domingo, 9 de novembro de 2025

As festas que eu não fui - Oliver Harden

 As festas que eu não fui - Oliver Harden

Há festas que brilham à distância como constelações ilusórias, promessas de pertencimento e ruidosa comunhão. São celebrações onde a alegria se tornou um dever, onde o riso, destilado em série, ecoa como um mecanismo social de validação. E, no entanto, são precisamente essas as festas que eu não fui, e talvez por isso tenha nelas compreendido algo essencial sobre o homem e seu desespero em não ficar só.
O ser humano, criatura de carne e de espelho, teme o silêncio que o revela. Busca o grupo como quem busca anestesia. A socialização moderna não nasce da necessidade de encontro, mas do pavor do encontro consigo. É um rito de fuga, um teatro de máscaras que exige menos verdade do que performance. Ali, a convivência substitui o vínculo, o diálogo cede à troca de frases previsíveis e o olhar já não busca o outro, apenas confirma a própria existência através da aprovação alheia.
As festas que eu não fui talvez tenham sido mais reveladoras do que as que vivi. Pois nelas vi, de fora, o mecanismo funcionando, a alegria padronizada, os gestos coreografados, a solidão disfarçada sob o ritmo da música. Não é raro que, sob a superfície do convívio, repouse um deserto. A solidão coletiva é o fenômeno mais sofisticado do nosso tempo, mil corpos juntos, mil almas isoladas.
Há uma sabedoria em recusar certos convites. Nem toda ausência é perda, algumas são conquistas. Estar ausente, às vezes, é preservar o que resta de presença. Pois há festas em que se entra apenas ao preço de abdicar de si, e há silêncios que, embora solitários, são mais povoados que qualquer salão.
As festas que eu não fui continuam existindo, repetindo-se como um ritual de esquecimento, uma liturgia do efêmero. Eu as observo de longe, como quem contempla uma cena antiga de um mundo que já não me serve. E percebo, com uma espécie de melancólica lucidez, que não é o isolamento que nos destrói, mas a comunhão sem alma.
Quem aprende a suportar o próprio silêncio descobre que não precisa dançar para existir.



Sem comentários:

Enviar um comentário