Sustos de ano inteiro
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
Mais medonha do que os cenários de terror que acompanham a noite das bruxas, é a ingratidão: o esforço concertado dos seres humanos para destruir o planeta que lhes dá tudo o que precisam para viver.
Na New Yorker, o monstro da semana é a lampreia. Aí se dá conta dos rios de dinheiro e de veneno que são necessários para matar as comilonas das lampreias. E entrando directamente para o primeiro lugar na tabela das palavras novas para Novembro está “lampricida”. A reportagem de Katie Thornton é séria, mas consciente do potencial humorístico destes chupistas muito mais antigos do que os dinossauros. Daí o título ao estilo do semanário nazi Der Sturmer: The Feds Who Kill Blood-Sucking Vampires.
Um dos maiores crimes das lampreias é comer as trutas que os americanos tanto gostam de pescar e comer. Atente-se ao poder inamovível da cultura: em Portugal seríamos capazes de matar as trutas para salvar as lampreias.
Aqui, a lampreia está cada vez mais cara. Já nos EUA está cada vez mais cara de exterminar. Porque é que não trocamos cem mil toneladas da nossa maior praga (o lagostim do rio) por cem mil toneladas da maior praga deles (a lampreia)? Se fosse preciso, pagaríamos também um suplemento de truta salmonada.
Felizmente, o terror das invasões — sem as quais não passam os filmes de terror — tem sempre um lado paradoxal. As pragas de mexilhão, por exemplo, têm uma vantagem: deixam a água muito limpinha, servindo até para a desintoxicar.
Será desta água limpinha que as lampreias tanto gostam?
Os meus amigos peruanos e mexicanos riem-se muito a falar da maneira como nós, europeus, fugíamos das batatas e dos tomates, convencidos de que nos queriam envenenar.
Não será a mesma coisa com o lagostim do rio, e outras indesejadas criaturas marinhas? A solução não será comer e calar? Ou, pelo menos, comer a maior quantidade possível e converter o resto em douradinhos? E que tal secá-los, e comê-los ao jeito do bacalhau?
Aposto que não é mau.