A verdadeira caça
Caça às bruxas? Pobres das bruxas, essas personagens que nunca tiveram sequer a gentileza de existir como nos contos populares. Não voavam em vassouras, não conversavam com gatos falantes e, muito provavelmente, não tinham tempo para pactos com o diabo, estavam ocupadas demais tentando sobreviver a um mundo governado por padres histéricos e juízes com mais superstição que neurônio. Foram fantasmas paridos na mente febril de fanáticos, um passatempo de época para pessoas que não tinham Netflix, mas possuíam muita lenha e pouco escrúpulo.
Só que o ser humano, criativo como é para o mal, nunca desperdiça um bom modelo de perseguição. Hoje não queimamos bruxas, queimamos reputações. A praça pública virou “feed de notícias”, a fogueira medieval virou “trend topic” e o carrasco se esconde atrás de um avatar jurídico ou de uma hashtag engajada. É a mesma coreografia: inventa-se um inimigo, veste-se a fantasia de guardião da moral e parte-se para a caça, porque pensar dá mais trabalho.
E aí, meu caro, chegamos à fauna repugnante dos tempos modernos: criaturas que colocam sua ideologia acima da dignidade e da própria vida humana. São especialistas em transformar qualquer discordância em crime capital, sempre em nome de um “bem maior” que, curiosamente, coincide com o seu próprio umbigo. Não têm problema algum em sacrificar a verdade, ela, afinal, é tão inconveniente, desde que a narrativa continue intacta.
O mais curioso é que esses novos inquisidores não se percebem como tal. Na sua imaginação, são paladinos da virtude, missionários contra o mal, os únicos lúcidos num planeta de cegos. Na prática, são apenas versões atualizadas dos mesmos fanáticos que, séculos atrás, tremiam de medo diante de um eclipse e achavam que o mundo estava infestado de bruxas.
A grande diferença é que, hoje, não precisamos mais de fumaça para sufocar. Bastam pixels, manchetes e um bom algoritmo para queimar alguém vivo. O cheiro é menos desagradável, mas a covardia é exatamente a mesma.
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