O meu reino por um cabo
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
“O problema são as paredes”, disse o técnico de wi-fi. Amaldiçoei esta mania que temos de separar o chão com paredes, só porque nos agrada ter “divisões”. O divisionismo é uma praga. Mas porque tem de ficar a cozinha para um lado e a casa de banho para outro? Porque condenamos a sala a passar as noites sozinha, enquanto ressonamos atrás da cobardia de uma parede?
“As suas paredes são grossas”, disse o técnico. Não sabia se havia de aceitar o elogio ou ficar ofendido. “E ainda por cima estão forradas com livros...” Calei a boca.
Até que o homem desabafou: “Como é que quer que passe o sinal, com tantos livros?”
É cá uma flor de estufa, este sinal. Olhem se a electricidade afinasse pelo mesmo diapasão: “Desculpe, mas não dá para acender esse candeeiro, porque fica muito longe do quadro, com três paredes de permeio”.
Passados três dias, a nossa sala parecia um anfiteatro de pequenos electrodomésticos.
No centro, comandando o palco estava a tragédia do Router, emanando protagonismo.
À volta estavam as beldades dependentes, com as suas bilhas, sorvendo o sinal junto à fonte. Foi a isto que chegámos? Como foi possível chegar a 2025?
Quando pergunto se não há um sinal mais forte, capaz de atravessar paredes, olham para mim como se eu tivesse requisitado um vampiro. Lembrei-me da casa de um amigo meu, a que todos chamamos A Casa dos Cabos, em que há um feixe de cabos que atravessa quilómetros e quilómetros de quartos e andares. Não há um bengaleiro em que a recepção não seja sublime.
Não será altura de nos deixarmos de pretensiosismos e de voltarmos aos cabos? À simplicidade e à eficácia dos cabos. À fiabilidade e à segurança dos cabos. Àquele materialismo reconfortante, de sabermos onde começa e aonde vai dar.
Para chegar a uma impressora tresmalhada, liguei um cabo ao telemóvel. Ao princípio, pesou-me, como um chicote preso a um pedregulho. E lá se foi a minha imagem de moço livre. Mas funcionou! É um cordão umbilical, este cabo.
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