Baralhar os livros
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
Há meses que me divirto a arrumar e a rearrumar os meus livros. A arrumação é fascinante. Conforme se arruma, conforme se encontra. Aprende-se quando se desarruma. Ao caírem duas pilhas de livros que estavam no chão à espera de ir para as prateleiras, misturaram-se uns nos outros e deu-se uma coisa engraçada: reparei em livros — e em conjunções de livros — em que nunca tinha reparado. Comecei a baralhar livros. Desfiz as velhas arrumações — poesia, viagens, filosofia, arte — e comecei a arrumar os livros conforme a apetência de os ler, pondo os mais apetecidos mais próximos das minhas mãos.
O contraste entre livros que não têm nada que ver uns com os outros ajuda a reparar neles.
Em vez de organizar uma biblioteca para que seja fácil localizar qualquer livro, porque não desorganizá-la para poder ser surpreendido pelos livros que se encontra?
Eis um bom princípio: em casa podemos fazer o que as bibliotecas públicas não podem.
Esta semana, por exemplo, fiz uma experiência proibida: arrumei uma estante conforme as duas características mais desprezíveis — o tamanho e a cor.
Sempre odiei ser obrigado a arrumar os livros muito grandes nas prateleiras muito grandes, independentemente do que tratavam. Agora começo a gostar. Há uma maneira de ler livros muito grandes — tem de ser em cima de uma mesa, por exemplo. Sendo assim, arrumei-os mesmo ao pé da mesa onde os lemos.
Fiz o mesmo com as cores. O pior é que há muitos livros com lombadas azul-escuras e ficam todos escondidos.
Mas pode-se intercalar os livros azuis com livros amarelos: os princípios de combinação de cores são tão deliciosamente complexos que dão para uma vida inteira.
No fundo, é mexer nos livros que lhes dá vida. É ser obrigado a pensar neles, a arranjar-lhes um lugar, como se tivessem vindo cá dormir.
No fundo, é a nossa atenção que conta. Os livros muito arrumados ficam quase mortos. Não nos desassossegam. Ficaram tragicamente resolvidos.
A nossa cabeça é que é a biblioteca.
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