Proibir os telemóveis nas escolas não resolve os problemas — mas ajuda
- Público - Edição Lisboa
- Laura Sanches Psicóloga clínica
Um dos argumentos mais usados contra a proibição dos telemóveis ou redes sociais até aos 16 anos é o de que isso não resolverá os problemas e poderá até alimentá-los porque o fruto proibido é o mais apetecido. Passo a explicar porque é que não concordo com este argumento.
Primeiro é importante admitir que estas proibições não resolvem os dos problemas de fundo que levam os jovens a usar ecrãs em excesso, é verdade. E também é verdade que precisamos de conversar com os adolescentes e ensiná-los a fazer um uso adequado e falar sobre os riscos que podem correr quando os usam. E precisamos muito de ouvir os adolescentes e entender o que estas tecnologias podem representar para eles, sem julgamentos. Mas a proibição não impede que se faça nada disto. O que ela demonstra é que, nisto como em tantas outras coisas, estamos a assumir o lugar de adultos e a tomar as decisões que nos parecem mais responsáveis.
Não podemos cair no erro de achar que proibir telemóveis nas escolas ou redes sociais resolve tudo, da mesma maneira que proibir a venda de bebidas alcoólicas aos menores ou o tabaco também não impede que alguns continuem a beber em excesso ou a fumar. Muitos especialistas afirmam que se proibirmos os nossos filhos de ter redes sociais eles irão criar contas às nossas escondidas. E apesar de ser verdade que isto acontece é desonesto dizer aos pais que é com certeza isso que irá acontecer com os seus filhos. Porque isto dependerá muito da forma como impomos essa proibição e da relação que temos com eles. Mas a verdade é que, enquanto a esmagadora maioria dos adolescentes tiver acesso a smartphones e a redes sociais, a pressão para aqueles que não as têm é muito maior. E também é verdade que, mesmo os jovens que não têm telemóvel acabam por ser prejudicados pela presença constante dos telemóveis dos colegas e pela forma como esta muda e influencia as relações.
Os ecrãs e as redes sociais criam um ambiente cultural que afecta toda a gente, incluindo aqueles que não os usam. E já não podemos ter dúvidas de que a presença constante de ecrãs é uma das coisas que está a prejudicar as novas gerações, como muitos estudos demonstram.
Os adolescentes passam cada vez menos do seu tempo a conviver presencialmente e isso tem tido consequências bastante negativas, como o aumento exponencial de jovens que se sentem sozinhos e dizem não ter um único amigo próximo, a dificuldade em manter e estabelecer relações e todos os problemas de saúde mental e até aumento dos suicídios que têm vindo a acontecer exponencialmente desde que a presença dos smartphones se tornou a norma.
Nos EUA alguns estudos apontam para que a média de idades em que os rapazes são expostos à pornografia seja os nove anos e em Portugal os dados dizem-nos que aos
11 a esmagadora maioria já foi exposta a esta realidade que tem consequências muito pesadas para o seu desenvolvimento.
Por estes e outros motivos é que cada vez mais países estão a mover-se no sentido de criar limitações e proibições à presença de telemóveis nas escolas e não só.
Estas proibições não resolvem os problemas de base, mais do que proibir o álcool ou as drogas têm resolvido esse consumo. Mas fazem várias coisas importantes: mostram à sociedade o caminho do que é aceitável, criam um ambiente escolar mais livre dos efeitos nocivos dos ecrãs, criam um ambiente mais seguro para aqueles que não os querem usar em excesso ou que não usam de todo e tentam criar alguma igualdade de circunstâncias entre todos. Porque da mesma maneira que no Portugal rural e carenciado dos anos 80 era fácil encontrar crianças que iam para a escola depois de comerem as famosas sopas de cavalo cansado (pão com vinho) partindo duma enorme desvantagem e desigualdade em relação aqueles que vinham de ambientes menos carenciados, também hoje temos muitos jovens que começam os dias e passam as noites já com várias horas de ecrã e que chegam à escola apenas para continuar nesse registo. Se a escola o proibir, pelo menos poderão ter algumas horas de liberdade deste consumo, tendo oportunidade de descobrir uma outra forma de estar e de lidar com o mundo. Se a escola for um local onde lhes é permitido continuarem a refugiar-se nos ecrãs, estes jovens não terão a mínima oportunidade de descobrir o mundo e as relações para além do digital. Criando-se assim um fosso ainda maior em relação aqueles cujos pais lhes tentam proporcionar outro tipo de ambiente.
Há quem não ache justa esta comparação com o álcool e com as drogas, porque segundo dizem elas não trazem nada de bom, ao contrário dos ecrãs que têm inúmeras vantagens. Mas isto também não é um argumento muito realista. Primeiro porque se o álcool e as drogas não
Os ecrãs dão-nos acesso a muita informação, é verdade. Mas não é de informação que os miúdos mais precisam. É de relações e de poderem estar em contacto com as suas emoções
trouxessem vantagens eles simplesmente não existiam. Segundo porque a grande maioria dos miúdos que usa ecrãs em excesso não está a colher nenhuma das suas vantagens. As redes sociais não são uma forma vantajosa de socializar. Antes pelo contrário. Os adolescentes precisam de aprender a criar relações cara a cara, precisam de aprender a falar, a lidar com conflitos e desencontros na comunicação e até a serem rejeitados amorosamente, coisas que acontecem cada vez menos.
Jogar online também não traz nenhuma vantagem em relação ao brincar. Muito pelo contrário. Brincar é uma forma das crianças descobrirem o seu mundo interno e de o trazerem cá para fora. Jogar online é apenas ser consumidor passivo de conteúdos e deixar que o nosso mundo seja invadido e transformado de alguma forma por eles.
Mesmo os vídeos informativos ou supostamente educativos, que não aquilo em que a esmagadora maioria dos jovens ocupa o seu tempo online, são bastante mais limitados na sua capacidade de ensinar do que um livro. Os livros ensinam a pensar e a manter o foco, são eles que nos permitem pensar mais aprofundadamente sobre as coisas.
Os ecrãs dão-nos acesso a muita informação, é verdade. Mas não é de informação que os miúdos mais precisam. É de relações e de poderem estar em contacto com as suas emoções. Porque é isso que faz crescer o cérebro e que lhes permite amadurecer de verdade. E nisto os ecrãs atrapalham muito mais do que ajudam.
Mas proibir os telemóveis ou redes sociais não é rejeitar a Internet. Porque ela não precisa de vir num ecrã pequeno, cheio de aplicações que lutam pela nossa atenção e que levamos no bolso para todo o lado. Um computador que fica em casa, num sítio onde podemos ir vendo aquilo a que os miúdos acedem é uma opção muito diferente e que responde perfeitamente aqueles que se preocupam com a possibilidade de permitir aos filhos explorar alguma coisa do mundo digital. Da mesma maneira que um telemóvel simples também permite fazer chamadas e trocar SMS com os amigos.
Pode haver um lugar para ecrãs na vida dos nossos filhos, não precisamos de os eliminar completamente, mas é preciso que cada pai ou mãe saiba criar regras à volta deles, dar o exemplo e saiba avaliar se os seus filhos têm a maturidade emocional necessária para lidar com eles. Proibir os telemóveis ou redes sociais não limita a competência das famílias, muito pelo contrário, dá-lhes tempo para serem elas a fazer essa gestão de saberem quanto tempo de ecrã é adequado aos seus filhos, em que moldes e a partir de que idade, com a segurança de que eles serão menos pressionados por um ambiente cultural em que se acredita que não há nada a fazer a não ser aceitar essa nova realidade.
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