Da alergia aos amendoins ao aumento da fragilidade das crianças
Há um efeito de retrocesso generalizado em que a “cura” acabou por se tornar uma causa primária da doença, transformando as crianças em jovens e adultos mais frágeis e ansiosos
Público - Edição Lisboa
Professora do 1.º ciclo
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O que é que o desenvolvimento da alergia aos amendoins pode ter a ver com o aumento da fragilidade das crianças? Aparentemente, nada. Mas se formos analisar as causas e as consequências de ambas as intolerâncias — aos amendoins e aos desafios da vida —, conseguimos identificar muitos pontos comuns. Quem o diz são Gerg Lukianof e Jonathan Haidt, autores do livro A Infantilização da Mente Moderna, que acabou de ser publicado em Portugal com a chancela da editora Guerra e Paz.
Estes autores começam por relatar uma preocupação que, no início deste século, levou a proibir o consumo de amendoins por parte de crianças americanas. E isto não porque fossem alérgicas a este fruto seco, mas sim porque se temia que esse diagnóstico viesse a verificar-se. Os resultados foram tão surpreendentes (ou talvez não…) quanto impressionantes: entre as crianças que tinham sido “protegidas” dos amendoins, 17% desenvolveu alergia aos mesmos, ao contrário do grupo que tinha sido deliberadamente exposto a produtos contendo amendoins, no qual apenas 3% das crianças se tornou alérgica a este fruto seco.
A explicação para o fracasso deste plano bem-intencionado é simples: impediu que o sistema imunitário aprendesse que as proteínas dos amendoins são inofensivas, o que acabou por fazer aumentar o número de crianças alérgicas. Este efeito, contrário ao pretendido, ocorre porque o sistema imunitário é dinâmico e necessita de estar exposto a uma variedade de alimentos, bactérias e parasitas para desenvolver uma resposta imunológica a ameaças reais, ignorando o que não constitui ameaça, como as proteínas dos amendoins.
Perante este cenário, principia a tornar-se evidente a relação existente entre a alergia aos amendoins e a educação das crianças na atualidade. Movidos por um modelo de superproteção, os adultos procuram, do ponto de vista físico, manter as crianças a salvo dos amendoins, e do ponto de vista emocional, evitar expô-las a riscos, a desafios e a tensões.
Ora acontece que, tal como o sistema imunitário necessita de ser exposto aos alimentos, também o sistema emocional precisa de lidar com riscos, desafios e tensões, não só para se fortalecer, mas também para aprender a lidar com os mesmos. Esta aprendizagem é essencial, na medida em que constitui a única preparação possível para lidar com os revezes e as adversidades com que, mais tarde ou mais cedo, todos teremos de lidar.
É esta a opinião de Nassim Nicholas Talet, expressa na obra Antifrágil, de acordo com a qual tanto os sistemas como as pessoas podem sobreviver aos inevitáveis cisnes negros da vida e, tal como o sistema imunitário, tornar-se mais fortes. Mas este autor convida-nos a ir além da palavra resiliência, já muito usada, preferindo recorrer ao termo antifrágil para designar os sistemas importantes da nossa existência. Sendo antifrágeis por natureza, estes sistemas necessitam de tensões e desafios para aprender, adaptar-se e crescer. Pelo contrário, se não houver nada que os force ou desafie a responder, tornam-se mais fracos, rígidos e ineficazes.
Transpondo este conceito para a educação das crianças que, tal como defendem Lukianof e Haidt, são antifrágeis na essência, podemos obter um resultado semelhante ao que aconteceu quando se tentou protegêlas da exposição a amendoins: um efeito de retrocesso generalizado em que a “cura” acabou por se tornar uma causa primária da doença, transformando as crianças em jovens e adultos mais frágeis e ansiosos.
“Quando as crianças são educadas numa cultura de segurança, que as ensina a manterem-se ‘emocionalmente seguras’, protegendo-se de todos os perigos imagináveis, é possível que se desenvolva um ciclo de retroação: as crianças tornam-se mais frágeis e menos resistentes, fazendo parecer aos adultos que precisam de mais proteção, tornandoas, consequentemente, ainda mais frágeis e menos resistentes”, defendem estes autores.
Quando se compreende o conceito de antifragilidade, o modelo de superproteção parece tornar-se mais insensato, contrariando um velho ditado que diz: “Prepare a criança para a estrada, não a estrada para a criança.” Mas, na perspetiva de Lukianof e Haidt, hoje em dia parece que estamos a fazer exatamente o oposto: estamos a tentar eliminar da estrada tudo o que possa perturbar as crianças, sem nos apercebermos que, ao fazê-lo, estamos a repetir o erro da alergia aos amendoins.
Ao invés, uma vez que os riscos e as tensões fazem inevitavelmente parte da vida, os pais e os professores devem ajudar as crianças a desenvolver as suas capacidades inatas para aprenderem com essas experiências. Se, pelo contrário, as protegerem constantemente das experiências potencialmente perturbadoras, tornam-nas menos capazes de lidar com esses acontecimentos quando deixarem a sua esfera de proteção. Como destacam estes autores, “a cultura de segurança, que está na base da superproteção, priva os jovens de experiências que as suas mentes antifrágeis necessitam, tornando-os mais frágeis e ansiosos”.
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