo conhecidos pelas suas harmonias vocais dinâmicas, uma vez que todos os elementos cantam.

Pin-up boys – Westside Cowboy – It goes on – 21 de setembro 2026

5.    os Swapmeet são uma banda de indie rock e slowcore formada em Adelaide, Austrália, em 2022. O grupo ganhou grande destaque internacional com o lançamento do seu álbum de estreia, Mount Zero, lançado pela editora norte-americana Winspear.

  • Membros: Venus O'Broin (vocalista principal e guitarra), Jack Medlyn (guitarra/bateria), Maxwell Elphick (guitarra/bateria) e Joshua Doherty (baixo).
  • Estilo musical: A sonoridade combina melodias calmas de slowcore com explosões distorcidas de shoegaze e rock alternativo dos anos 90.

 

Bonny – Swapmeet – Mount Zero – já disponível

 

6.    Os Wishy é um dos nomes mais empolgantes do indie rock atual, misturando shoegaze, emo e dream pop 🎸 É isso o que fala a imprensa especializada sobre a discografia curta, mas envolvente da banda de Indianapolis, nos EUA.

 

Sensational – Wishy – Natur’s Pill – 2 de outubro de 2026

 

Beck (Beck Hansen) – O Artista Solo

Na maioria das vezes, quando as pessoas falam de "Beck" hoje em dia, referem-se a Beck Hansen (nascido Bek David Campbell). Ele não é um grupo, mas sim um cantor, compositor e multi-instrumentista norte-americano muito famoso.

  1. Estilo: É conhecido como o "camaleão" do rock alternativo. Ele mistura tudo na mesma canção: pop, rock, hip-hop, folk, blues e música eletrónica.

       Sucessos: Ficou mundialmente conhecido em 1994 com o superêxito "Loser" e       com o aclamado álbum Odelay (de onde saiu a música "Where It's At").

 

Disappering Act – Beck – Ride Lonesome – 18 de setembro 2026

 

8.    Os Sweeping Promises são um duo norte-americano de música pós-punk e new wave, formado por Lira Mondal (vocalista e baixista) e Caufield Schnug (guitarrista e produtor)

A banda segue uma filosofia totalmente independente (do-it-yourself), gravando e produzindo a sua própria música num estúdio caseiro. O som do grupo destaca-se por linhas de baixo enérgicas, estética lo-fi e vocais intensos.

Abduction on Camera – Sweeping Promises – You say I romanticize – já disponível.

9.    Os DECEITS é uma banda independente de post-punk e goth/darkwave baseada em Los Angeles, Califórnia. Formado no final de 2021, o grupo destaca-se na cena underground alternativa pelas suas melodias melancólicas combinadas com performances ao vivo enérgicas. O projeto rejeita a sonoridade fria e monótona tradicional do género, autointitulando a sua música como "passionate post-punk" (post-punk apaixonado).

One day you’ll hurt as much as me – Deceits – ainda não há data disponível para o álbum.

10.  Phoebe Bridgers é uma cantora, compositora e produtora norte-americana nascida em Pasadena, Califórnia, em 1994. Ela é uma das vozes mais aclamadas da música indie contemporânea, conhecida pelas suas letras profundas e melancólicas, e pelo icónico traje de esqueleto que usa frequentemente em concertos.

As above – Phoebe Bridgers – Lost Weekend – já disponível.

11.  Os Gurriers são uma banda irlandesa de post-punk e noise rock formada em Dublin. O grupo ganhou grande destaque na vibrante cena alternativa da Irlanda (ao lado de nomes como Fontaines D.C. e Gilla Band) devido à sua sonoridade intensa, crua e aos concertos ao vivo altamente enérgicos e catárticos.

Nothing happens twice – Gurriers – Nobody’s coming to save you – 25 setembro 26

sábado, 22 de agosto de 2026

Oliver Harden - O VAZIO ENCANTADOR

 O VAZIO ENCANTADOR

Há dias em que olho para as pessoas e tenho a impressão de que todas carregam um espelho voltado para dentro, mas não para se conhecerem. Olham para si apenas para confirmar que ainda estão ali. E estar ali, para elas, parece bastar.

Talvez eu também faça isso.
É difícil confessar que, às vezes, não procuro uma verdade dentro de mim. Procuro apenas alguma coisa que faça barulho. Qualquer pensamento serve, desde que me impeça de escutar aquele silêncio que começa depois de tudo o que digo sobre mim. Porque existe um ponto em que meu nome termina. Existe uma região em que minhas lembranças já não me explicam, minhas preferências não me definem e minhas palavras não conseguem chegar.
É ali que começo a sentir medo.
Não medo de estar vazio, mas de descobrir que o vazio talvez seja a parte mais sincera de mim.
Vivemos cercados por pessoas encantadas consigo mesmas. Não necessariamente porque se amem. Talvez porque não suportem afastar os olhos da própria imagem. Há uma fascinação que se parece com amor, mas é apenas vigilância. A pessoa observa a si mesma para não desaparecer. Conta suas dores, exibe suas alegrias, organiza os próprios gestos como quem arruma uma vitrine e, depois, permanece diante dela esperando que alguém confirme que há vida lá dentro.
E talvez haja.
Mas há também uma espécie de ausência cuidadosamente iluminada.
Vejo rostos que aprenderam a sorrir antes de sentirem alegria. Vejo palavras que chegam antes do pensamento. Vejo pessoas que já sabem o que devem parecer enquanto ainda não descobriram o que são. Tudo nelas está pronto para ser mostrado, mas quase nada está preparado para ser vivido.
Isso me perturba porque reconheço nelas alguma coisa minha.
Também já escolhi palavras bonitas para esconder uma pobreza de sentimento. Também já falei muito porque não tinha o que dizer. Também já transformei uma dor em narrativa antes de permitir que ela me ferisse por inteiro. Quis explicar o que sentia para não precisar sentir aquilo que não conseguia explicar.
Talvez a linguagem seja, algumas vezes, a maneira mais elegante de fugir.
Mas o silêncio também pode mentir.
Há quem se cale não por profundidade, mas porque nada encontrou dentro de si. Há silêncios cheios, como uma casa na qual alguém respira atrás da porta. E há silêncios abandonados, nos quais até o eco parece ter partido. Nem toda pessoa misteriosa guarda um universo. Algumas apenas aprenderam a fechar as janelas para que ninguém perceba que os quartos estão vazios.
No entanto, quem poderia julgá-las?
Todos nós decoramos nossos vazios.
Alguns colocam neles livros, outros colocam viagens, opiniões, crenças, títulos, amores, fotografias, aplausos. Cada um escolhe os móveis com que pretende tornar habitável a própria ausência. Depois convidamos os outros a entrar e esperamos que eles admirem a decoração sem perguntar o que existe atrás das paredes.
Talvez seja isso que chamamos de personalidade, o modo particular como cada pessoa organiza aquilo que lhe falta.
Penso nisso e sinto uma espécie de vertigem. Se retirassem de mim tudo o que aprendi a mostrar, o que restaria? Se arrancassem meu nome, minha história, minhas convicções, meus gostos, minhas mágoas e até as pessoas que amo, quem encontrariam?
Talvez ninguém.
E esse ninguém seria eu.
A ideia deveria me apavorar, mas há nela uma estranha libertação. Porque talvez eu não precise estar completamente preenchido. Talvez essa exigência de possuir uma essência sólida seja apenas mais uma crueldade que inventamos contra nós mesmos. Queremos ser alguma coisa definitiva porque nos assusta viver como pergunta. Queremos dizer “eu sou” quando, na verdade, estamos sempre começando a ser.
O vazio não é necessariamente a falta de uma identidade. Pode ser o espaço onde uma identidade ainda respira sem se transformar em prisão.
Mas existe outro vazio, mais triste. É aquele que sentimos diante dos outros.
Converso com alguém e, de repente, percebo que nenhuma palavra alcança realmente a pessoa que está diante de mim. Ela me responde, sorri, talvez toque minha mão, mas permanece inacessível. Há nela um quarto ao qual jamais serei convidado. Posso conhecer seus hábitos, seus medos, a maneira como dorme e aquilo que costuma pedir quando está triste. Posso reconhecer o som de seus passos. Mesmo assim, haverá nela alguma coisa que morrerá sem ter sido conhecida por ninguém.
Talvez amar seja aceitar essa impossibilidade.
Amamos alguém que nunca conheceremos por inteiro. Abraçamos uma criatura cercada por portas. E, ainda assim, aproximamo-nos. Não porque possamos preencher o vazio do outro, mas porque, durante alguns instantes, conseguimos sentar-nos ao lado dele.
Há uma ternura terrível nisso.
Ninguém salva ninguém da solidão fundamental de existir. Podemos acompanhar, tocar, cuidar, escutar. Podemos acender uma pequena luz no corredor. Mas cada pessoa continuará tendo de entrar sozinha em certas regiões de si mesma. Há dores que não aceitam testemunhas. Há perguntas que se desfazem quando tentamos pronunciá-las. Há noites interiores nas quais nenhum amor consegue amanhecer por nós.
Talvez por isso as pessoas se exibam tanto. Mostrar-se é uma tentativa desesperada de ser alcançado. Cada fotografia parece dizer: estou aqui. Cada opinião grita: percebam que penso. Cada confissão pede: entrem em mim. Mas quanto mais alguém se mostra, mais cresce a suspeita de que aquilo que foi mostrado não era exatamente a pessoa.
Era apenas o que ela conseguiu retirar do escuro.
O resto permaneceu lá.
Estamos encantados com o vazio dos outros porque ele nos oferece uma superfície sobre a qual podemos projetar aquilo de que precisamos. Não amamos apenas quem está diante de nós. Amamos também aquilo que inventamos para preencher o que não conhecemos dessa pessoa. Completamos seus silêncios com nossos desejos, interpretamos seus gestos de acordo com nossas carências, atribuímos profundidade às suas ausências e chamamos de encontro aquilo que talvez tenha sido apenas a coincidência de duas imaginações.
Depois nos decepcionamos quando o outro deixa de caber naquilo que imaginamos.
Não perdoamos facilmente uma pessoa por ser diferente da personagem que criamos para ela.
Talvez o encantamento nasça justamente do espaço que desconhecemos. Aquilo que compreendemos por completo corre o risco de perder o mistério. Por isso, às vezes, desejamos alguém enquanto ainda podemos imaginá-lo. Quando a realidade chega com seus hábitos pequenos, suas repetições, seus egoísmos e suas limitações, sentimos que alguma coisa se quebrou. Mas talvez nada tenha se quebrado. Talvez apenas tenhamos finalmente encontrado a pessoa no lugar onde antes existia nossa fantasia.
Conhecer alguém é assistir lentamente ao desaparecimento de nossas invenções.
Se o amor sobreviver a isso, então talvez tenha começado.
Mas há pessoas que preferem o encantamento. Apaixonam-se pelo vazio porque o vazio não contradiz. Ele aceita todas as formas que lhe damos. Podemos colocar nele a beleza que desejamos, a bondade de que precisamos, a inteligência que admiramos. O vazio é obediente. As pessoas reais, não.
As pessoas reais chegam carregadas de imperfeições, memórias que não compartilhamos e dores que não fomos nós que causamos. Elas não existem para completar nossa narrativa. Possuem enredos próprios, alguns dos quais jamais conheceremos. Amar uma pessoa real exige abandonar o prazer de inventá-la.
Isso é quase uma violência contra o nosso desejo.
Queremos que os outros preencham o que nos falta, mas oferecemos a eles justamente aquilo que também nos falta. Dois vazios aproximam-se e esperam produzir plenitude. Às vezes conseguem produzir apenas dependência. Outras vezes produzem uma companhia tão delicada que a ausência deixa, por alguns instantes, de parecer abandono.
Talvez seja o máximo que podemos oferecer uns aos outros.
Não plenitude.
Presença.
A plenitude me parece cada vez mais uma palavra inventada por quem não tolerava a incompletude. Ninguém está cheio de si mesmo. Estamos cheios de fragmentos, vozes antigas, gestos herdados, medos que não escolhemos, lembranças modificadas pelo tempo. Há dentro de nós uma multidão que não se reconhece. Chamamos essa confusão de “eu” porque precisamos de um nome curto para continuar vivendo.
Mas o eu talvez seja apenas a borda do vazio.
E há beleza nisso, embora eu quase me arrependa de admitir.
Porque, se estivéssemos completos, nada poderia entrar. Nenhuma pessoa nos modificaria. Nenhuma música encontraria espaço. Nenhuma perda abriria uma nova profundidade. Nenhum amor deslocaria os móveis da alma. Seríamos inteiros e, por isso mesmo, fechados.
Talvez o vazio seja nossa capacidade de receber o mundo.
O problema começa quando fazemos dele um espetáculo. Quando deixamos de habitá-lo e passamos a exibi-lo. Quando transformamos nossas ausências em ornamentos, nossas fragilidades em identidades, nossa solidão em superioridade. Há quem se orgulhe de não sentir, como se a insensibilidade fosse uma forma de lucidez. Há quem trate a própria incapacidade de amar como prova de inteligência. Há quem chame de liberdade o medo de pertencer.
É possível ficar encantado até mesmo com a própria ruína.
A pessoa contempla o que perdeu, o que não consegue ser, o que jamais recebeu, e constrói ali uma espécie de altar. Começa a reverenciar a própria falta. Já não deseja curá-la porque não saberia quem seria sem ela. O vazio torna-se sua única posse, e qualquer tentativa de preenchê-lo parece uma ameaça.
Talvez algumas tristezas permaneçam porque se tornaram nossa maneira de existir.
Eu também tenho meus altares.
Não sei destruí-los. Às vezes apenas retiro a poeira e finjo que estou me despedindo. Depois volto e acendo outra vela.
Há em mim vazios que vieram de perdas e vazios que já estavam aqui antes de qualquer perda. Uns têm nomes. Outros não permitem sequer que eu os chame. Carrego todos como quem leva dentro do peito uma casa cujos cômodos não conhece completamente.
De vez em quando, uma porta se abre.
Não encontro respostas.
Encontro apenas uma espécie de silêncio vivo, alguma coisa que não é ausência nem presença, mas possibilidade. Então compreendo, por um instante, que talvez eu não esteja vazio. Talvez eu seja o próprio espaço no qual a vida acontece.
Não sou apenas aquilo que possuo.
Sou também o lugar deixado por aquilo que partiu, a abertura produzida por aquilo que ainda não chegou, a distância entre o que sinto e o que consigo dizer.
E os outros talvez sejam assim.
Não mistérios a serem resolvidos, mas vazios a serem respeitados.
Talvez devêssemos parar de tentar preencher uns aos outros. Há uma brutalidade escondida nesse desejo de completar alguém, como se a incompletude alheia fosse um defeito que nos cabe corrigir. Talvez amar seja tocar a borda do abismo do outro sem empurrá-lo, sem exigir que ele saia, sem lançar dentro dele as nossas próprias necessidades.
Apenas permanecer.
Permanecer quando não há espetáculo. Quando a beleza se distrai. Quando as palavras falham. Quando o outro já não consegue nos encantar e começa, finalmente, a existir.
Porque viver é isto, descobrir que somos vazios, encontrar outros vazios pelo caminho e, apesar de tudo, oferecer presença.
Às vezes, duas ausências se reconhecem.
E, por um instante, isso se parece muito com estar inteiro.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Um novo normal. A romantização do sofrimento autoria de António Craveiro, professor e pedagogo!

 Um novo normal. A romantização do sofrimento. António Craveiro, professor e pedagogo!

Responde-me a uma coisa com toda a honestidade do mundo: desde quando aceitamos que amar alguém significa viver a pisar ovos dentro da própria casa?
Em que momento começámos a acreditar que uma paixão verdadeira tem de nos tirar a paz, roubar-nos o sono, provocar ansiedade e deixar-nos constantemente a tentar perceber o que fizemos de errado?
Talvez tenhamos romantizado demasiado o sofrimento.
Há relações em que se passa o dia a medir palavras para evitar discussões, a engolir lágrimas para não parecer demasiado sensível, a aceitar silêncios como se fossem normais e a encontrar justificações para comportamentos que, no fundo, sabemos que não são aceitáveis.
E, pior ainda, começamos a chamar intensidade àquilo que é instabilidade, chamamos paixão àquilo que é dependência e confundimos migalhas de afeto com amor.
Receber carinho depois de uma semana de frieza parece um acontecimento extraordinário. Um abraço depois de dias de distância transforma-se numa espécie de recompensa. E nós agarramo-nos àquele pequeno momento bom, esquecendo todos os momentos que nos fizeram sentir pequenos.
É assim que a montanha-russa emocional vai destruindo a autoestima em silêncio.
Mas existe algo ainda mais importante: amor sem respeito deixa de ser amor vivido a dois.
Quem ama não precisa de concordar sempre, mas precisa de respeitar.
Quem ama não precisa de estar permanentemente colado ao outro, mas quer estar presente.
Quem ama não precisa de abandonar a sua individualidade, mas sabe criar uma parceria.
Quem ama não procura constantemente razões para se afastar; procura razões para construir.
Quem ama cuida.
Quem ama procura.
Quem ama pergunta como estamos.
Quem ama preocupa-se.
Quem ama dá importância.
Quem ama faz do outro uma prioridade — não necessariamente a única, mas uma prioridade.
Porque prioridades também são escolhas.
E quando numa relação começamos a sentir que somos sempre a última opção, quando o nosso tempo é aquele que sobra, quando a nossa presença é dispensável e quando existe sempre alguma coisa ou alguém mais importante, não podemos fingir que isso não tem consequências.
Uma relação não se alimenta apenas de palavras bonitas, química ou momentos extraordinários. Alimenta-se de presença, respeito, lealdade, cuidado, cumplicidade e reciprocidade.
Lealdade não é apenas não trair.
Lealdade é proteger a relação quando o outro não está presente.
É não fazer deliberadamente aquilo que sabemos que magoaria quem amamos.
É saber colocar limites.
É não alimentar situações que podem ferir a confiança.
É agir de acordo com aquilo que dizemos sentir.
Porque amar alguém também é pensar: “Como é que as minhas escolhas vão fazer esta pessoa sentir-se?”
E talvez seja aqui que muitas relações se perdem.
Confundimos liberdade com ausência de consideração. Confundimos independência com indiferença. Confundimos espaço com distância emocional. E, quando damos por nós, duas pessoas que um dia queriam estar juntas passam a viver uma ao lado da outra, mas emocionalmente cada vez mais longe.
Depois vem a desculpa habitual: “É assim mesmo uma relação.”
Não.
Não é assim que uma relação tem de ser.
Amor não é viver permanentemente em estado de alerta, sem saber qual será a versão da pessoa que vamos encontrar. Não é ter medo de falar. Não é sentir culpa por tudo. Não é implorar por atenção. Não é aceitar desprezo em troca de alguns momentos de carinho.
E também não é sofrer todos os dias em nome de um futuro que talvez nunca chegue.
Temos uma tendência perigosa para acreditar que quanto mais difícil for uma história, maior será o amor no final. Como se todas as noites mal dormidas fossem provas de amor e todas as feridas fossem apenas capítulos necessários para chegar ao “felizes para sempre”.
Mas a vida não é um filme.
O sofrimento não transforma uma relação numa grande história de amor.
Às vezes, transforma apenas duas pessoas cansadas em duas pessoas feridas.
Uma relação saudável não significa ausência de problemas. Haverá discussões, diferenças, dias difíceis, cansaço e momentos de afastamento.
Mas existe uma diferença enorme entre ter problemas numa relação e fazer da própria relação um problema.
Quando duas pessoas se amam, procuram soluções.
Quando se magoam, procuram reparar.
Quando se afastam, procuram reencontrar-se.
Quando erram, procuram reconhecer.
Quando existe uma dificuldade, enfrentam-na juntos.
Porque uma relação é, acima de tudo, uma parceria.
É olhar para o outro e perceber: “Eu não estou aqui apenas para receber amor. Estou aqui também para cuidar do teu coração.”
E talvez esta seja uma das maiores provas de amor: ter consciência de que aquilo que fazemos pode destruir a pessoa que dizemos amar — e, mesmo assim, escolher não o fazer.
Não adianta existir uma química absurda se a convivência nos desmonta por dentro.
Não adianta dizer “amo-te” se as atitudes dizem “não és importante”.
Não adianta querer alguém na nossa vida se não queremos verdadeiramente estar na vida dessa pessoa.
Porque amar não é apenas sentir.
Amar é escolher.
É cuidar.
É respeitar.
É procurar.
É estar.
É ser leal.
É construir.
E, sobretudo, é fazer com que a pessoa que amamos se sinta segura dentro da relação que construímos juntos.
Por isso, talvez esteja na hora de deixarmos de chamar “amor” àquilo que nos destrói.
Nem toda a história difícil é uma grande história de amor.
Às vezes, é apenas uma história onde nos esquecemos de nós próprios enquanto tentávamos salvar alguém que nunca teve a mesma vontade de nos salvar.
O amor da nossa vida não deve ser a nossa tempestade diária.
Deve ser o lugar onde, mesmo quando o mundo lá fora desaba, encontramos um cais onde podemos finalmente descansar.
António Craveiro