domingo, 21 de setembro de 2025

O Ganges

 O rio Ganges, na Índia, é para milhões um símbolo de pureza, de vida e de renascimento espiritual. Ali, fiéis se banham acreditando que cada gota pode lavar pecados e aproximar da eternidade. Mas por trás dessa imagem sagrada, esconde-se uma realidade que dilacera o coração.

Por tradição, crianças com menos de 12 anos não são cremadas. Seus pequenos corpos são lançados diretamente ao rio, entregues às águas como oferendas da inocência. A cena é brutal: pais desesperados, sem alternativa, depositam no Ganges aquilo que tinham de mais sagrado — os próprios filhos. Muitos relatam que não há escolha: “É a tradição, o rio os leva de volta para os deuses”.
Mas o que o rio devolve é dor. Às margens, não é incomum ver cães disputando os restos de crianças que a corrente trouxe de volta. Moradores dizem que, em algumas manhãs, ao caminhar pelas margens, encontram corpos inchados, meio submersos, e animais famintos lutando por eles.
Um pescador contou certa vez:
“Lançamos nossas redes, mas junto com os peixes, muitas vezes puxamos pedaços de gente. Já me acostumei a não olhar muito tempo, senão a alma não aguenta.”
Outro morador disse, em voz baixa:
“À noite, o rio chora. Quando o vento sopra sobre as águas, parece trazer o lamento das mães que deixaram seus filhos aqui.”
O Ganges é vida — mas também é morte. É reverenciado como um templo, mas muitas vezes é profanado como um cemitério a céu aberto. É o lugar onde devotos cantam mantras, mas também onde crianças inocentes são entregues sem dignidade.
Essa contradição é angustiante: o rio que deveria purificar, é também o que testemunha o abandono. Ele é o reflexo de uma sociedade partida, onde a fé convive com a fome, e o sagrado caminha lado a lado com o insuportável.
O Ganges continua fluindo, levando corpos, levando esperanças, levando orações. Mas também deixando nas margens uma pergunta que ecoa como uma ferida: até quando o sagrado vai ser usado para justificar a dor?



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