sexta-feira, 14 de março de 2025

O comportamento das massas ou o efeito "alcateia"

O livro "Psicologia das massas" de Gustave Le Bon, publicado pela primeira vez em 1895, é uma obra seminal no estudo do comportamento em grupo e da psicologia social.
Le Bon explora como as massas, quando agem coletivamente, se comportam de forma diferente do que os indivíduos se comportam sozinhos. Segundo Le Bon, as massas são irracionais, sugestionáveis e propensas a ação emocional mais do que a reflexão lógica.
A teoria de Le Bon baseia-se na ideia de que, numa multidão, os indivíduos experimentam uma transformação psicológica. Argumenta que o anonimidade proporciona aos indivíduos um sentimento de invulnerabilidade e uma diminuição da responsabilidade pessoal, o que pode levar a comportamentos que não exibiriam em circunstâncias normais.
Isto é o que ele chama de "alma coletiva" da massa, que atua sob influências hipnóticas de líderes carismáticos e repetição de ideias.
A análise de Le Bon também aborda como opiniões e emoções se contagiam rapidamente dentro de grandes grupos, levando as pessoas a agir de forma homogenea. Além disso, discute o papel dos líderes na formação de opiniões e crenças dentro das massas, destacando como esses líderes aproveitam o seu carisma e retórica para manipular.
"Gustave Le Bon: Psicologia das Massas" tem sido influente, mas também controverso. Enquanto forneceu ferramentas fundamentais para compreender fenómenos sociais e políticos, as suas visões sobre a irracionalidade das massas foram criticadas por serem demasiado pessimistas e simplistas.
Apesar disso, o livro continua sendo um texto fundamental para aqueles interessados em psicologia social, sociologia e estudos culturais, e a sua influência estende-se até à teoria contemporânea sobre comportamento em grupo e dinamica de massa.
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quinta-feira, 13 de março de 2025

Dorme a noite inteira?

 

Dormir “dois sonos” ou a noite inteira? Sono bifásico já não faz sentido, dizem especialistas

O sono bifásico, como faziam os monges, não é o melhor conselho, mas, se acordar a meio da noite com uma insónia, evite ficar na cama, aconselham as especialistas a propósito do Dia Mundial do Sono

OLLY/PEXELS

“O primeiro e segundo sono” é uma conhecida expressão que se refere às fases do sono, mas tem uma ligação mais profunda à História. Antes de haver electricidade, era habitual encontrar referências ao hábito de dormir por dois turnos, em vez de uma noite inteira de oito horas. Mas o que é mais saudável: fazer um sono polifásico ou uma noite sem interrupções? A propósito do Dia Mundial do Sono, assinalado amanhã, as especialistas em patologias do sono lembram que o fundamental é não ficar em privação de sono e, preferencialmente, dormir quando está escuro lá fora.

Era assim que os nossos antepassados regiam as suas noites de sono: pela luz e pela escuridão. Em 2022, o historiador britânico Roger Ekirch publicou At Day’s Close: Night in Times Past (No final do dia: a noite nos tempos passados, sem tradução em português), onde reunia relatos sobre os sonos bifásicos ao longo da história, a partir de textos da literatura ou crónicas históricas desde a Idade Média até ao final do século XVII.

Nessa época, diz o historiador, as famílias tinham por hábito deitar-se logo após o anoitecer para dormir durante quatro horas. Depois, acordavam durante uma ou duas horas, tempo que utilizavam para socializar, rezar, completar tarefas domésticas ou fazer sexo. Por cá, o investigador João Fontes, do Instituto de Estudos Medievais da Nova FSCH, em Lisboa, diz que a literatura histórica não revela este hábito na maioria da população, apenas entre o clero. “Os monges deitavam-se cedo porque a últimas horas litúrgicas eram ao entardecer, mas acordavam a meio da noite para um tempo de vigília”, diz.

Na tradição religiosa, encontram-se relatos destas adorações nocturnas, nomeadamente de milagres que aconteciam a estas horas, continua. Contudo, para o resto da população, “a noite era o espaço de descanso”, depois de um dia a trabalhar “de sol a sol”. O investigador explica que “a vida do homem medieval” se regia

25 minutos é o tempo certo para dormir uma sesta, que não deve estar muito próxima da hora de acordar, nem de deitar

precisamente pelas horas diurnas e nocturnas e, em algumas cidades, como era o caso de Lisboa, havia uma espécie de recolher obrigatório, com os sinos a tocarem para lembrar que era preciso voltar a casa.

O que seria hoje o jantar (então, a ceia) acontecia por volta das 19h ou 20h e, depois de algum tempo de “convívio”, as famílias dormiam. “A maioria das casas tinha um único piso e uma única divisão, em que tudo se organizava em função do fogo. São aí os espaços de cozinha e para dormir”, descreve o docente.

Habitualmente dormiam toda a noite, diz. Não que isso possa ser o mais natural ao humano: na década de 1990, o psiquiatra norte-americano Thomas Wehr conduziu um estudo em que deixou os participantes às escuras durante 14 horas (em vez das habituais oito horas) ao longo de um mês. No final da quarta semana, todos começaram a fazer um sono bifásico. Sofia Rebocho e Vânia Caldeira não negam que o processo possa ser natural, mas defendem que não é adaptado ao quotidiano.

“Do ponto de vista biológico, não consigo ver nenhuma explicação para fazermos isso. Os espanhóis fazem a sesta, mas, durante a noite, não há vantagem em fazer intervalos no sono”, opina Sofia Rebocho, cardiopneumologista e autora do livro e podcast O Teu Mal é Sono. E a pneumologista Vânia Caldeira concorda: “Não digo que isso não fizesse sentido no passado, mas perante o que é o nosso ritmo social esta prática torna-se difícil pela exposição à luz.”

Se acordar de noite

O sono interrompido “é um critério” para as patologias clínicas deste ramo, diz a responsável da comissão de trabalho de Patologia do Sono da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. “Para o nosso ritmo circadiano, o melhor é termos a maior exposição à luz durante a manhã e limitar ao final da tarde o acesso à luz artificial”, aconselha Vânia Caldeira. Sofia Rebocho completa: “Os nossos períodos de sono são associados à pressão do sono. Ou seja, quanto mais tempo estamos acordados, mais propensão temos para dormir. O nosso ritmo circadiano repete-se a cada 24h e o ciclo repete-se.”

Mas o sono polifásico é normal em algumas fases da vida, sobretudo durante o primeiro ano de vida, em que os bebés fazem vários sonos ao longo do dia. Depois, entre os três e os cinco anos, o padrão torna-se bifásico, já que as sestas durante o dia continuam a ser prolongadas.

No resto da vida, há algumas regras a cumprir no que toca às sestas, que são mesmo de evitar para quem tem insónias. “É um bom hábito, mas não pode ultrapassar os 25 minutos, caso contrário estamos a roubar a pressão do sono para ir dormir à hora certa”, aconselha Sofia Rebocho.

Caso durma mais do que 25 minutos, estará a passar para a fase seguinte do sono e acordar poderá ser mais difícil, tornando-o rabugento. “A hora a que se faz a sesta também é importante. Não deve estar muito próximo da hora de acordar, nem da de deitar”, sublinha Vânia Caldeira. “Somos seres programados para dormir de noite de acordo com o ciclo da terra”, argumenta Sofia Rebocho, lembrando que a exposição à luz bloqueia a libertação da melatonina, a hormona da noite. Assim, cada noite de sono deve ter habitualmente entre três e cinco ciclos de sono.

Apesar de uma noite de sono ininterrupta ser aconselhada, tal não quer dizer que seja motivo de preocupação se despertarmos a meio da noite. “Consideramos que é problemático o que é acima de dez microdespertares por hora. Quando são microdespertares normais, de apenas alguns segundos, não se sai do sono REM”, explica Vânia Caldeira.

Todavia, quando se sentem as mazelas dos despertares no dia seguinte, isso é sinal de que poderá sofrer de alguma patologia do sono.

Caso acorde com uma insónia, talvez o que faziam os nossos antepassados entre o primeiro e o segundo sono não esteja errado. “Se passarem 20 minutos e não consegue retomar o sono, deve levantar-se”, sugere a pneumologista. Porque “a cama começa a ser associada a um elemento stressante e à insónia”, diz Sofia Rebocho. Mas não é aconselhado ir trabalhar ou ver ecrãs, já que são actividades estimulantes. Bons exemplos de o que fazer durante a insónia são a leitura com luzes baixas, a meditação ou a escuta de música relaxante que poderá trazer de volta o sono.

De resto, para uma boa noite de sono — nada menos do que sete horas por dia —, as duas especialistas voltam a reforçar os já habituais conselhos: jantar leve; poucas bebidas à noite; baixa exposição à luz e aos ecrãs; e ir para cama só quando for para dormir. Bons sonhos.


Ensinar a quem não quer!

Mantenho a minha opinião que o ensino não é para todos. O ensino foi, e sempre será, para aqueles que querem aprender. Esses não podem ser, constantemente, prejudicados por aqueles que estão na escola forçados. A escolaridade obrigatória até aos 18 anos, sim, mas os alunos reprovavam por faltas a partir do ensino secundário. Deste modo, todos seriam responsabilizados pelo seu percurso escolar qualquer que ele fosse. Portugal ainda não atingiu a quota de alunos nos cursos profissionais, seria a altura ideal para apostar nessa área e no ensino pós laboral. 

Ivo Correia

O abandono escolar oculto e o ensinar a quem não quer

Depois de uma histórica redução do abandono escolar precoce, Portugal registou uma subida neste indicador, parecendo indiciar que há mais alunos a quererem abandonar o ensino secundário sem o concluir. Nesta breve nota, sublinhamos duas questões, em regra ausentes da reflexão pública: o abandono escolar oculto e o alheamento de um número indeterminado, mas certamente expressivo, de alunos que não querem aprender muito do que está prescrito nos programas oficiais.

Por abandono escolar oculto designamos, na esteira de António Oliveira, “os alunos que, não sendo considerados em situação de abandono escolar efetivo, permanecem matriculados no sistema educativo/ formativo sem se envolverem no seu processo de aprendizagem, embora reúnam e manifestem, em diferentes graus, um desengajamento face à escola, como que incubando o abandono efetivo que, mais cedo ou mais tarde, tem muitas probabilidades de ocorrer”.

Esta desvinculação configura uma interpelação radical às escolas e aos professores. De facto, nas escolas surgem crescentemente alunos e alunas que não querem aprender o que está prescrito e que não estão dispostos a assumir o estatuto de aluno. E este fenómeno é, certamente, fator de indisciplina e de bullying.

E porque pode estar a crescer o número de alunos que não querem aprender? Porque os programas não os convocam para a compreensão do mundo e da vida. Porque o conhecimento tende a ser social e empresarialmente desvalorizado. Porque 12, 15, 18 anos de estudo a tempo inteiro não abrem horizontes de vida promissores e gratificantes. Porque, como sublinhava Edgar Morin, “não inserimos no(s) programa(s) temas que podem ajudar os jovens, sobretudo quando se tornarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a realidade e que podemos cair no erro e na ilusão. Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam”.

Não obstante esta questão estrutural, temos de fazer a pergunta: como ensinar quem não quer aprender? Esta é uma das missões (im)possíveis dos professores. Ensinar a quem não quer, na escolaridade obrigatória até aos 18 anos, é um dos maiores desafios que se colocam à ação docente. Porque o verbo aprender não suporta o imperativo. Porque quem não quer sempre perturba a aula, ora com o tédio ostensivo, ora com a indiferença, por vezes, com o escárnio e o absoluto alheamento.

Um dos maiores desafios e um dos maiores tormentos. Pois, nessas circunstâncias, o professor vê que não toca esse ser ausente, que não cumpre a sua missão de ensinar. Sente-se então um inútil e, em parte, co-responsável por um manifesto insucesso.

Como ensinar a quem não quer aprender? Inquirir das razões dessa ausência; interpelar, insistir para que esse sujeito ausente volte ao círculo da aprendizagem, ligar a matéria à vida, fazer de cada aula uma oficina onde sempre se faça alguma coisa diferente da escuta passiva; variar estratégias, inventar desafios, expressar expectativas positivas e verosímeis, instalar um clima de confiança nas possibilidades de desenvolvimento; desatar os nós da indiferença, criar novos laços, mostrar a pertinência e relevância do que se pretende ensinar (às vezes, missão bem difícil…).

Para ensinar a quem não quer é preciso recorrer a todos os ensinamentos de todas as pedagogias, desde as mais antigas até às mais recentes. E, sobretudo, tecer os laços que possibilitem um trabalho docente mais colaborativo, em que as vozes dos professores e das professoras possam emergir para dizerem o que sabem, o que não sabem, o que sentem, aquilo de que precisam.

Porque, face às muitas missões (im)possíveis, nós, professores, somos, provavelmente, a única força, o único alento, (quase o) único remédio para a sobrevivência profissional. Que bom seria que soubéssemos isso. Que sentíssemos isso. Nessa altura, a nossa vida profissional e pessoal começaria a ser um pouquinho diferente e melhor.


Professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa


quarta-feira, 12 de março de 2025

O nosso passado, a nossa bagagem!

O Passado!
O passado é uma estrutura fluida, e não uma cela hermética. Ele deve ser visto como um compêndio de lições, não como uma condenação perpétua. No entanto, muitos se tornam prisioneiros de suas próprias memórias, encastelados em remorsos, ressentimentos e dores irreparáveis. Isso ocorre porque o ser humano tem uma inclinação natural para o apego, e o passado, sendo imutável, oferece uma ilusão de controle: uma narrativa já escrita, onde os erros são concretos e as dores, familiares. Entretanto, essa fixação é uma forma de servidão mental, uma prisão cujo carcereiro é o próprio sujeito.
Nietzsche, ao propor o conceito do “eterno retorno”, nos desafiava a encarar a vida de tal forma que estaríamos dispostos a vivê-la repetidamente, infinitas vezes, sem arrependimento. Essa postura exige um desapego do sofrimento como algo absoluto e a aceitação de que os erros, por mais dolorosos que sejam, são apenas partes inevitáveis do fluxo existencial. Em outras palavras, aquele que se condena ao passado esquece que a vida é uma construção dinâmica, não um destino pré-determinado.
O passado deve ser interpretado como um livro que já foi escrito, mas cujas lições ainda podem ser aplicadas à narrativa que continuamos a redigir. Ele pode servir como um mapa que orienta, mas jamais como uma âncora que nos afunda. O problema é que muitos não percebem a diferença entre lembrar e reviver. Recordar é um ato de sabedoria, enquanto reviver é um ato de tortura autoinfligida.
Dostoiévski, em Memórias do Subsolo, apresenta-nos um narrador que se aferra a suas misérias passadas, utilizando-as como justificativa para sua inação no presente. Ele se torna um refém da própria consciência, um homem que racionaliza seu sofrimento a ponto de transformá-lo em identidade. Essa obra demonstra com clareza o perigo de fazer do passado um tribunal perpétuo, no qual nos tornamos juízes e réus ao mesmo tempo.
O verdadeiro caminho para a liberdade psicológica não está em negar o passado, mas em compreendê-lo como um processo educativo. Não há condenação em um erro, a não ser aquela imposta por uma mente incapaz de perdoar a si mesma. Em última instância, somos os autores da narrativa que escolhemos contar a nós mesmos. E a sabedoria consiste em permitir que o passado ilumine o caminho, mas jamais o determine.
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Hippies!

 O movimento hippie - anos 60

Você sabia que o movimento hippie, que ganhou impulso na década de 1960, foi uma revolução cultural que não só abraçou a paz, o amor e a liberdade, mas também teve um profundo impacto na música, moda e sociedade? Os hippies eram conhecidos por rejeitar os valores convencionais e defender um estilo de vida baseado na vida comunal, ambientalismo e expressão artística. Com festivais icônicos como Woodstock em 1969, o movimento estava profundamente entrelaçado com a música, especialmente rock, folk e gêneros psicodélicos, com bandas como The Beatles, Jefferson Airplane e The Grateful Dead se tornando icônico da época. Os hippies acreditavam na unidade e na paz, opondo-se à guerra e à desigualdade social, e sua influência ainda pode ser sentida hoje em dia em vários aspectos da cultura moderna.


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