Educação sexual: não é de esquerda nem de direita
- Público - Edição Lisboa
- Catarina Soares
Porque é que falar de temas como a fisiologia dos sistemas reprodutores, a fisiologia do ciclo menstrual, a gravidez, a sexualidade, a identidade de género, o assédio, o abuso, o consentimento, a pornografia, a pressão social da sexualização ou o uso da sexualidade nos meios digitais continua a gerar polémica? Como é que o conhecimento do próprio corpo se tornou um campo de batalha ideológica?
Devemos realmente atribuir estes temas a uma ideologia política? Ou, por outro lado, trabalhá-los como alicerces de uma sociedade que queremos informada, empática e consciente?
Vejamos por partes.
Falar sobre o funcionamento do próprio corpo aumenta a autoestima, melhora a capacidade de perceção sobre o que pode não estar bem e reduz a ansiedade associada às transformações da puberdade – muitas vezes com consequências graves nesta faixa etária.
Falar sobre a fisiologia da gravidez e o impacto que pode ter no corpo, no comportamento e na vida de um homem e de uma mulher aumenta a literacia reprodutiva e capacita os jovens para o uso seguro e adequado dos métodos contracetivos. Em Portugal, segundo dados do INE, em 2024, nasceram 1548 crianças
Falar sobre a menstruação aos rapazes é capacitá-los para a entreajuda e a empatia com a mulher
de mães adolescentes.
Falar sobre doenças sexualmente transmissíveis é falar de saúde pública. É conhecer os riscos, saber como preveni-los e diminuir o impacto destas doenças tanto nos indicadores de saúde individuais como coletivos.
Falar sobre a menstruação aos rapazes é capacitá-los para a entreajuda e a empatia com a mulher, entendendo e aceitando a fisiologia natural do corpo feminino. Empatia: capacidade em extinção na sociedade atual.
Falar sobre diferenças entre orientação sexual e orientação de género não pode transformar um heterossexual em homossexual nem um homem cis em não cis. Por outro lado, pode, mais uma vez, aumentar a empatia, diminuir o julgamento, a exclusão e a agressão. Esta consciência pode reduzir a ansiedade e a depressão em muitos jovens e, em alguns casos, até contribuir para a diminuição da taxa de suicídio entre os adolescentes.
Falar sobre tudo isto nas escolas, numa partilha estruturada entre alunos e professores, melhora a precisão da informação, contextualiza-a e torna-a mais segura, eliminando mitos ou preconceitos gerados pelos meios digitais.
A transmissão de ferramentas de capacitação e decisão a adolescentes em desenvolvimento por professores capacitados (e aqui talvez seja necessário investir mais no apoio aos docentes como vetores de transmissão destas informações) pode ser a arma mais poderosa contra crimes hediondos, como, por exemplo, o abuso sexual contra menores, que, segundo dados do INE em 2024, rondaram os 1040 crimes registados pelas autoridades (excluindo todos aqueles não denunciados).
Trabalhar com as crianças e os adolescentes a definição e perceção de “espaço pessoal”, “o meu corpo as minhas regras”, assédio, abuso e consentimento não pode, de forma alguma, ser uma guerra entre a esquerda e a direita. Deve ser uma arma desejada pelos pais e educadores contra a violência, a desinformação e o trauma futuro. Mais do que uma bandeira política, a educação sexual é um passo importante na construção de uma sociedade melhor, mais informada, mais consciente e mais forte. Seja ela de esquerda ou de direita.
Médica de família na USF da Baixa (Lisboa)
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