segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Os melhores álbuns de 2023 - Ivo Eduardo Correia

         


  Ivo Eduardo Correia 

Como todos os anos a esta parte, a lista dos álbuns mais importantes de 2023 é um conjunto do que de melhor, em minha opinião, se fez desde janeiro a dezembro de 2023. Primei pela beleza das vozes, pela irreverência dos seus projetos e pela letra das suas canções. Ficaram muitos, como sempre, fora das minhas escolhas, mas dei ênfase ao equilíbrio e à qualidade das várias faixas no seu todo. Alguns estão ex aequo, pois foi-me difícil escolher qual deles o melhor! Boas audições!

1

Mary Jane Dunphe

Stage of Love

2

Slowdive

everything is alive

3

Patio

Collection

4

Model / Actriz

Dogsbody

5

Swans

Beggar

6

Niecy Blues

Exit simulation

7

Daughter

Stereo mind Game

8

Arooj Aftab, Vijay Iver, Shahzad Ismaily

Love in Exile

9

Wednesday

Rat Saw God

10

M(h)aol

Attachment styles

11

Italia 90

Living Human Treasure

12

L’rain I Killed your dog

Kimbra: a Reckoning

13

Ist Ist

Protagonist

14

Jana Horn

The Window is a Dream

15

Young Fathers

Heavy Heavy

16

Pépe: Reclaim

liv.e: girl in half pearl

17

bar italia

Tracey Denim

18

JFDR

Museum

19

B. Cool-Aid

Leather Blvd

20

Cloth

Secret Measure

21

Julie Byrne

The Greater Wings

22

Nia Archives

Sunrise Bang vs Head Against

23

Squrl: Silver Haze

Lankum: False Lankum

24

bdrmm

I don’t know

25

Mother Tongues

Love in a vicious way

26

Jeffrey Martin

Thank God We Left the Garden

27

Slow Pulp

Yard

28

Nines: Crop Circle 3

Bawo: Legitimate Cause

29

Jane Remover

Census, Designated

30

Pines of Rome

The Unstruck Bell

31

P J Harvey

I Inside The Old I Dying

32

Saya Gray

Qwerty EP

33

Grian Chatten

Chaos for the Fly

34

Lauren Auder

The Infinite Spine

35

Holly Macve

Not The Girl

36

Rainy Miller & Space Afrika

A Grisaille Wedding

37

Amor Muere

A Time to Love A Time to Die

38

Maria BC

Spike Field

39

The American Analog Set

 For Forever

40

The Murder Capital

Gigi’s Recovery

 

 

 


domingo, 25 de dezembro de 2022

As melhores fotos de 2022 - Ivo Eduardo Correia

 Pela primeira vez, escolho as melhores fotos que tirei em 2022. A regra foi simples; ter em conta a cor, o detalhe, a paisagem, o inesperado, a perspetiva. Todas as 20 fotos foram tiradas pelo meu telemóvel OPPO. Nada de máquinas sofisticadas. A lente e o olhar do sujeito- fotógrafo.

Um bom ano fotográfico 2023.























sábado, 24 de dezembro de 2022

Livros: As escolhas de 2022 de Ivo Eduardo Correia

 De todos os espaços públicos num centro comercial, por exemplo, o que menos afluência de público tem é, infelizmente, a Livraria.

A Livraria é o espaço, por excelência, do livro, qualquer que seja a sua área ou temática, e são muitas. Os leitores têm vindo a decrescer ao longo dos anos, a Internet, os e-books, as redes sociais, são concorrentes sérios. O virtual, o áudio-visual a ocupar o lugar do papel. 

O folhear um livro, o cheiro do seu papel fazem parte das minhas memórias desde a universidade nos anos oitenta, e, ainda hoje, gestos habituais quando visito uma livraria. Cada livro tem o seu papel e o seu cheiro especial e único. Este ano li muito, não tanto quanto queria, por prazer, mesmo que não tenha tido o tempo que qualquer livro merece que lhe seja dispensado. Uns adoçaram a minha alma e a minha imaginação, outros, serão "digeridos" lentamente. De todos eles aqui ficam aqueles que me marcaram mais em 2022:













-  


 - 

























sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Lista dos melhores álbuns de 2022 - Ivo Eduardo Correia

   2022 está a chegar ao fim. O primeiro ano pós-pandemia foi bastante profícuo em termos musicais. Trouxe-nos alguns excelentes álbuns, muitos assim assim e outros uma pura desilusão. A escolha dos Mais de 2022 é sempre algo custoso de se fazer, uma tarefa que exige horas de audição, de "experiências sensoriais", algumas agradáveis, outras, nem por isso. Mas, no cômputo geral, 2022 valeu pelo que nos deu de diferente, de alternativo, de insólito e de insperado. Todos os anos, arranjo um caderno, e aos sábados de manhã, religiosamente, faço uma lista dos melhores dos últimos sete dias, durante 52 semanas. Cada álbum é avaliado de 1 a 5. Contabilizei aqueles, que me pareceram por qualquer razão - sonoridade, melodia, ritmo, criatividade, inovação, "uau!", etc - os álbuns, os musicos, os projetos que fizeram a diferença no panorama musical de 2022. Soul, R&B, Rap, Soul, Shoegaze, Dream Pop, Indie, Folk, Americana, Punk, Electronic, uma panóplia de estilos e de géneros musicais. E a lista foi crescendo, até atingir o belo número de 46. Estou consciente que mais e melhores álbuns não passaram pelo meu radar. Lamento não ter tido mais tempo para aumentar e diversificar as minhas "experiências sensoriais". Acredito, todavia, que haja por aí melhor qualidade da que esta apresentada por mim em 2022. Porém, como disse anteriormente, esta escolha é subjectiva, é a minha escolha dos Mais de 2022. Dezenas de outras pululam por aí, cada uma, a escolha subjectiva de alguém que ama a musica que ouve como eu.
Bem hajam todos. Saudações musicais para 2023!

Posto isto, aqui está ela:

Fontaines D. C. - Skinty Fia (Post-Punk)


Deathcrash - Return      (Slowcore)


Gabriels - Angels & Queens Part 1 (Gospel, R&B, SOUL)


4º  A. A. Williams - As the Moon Rests  (Gothic Folk)

5º  Greentea Peng - Greenzone 108 (Neo- Soul)

6º  Moor Mother - Jazz Codes  (Experimental, Jazz, Rap)

7º  Just Mustard - Heart Under  (Shoegaze)

8º  King Hannah - I'm not sorry, I was being me  (Alternative Rock)

9º  Ghost Funk Orchestra - A New Kind of Love  (Psychedelic Soul)

10º Wunderhorse - Cub   (Punk / Americana)

11º  Kathryn Joseph - For you who are the wronged  (Indie Singer- Songwriter)

12º Kendrick Lamar - Mr Morale & The Big Steppers    (Rap)

13º  Jana Horn - Optimism    (Indie / Folk)

14º Palace - Shoals   (Indie / Alt- Rock)

15º Hex Poseur - Hearsay  (Garage - Rock - Punk)

16º  Martina Topley Bird - Forever I Want  (Songwriter / Folk)

17º  Sudan Archives - Natural Brown Prom Queen   (Pop / R&B)

18º  Cloakroom - Dissolution Wave  (Slowcore)

19º   Porridge Radio - Waterslide, Diving Board, Ladder to the Sky    (Indie Rock)

20º  Benjamin Clementine - And I Have Been  (Experimental)

21º  Angel Olsen - Big Time   (Folk / Singer-songwriter)

22º  Sun's Signature - Sun's Signature    (Experimental)

23º  M J Lenderman - Boat Songs     (Rock / Alt-rock)

24º  Simon Joyner - Songs from a Stolen Guitar  (Singer-songwriter)

25º  The Smile - A Light for Attracting Attention    (Alt-rock)

26º  Ari Lennox - Age / Sex / Location  (R&B)

27º   Charlotte Adigéry & Bolis Pupul - Topical Dancer    (Experimental)

28º   Yaya Bey - Remember the North Star   (R&B / Soul)

29º   Brian Eno - Foreverandevermore    (Experimental rock)

30º   Ravyn Lenae - Hypnos      (R&B / Soul)

31º   Black Country, New Road - Ants from Here   (British alt-rock)

32º   Ty Segall - Hello, Hi   (Alt-rock)

33º   Anais Mitchell - Anais Mitchell     (Americana)

34º   Loyle Carner - Hugo      (Rap)

35º   Little Simz - No Thank You     (R&B)

36º   Sorry - Anywhere But Here     (Indie)

37º  Florist - Florist      (Folk)

38º  Pan American - The Patience Fader   (Experimental)

39º  Kevin Morby - This is a Photograph    (Americana)

40º  Sharon Von Etten - We've been going about this all wrong   (Alternative)

41º  Unloved - The Pink Album     (Low Fi)

42º  Jockstrap - I Love You Jennifer B    (Alt / Experimental)

43º  Hollie Cook - Happy Hour     (Reggae)

44º  GeorgeFitzgerald - Stellar Drifting    (Electronic)

45º  Badge Époque Ensemble - Clouds of Joy      (Electronic)

46º  Oliver Sim - Hideous Bastard       (Electronic)


                                  ...















sábado, 6 de agosto de 2022

 

Apontamentos sobre…

como escrever um romance

Sara Freeman

Tradução: Ivo Eduardo Correia 06-08-2022

  Há uma espécie de amnésia necessária que se instala quando se termina de escrever um romance. Como o parto, deve-se esquecer; o futuro exige isso de nós. Se nos lembrássemos, se realmente nos lembrássemos, então certamente não faríamos isso de novo. Ou talvez a própria experiência de escrever um romance seja uma espécie de esquecimento sustentado, uma fuga controlada.

  Lembro-me de um ensaio de John Berger, About Looking, em especial o capítulo Seker Ahmet e a Floresta. Berger, no seu ensaio, examina repetidas vezes o quadro de Ahmet de finais do século XIX, que retrata num jogo assombroso de perspetiva, a floresta, como paisagem clássica – cena contida com as suas bordas visíveis à distância – e uma floresta em toda a sua obscura intratabilidade vivenciada não de fora, mas de dentro, por um lenhador e seu burro passando por ela, ou como Berger sugere, engolidos por ela. “A atração e o terror da floresta,” escreve Berger, “é como nos vemos nela, como Jonas na barriga da baleia. Embora tenha limites, estamos cercados por ela. Agora esta experiência, que é a de qualquer pessoa familiarizada com florestas, depende de como nos vemos com visão dupla. Fazemos o nosso próprio caminho pela floresta, e, simultaneamente, vemo-nos, como de fora, engolidos por ela.”

  Esta “visão dupla” é certamente uma descrição adequada de como se perder dentro do mundo do seu próprio romance – imersão total e consciência simultânea dos limites dessa imersão. Muitas vezes senti, ao escrever o meu romance Marés, que a simultaneidade da atenção necessária para escorar esse mundo imaginário, estar ao mesmo tempo inteiramente dentro e engolida pelas frases e pela sua atmosfera, e também muito fora delas, consciente da boca deglutindo, correspondia a um casamento quase impossível de submissão e controle.

  Pareceu-me importante que a descrição de Berger da condição existencial da floresta, ao mesmo tempo insondável e circunscrita, seja aquela vivenciada por aqueles que estão “familiarizados com a floresta”. E então os lenhadores que o são pela primeira vez?

  Embora Marés seja o meu primeiro romance publicado, não é, de facto, o primeiro que escrevi. À beira dos trinta anos trabalhei noutro romance durante três anos. Senti-me muito apaixonada por esta história, pelo seu potencial. Mas por cada passo experimental que dava, tinha de fazer um novo rascunho, por isso, sentia-me completamente perdida, tinha pouco para conter os meus esforços. Ao não estar familiarizada com florestas, não tinha noção dos seus limites necessários. Trabalhei sem saber o que fazer, completamente do interior, aperfeiçoando frases e cenas, sendo engolida por uma paisagem interior, sem noção de um plano geral, uma forma que pudesse conter tudo o que esperava alcançar. No final, o livro, as suas múltiplas perspetivas, os seus capítulos quase sem ligação entre si, não coalesceram. Fiquei, em vez disso, com três grupos de árvores, separadas umas das outras a uma distância arbitrária – não uma floresta.

  Identifiquei, já muito tarde no processo, o que Rachel Cusk, no seu livro de memórias Aftermath, chama de falha no plano. Ao descrever a sua própria experiência de “escrever um romance de forma errada”, ela escreve: “O problema geralmente está na relação entre a história e a verdade. A história tem de obedecer à verdade, ela está para a verdade, como as roupas estão para o corpo. Quanto mais justo o corte, mais agradável é o efeito.” Cheguei à conclusão que “o corte” aqui significa não apenas a necessária contenção da verdade pela história, mas também a própria forma que a história deve tomar, o artificio vital da forma. Pensava, nessa altura, de forma ingénua, que se simplesmente escrevesse com sinceridade sobre as minhas personagens cuidadosamente imaginadas, conseguiria escrever um romance. Como num daqueles sonhos de ansiedade mais prosaicos, chegava ao palanque, pronta para fazer o meu discurso bem-intencionado, olhava para baixo, apenas para me aperceber que me tinha esquecido de vestir as minhas roupas.

  Lamentei não escrever durante um ano. Esqueci-me.

  E, depois de ter esquecido, tentei novamente. Uma personagem, desta vez, uma história bem simples, uma mulher que deixa a sua vida para trás após uma série de ruturas irreparáveis. Por outras palavras, uma floresta mais pequena, na qual suspeitava que poderia me perder, sem me perder completamente. Estaria a mentir se dissesse que correu bem. Ainda não sabia como escrever um romance. Criei limites artificiais. A história na sua primeira interação moveu-se, como um pendulo, do passado ao presente dando o mesmo peso a ambos, sem qualquer razão aparente – uma forma que não se deslocou do interior, mas imposta do exterior, um ato de vontade indesejado. Mas segui em frente, como o burro no quadro de Seker Ahmet, leal ao lenhador que tinha esperança de me vir a tornar. Quando reli o rascunho meses mais tarde, encontrei, em todas as páginas, apenas um punhado de frases que valia a penar guardar. Fiquei arrasada, ou com raiva – talvez ambas.

  Recusei continuar, pura teimosia. Pensei em desistir.

  E, no entanto, tinha recuperado da minha humilhação – quanto trabalho e quão pouco parecia aproveitável – Apercebi-me que tinha a minha personagem. E, talvez mais importante, tinha algumas frases, doze talvez, tão estranhas, mas para mim tão certas, pareciam ter sido escritas por uma escritora diferente, uma em que eu podia me querer tornar.

  Voltei várias vezes ao alerta de Annie Dillard na sua obra The Writing Life: “O processo não importa; apague os seus rastos. O caminho não é a obra. Espero que os vossos rastos tenham crescido. Espero que os pássaros comam as migalhas; espero que atire tudo fora e não olhe para trás.” Fiz isso simplesmente. Abri um novo documento, e escrevi, mantendo apenas algumas frases estranhas que guardei na minha mente, a sua urgência deslocada, e muito rapidamente uma floresta emergiu, real, atraente e aterrorizante. E depois algo ainda mais inesperado aconteceu: enquanto escrevia estas novas e estranhas frases – minhas, mas também não, que em sua estranha autonomia pareciam se escrever a elas próprias – estava consciente, também, das bordas que ganhavam forma à volta do que eu escrevia, uma sensação do todo de alguma forma a tomar posse a partir de dentro, e cercando os meus esforços do lado de fora. Não só a história encontrou uma forma que capturou a sua verdade, a verdade da história emergiu da sua própria forma, do som e da cadência das frases, a sua colocação solitária na página. Tinha encontrado a minha visão dupla.

  Perto do fim, não sabia se adorava o que tinha escrito, mas sabia que tinha escrito algo, ao mesmo tempo habitável, um lugar com uma atmosfera muito particular, um jogo sinistro de sombra e luz, e algo com uma materialidade externa, uma forma que era coerente o suficiente para ser chamada de história.

  Nestes dias, persigo a periferia de uma nova floresta, atraída, apavorada. Por agora, tenho a esperança de ter esquecido apenas o suficiente para considerar voltar a fazê-lo.