Dummy – Um Marco Intemporal na Música Trip-Hop
domingo, 16 de fevereiro de 2025
Zé dos discos recorda Portishead - Dummy 1994, Trip-hop
Publicado na Revista do Expresso de 14-02-2023 e da autoria de Inês Loureiro Pinto
Não só com beijos se prova o amor
O amor é língua universal, mas expressa-se indistintamente pelo globo e
ao longo de todo o ano. São Valentim e Santo António são os mestres de
cerimónias que imperam entre os apaixonados portugueses
É 14 de fevereiro e o calendário manda
amar. Ou será o mercado? O dia é indissociável das ofertas de flores e bombons
em quase todo o mundo. A tradição moderna tem raiz secular no grande
protagonista da data que assinala o amor. Os escritos católicos relatam as
histórias de três mártires de nome Valentim que faleceram a 14 de fevereiro. A
história vigente é a de um padre do século III que foi decapitado, em Roma, por
oficializar casamentos entre soldados e cristãos perseguidos durante o reino do
imperador Cláudio II (há outra história que conta que Valentim devolveu a visão
à filha do seu encarcerador).
Foi
santificado pelo Papa Gelásio I a 14 de fevereiro de 496. A celebração cristã
de dia 14 substituiu as celebrações pagãs da Lupercália, destinada à
purificação e promoção da saúde e da fertilidade. É também conhecida por dies Februatus, que deu origem a Februarius — fevereiro. A Lupercália ainda é
celebrada na África do Sul, no dia 15 de fevereiro. Entre as mulheres há a
tradição de se exibir o nome dos seus amados num papel ou tecido preso à manga
das suas roupas.
Por
cá temos outro santo padroeiro do amor, nascido seis séculos depois de São
Valentim. António de Pádua, frade franciscano, ficou conhecido pelo povo, entre
outras qualidades, pelos seus dotes casamenteiros. É por isso que, desde 1958,
se realizam os Casamentos de Santo António na véspera do feriado de 13 de
junho. Interrompida em 1974 e retomada em 1997, a tradição já uniu 285 casais
pela igreja e 130 por cerimónia civil. As candidaturas para as cerimónias de
2025 abrem precisamente no Dia dos Namorados e estendem-se até final de março.
A 12 de junho, 16 casais terão a oportunidade de atar o nó na Sé de Lisboa ou
no Salão Nobre dos Paços do Concelho, frente a milhares de pessoas, com a
oferta de guarda-roupa, alianças, boda, despedidas de solteiro e lua de mel.
Para os galeses
a santidade que r(..
É
a devoção a Santo António, em parte, que faz com que o Dia dos Namorados no
Brasil se celebre a 12 de junho, desde 1948. A outra parte é puramente
comercial: terá sido ideia do publicitário João Doria, pai do ex-governador de
São Paulo com o mesmo nome. A sua empresa foi desafiada pela Clipper,
retalhista de roupa entretanto extinta, para motivar vendas no mês menos
rentável do ano. A campanha fixou-se no dia 12, em homenagem ao santo
casamenteiro, com o slogan: “Não é só
com beijos que se prova o amor!” A celebração pegou e, segundo a BBC News
Brasil, é o terceiro dia mais rentável no comércio brasileiro, depois do Natal
e do Dia da Mãe. Também na Argentina uma campanha publicitária virou festa do
romance. A “semana de la dulzura” surgiu em 1989 por iniciativa de uma empresa
apoiada pela associação de distribuidores de guloseimas do país, com a premissa
de “um doce por um beijo”. A campanha terá aumentado as vendas dessa semana em
20% e acabou por cimentar-se na cultura popular.
Para
os galeses, a santidade que remete para a celebração do amor nasceu no século X
e é uma história mais trágica do que romântica. Dwynwen é uma das 36 filhas de
um rei irlandês que se opõe ao relacionamento da filha com um jovem do norte do
País de Gales. O pretendente assedia Dwynwen quando esta nega casar-se; ela
reza, ele petrifica e um anjo concede-lhe três desejos: a jovem liberta-se do
namoro abusivo, nunca mais se casa e ganha a capacidade de ajudar casais em
sofrimento. A 25 de janeiro, Dia de Santa Dwynwen, os galeses visitam a igreja
de Llanddwyn, uma pequena península no sul da ilha onde a jovem terá vivido, e
oferecem “colheres de amor”, utensílios artesanais de madeira esculpida,
normalmente com símbolos alusivos.
Porque
um dia não é suficiente, na Coreia do Sul e noutros países asiáticos
celebram-se os 12 dias 14 do ano, cada um com o seu desígnio específico. Em
fevereiro cumprem-se os ritos da tradição ocidental, com um traço distintivo:
são as mulheres que oferecem chocolate aos homens. A 14 de março, no “Dia
Branco”, os homens retribuem o presente, oferecendo às mulheres chocolate
branco ou peças claras de lingerie. No mês seguinte, no “Dia Negro”, quem não
recebeu prendas nos meses anteriores reúne-se em comiseração numa refeição de
“noodles negros” banhados em molho de feijão. Ao longo do ano, celebram-se o
Dia do Beijo, o Dia do Vinho ou o Dia do Abraço.
As diferentes celebrações do amor pelo mundo
O
sétimo dia do sétimo mês do calendário chinês calha, este ano, no dia 29 de
agosto. Será então celebrado o Festival Qixi na China e em Taiwan, com dois
séculos de tradição e versões semelhantes noutros países como o Japão e o
Vietname. As celebrações homenageiam a história de amor entre uma tecedeira e
um vaqueiro e consistem em mostras de tecelagem, ofertas em devoção à deusa
Zhinu e confeção de doces tradicionais. Hoje hão de ser encontradas apenas em
zonas mais rurais, sendo que a maioria da população segue os gestos comerciais
do Dia de São Valentim. Em Taiwan, é habitual oferecerem-se ramos de flores
cujas cores e quantidades guardam significados específicos. 108 é o número
mágico para um pedido de noivado.
Em
Israel, tem-se retomado uma tradição de VI a.C. O Tu B’Av era uma cerimónia
judaica em que as mulheres solteiras se vestiam de branco, sinalizando
pretendentes. A tradição tem sido atualizada para os tempos modernos e
representa o Dia dos Namorados judeu, no 15º dia do mês de Av do calendário
judeu (entre julho e agosto).
De
regresso à Europa: na República Checa, os casais visitam a estátua do poeta
Karel Hynek Macha (viveu no século XIX e é talvez o equivalente checo de Camilo
Castelo Branco), no parque de Petrin, uma das maiores zonas verdes de Praga. É
no dia 1 de maio que se faz a romaria ao local, num bosque de cerejeiras
debaixo do qual se diz que um beijo dá sorte à relação. Na Roménia, o amor
celebra-se dez dias depois do 14 de fevereiro, para acolher a chegada da
primavera. Os casais lavam o rosto na neve e colhem flores silvestres. É uma
data popular para pedidos de casamento.
No
país vizinho, os catalães festejam a Diada de Sant Jordi, ou Dia de São Jorge,
a 23 de abril (data da morte do santo, em 303). A tradição do século XV dita
que os homens devem oferecer uma rosa vermelha à amada, e a oferta literária em
resposta terá surgido no início do século XX. Já os valencianos celebram São
Dionísio, também considerado padroeiro do amor, a 9 de outubro — coincidindo
com o dia da comunidade de Valência. As festividades têm como expressão mais
doce a oferta da “mocaorà”, uma seleção de frutas e pequenas figuras
confecionadas em maçapão, embrulhadas em lenços de seda e oferecidas às amadas.
Não
é preciso estar-se numa relação romântica para celebrar estas efemérides. Na
Estónia e na Finlândia, por exemplo, o dia 14 de fevereiro é dedicado à troca
de prendas e afetos entre amigos. As tradições, que, mais ou menos antigas, hão
de continuar a reinventar-se, mostram que o amor é sempre que uma pessoa
quiser.
Como derrotar Trump - Ensaio na Relógio D'Água
«Enquanto a maior parte dos outros líderes ocidentais cruzam os braços e cometem erros, Donald Trump reforça politicamente o seu poder arrogante. A única maneira de o travar é criar uma verdadeira nova ordem mundial.
De quê que eu não gosto, afinal?
Como não gostar de coisas: um manual de auto-ajuda
- Público - Edição Lisboa
- Rogério Casanova
De vez em quando, um amigo distraído ou um parente tresmalhado recomenda-me um qualquer produto cultural (um filme, um livro, uma série televisiva), vocalizando a sugestão com um despropositadamente confiante “acho que vais gostar”. Isto não acontece com frequência, mas acontece mais vezes do que o desejável (que seria zero). Nunca encorajei, nem compreendo, estes comportamentos descompensados. Não me lembro de gostar de nada mais ou menos desde 2012, e o reduzido catálogo das coisas de que gosto foi quase totalmente formado entre os 16 e os 25 anos (a idade correcta para gostar de coisas). Desde então, a minha posição dominante sobre as coisas é não gostar delas.
Não gostar de coisas é um talento e, como qualquer talento, pode ser treinado e aperfeiçoado. Neste ponto, não é difícil imaginar a reacção de quem já está habituado a não gostar de coisas e, portanto, não gostou da frase anterior: responderá que não gostar de coisas é fácil, e qualquer idiota pode torcer o nariz perante um quadro ou suspirar o seu enfado ao longo de um filme. Mas não gostar de coisas não pode ser uma operação apenas reactiva — um reflexo, um acidente fisiológico — tal como não deve ser uma postura artificial, nem uma provocação, nem um alicerce identitário. Deve ser algo mais raro, e mais puro: uma prática refinada, metódica e consciente. Isto não é cinismo (que seria preguiçoso) nem niilismo (que seria adolescente), mas uma rigorosa disciplina metafísica. Eis algumas dicas.
Identifiquem a falha
Tudo, se examinado com atenção suficiente, tem um momento em que se atraiçoa. Um filme pode manter-se transpiradamente coeso durante 130 minutos até que um diálogo pedestre ou uma composição desleixada quebra o encanto. Um romance vai conter sempre palavras desnecessárias. Por que estão ali? O que nos dizem sobre as debilidades secretas do autor? Habituem-se a reconhecer estes momentos e a atribuir-lhes importância injusta e * desproporcional.
Cultivem o olhar impassível
É crucial reconhecer que gostar não é algo que fazemos, mas algo que nos é feito, uma invasão externa através de pontos fracos. O prazer começa na pupila. O olhar arregalado, a dilatação estúpida do deslumbramento — este é o rosto do submisso, ou do fanático já convertido. Num mundo desenhado para nos capturar a atenção, a primeira linha de defesa é a profilaxia do olhar desfocado, do cepticismo semiadormecido de quem já viu tudo antes, demasiadas vezes.
Militarizem o desconforto
Durante séculos, o ser humano acreditava que a verdade se adquiria com sofrimento. Os prisioneiros da caverna de Platão tiveram de ser arrastados aos gritos para a luz; os ascetas cristãos f agelavam-se para chegar ao Divino.
O prazer floresce mais facilmente num corpo bem alimentado, descansado, relaxado. Desestabilizem essa paz. Sentem-se em cadeiras desconfortáveis. Mantenham o volume da música sempre demasiado alto ou demasiado baixo para ser realmente satisfatório. Privilegiem o que é áspero, amargo, assimétrico, ineficiente. Quando lerem o último romance “importante” ou “incontornável”, não o façam com a segurança da edição cuidada, do papel macio, do candeeiro bem posicionado; usem um ebook descarregado ilegalmente, lido num telemóvel com retroiluminação, até ficarem com os olhos secos e raiados de sangue, e sofrerem um terçolho semestral. E tenham sempre uma janela aberta e vestuário insuficiente: o frio mantém-nos vigilantes e irritadiços.
Inventem um inimigo imaginário
Um exercício útil: perante um novo objecto cultural, não perguntem “Eu gosto disto?”, mas antes “Quem são as pessoas que gostam disto, e quanto é que as desprezo?”
Tentem evocar visualmente os que desfrutam das coisas que detestamos: uma hidra plácida e gelatinosa, com milhares de queixos caídos.
Não me lembro de gostar de nada mais ou menos desde 2012, e o reduzido catálogo das coisas de que gosto foi quase totalmente formado entre os 16 e os 25 anos (a idade correcta para gostar de coisas). O gesto não deve procurar o desdém pessoal e individualizado, mas sim a criação de um adversário abstracto, uma heurística de oposição, um compósito de cada aficionado sorridente, cada consumidor incapaz de discriminar, cada turista cultural que só se exprime através de um gargarejar constante de imerecida gratidão.
Não ser do contra
É o erro mais comum entre os aspirantes a não gostar de coisas. O aprendiz acredita que lhe basta assumir a posição oposta à da maioria. As massas aplaudem? Ele apupa. Os críticos comovem-se? Ele troça. Isto é o equivalente ao cachorrinho que ladra agressivamente para o próprio eco. Quem é meramente do contra nunca é livre: permanece agrilhoado à mesma cultura do entusiasta militante. Se se limita a dizer o contrário, continua a seguir-lhe os passos, a combater sombras projectadas por prazeres alheios. Não gostar de coisas implica a recusa em participar nesta dialéctica grosseira. O erro parte da crença vulgar e pueril de que um consenso está simplesmente errado, e que, portanto, deve ser disputado e derrubado. A mente sofisticada não argumenta contra o consenso — prefere redescrevê-lo como um delírio, o lodo coalhado de coerções invisíveis, o produto acumulado de in inércia, fadiga, e pavor de estar sozinho. Do lado de fora dessa bolha, cultivamos uma espé espécie de sinestesia negativa, cuida cuidadosamente calibrada, uma inver inversão dos sentidos que conv converta o mundo num lugar em que t tudo o que é aclamado nos queim queima a língua, toda a harm harmonia louvada nos perfura os tímp tímpanos, toda a imagem vene venerada nos chega através do filtro vermelho do rancor. Não se trata de repulsa reaccionária, nem de rebeldia adolescente, mas de uma recusa tão total que rejeit rejeita até o prazer fácil da sua próp própria postura. O que se deve faze fazer ao consenso, portanto, nã não é contestá-lo, mas torná-lo i irrelevante, negando-lhe sequer a dignidade da argumentação. Aqueles que gostam do que não gostamos nunca devem sentir que fazem parte de um debate. Devem sentir-se no interior de uma sala vasta, mas silenciosa, cujas paredes se dissolvem em vapor, onde a gravidade deixou de funcionar, onde toda a arquitectura do seu prazer nunca chegou a existir.
Nunca dar justificações coerentes
Uma das manobras mais traiçoeiras dos que gostam de coisas é exigir explicações. “Porque é que não gostas disto?”, perguntam, como se a recusa em partilhar o seu deleite fosse um enigma para ser decifrado. Mas qualquer explicação é uma armadilha. Racionalizar uma aversão é reduzi-la a um estatuto condicional, algo que poderia, noutras circunstâncias, ser modificado ou corrigido. O impulso para organizar todas as preferências num sistema com lógica interna consistente é, em si mesmo, um sintoma da doença. Não há nada mais suspeito do que alguém que consegue explicar com precisão porque adora todas as coisas que adora e detesta todas as coisas que detesta. As teorias unificadas do gosto são para burocratas: as chefias intermédias do edifício cultural. Só eles acreditam numa correspondência perfeita entre os seus princípios, a sua sensibilidade e o seu sistema nervoso. Há que resistir a isto, e abraçar o caos e a contradição. Autorizem-se a não gostar de coisas pelas mesmas exactas razões que, no passado distante, vos levaram a gostar de outras. Deixem que as vossas aversões sejam guiadas por caprichos erráticos, repulsas irracionais, vendettas pessoais inconscientes. Nunca expliquem nada a ninguém. A opinião mais medíocre de todas é a que se esforça por encaixar numa tabuada de outras opiniões.
Este é o caminho certo. Interiorizem estes princípios, apliquem estes métodos, e experimentem viver assim durante uns meses. Garanto que não vão gostar, o que, se bem se lembram, é o objectivo. Será a primeira de muitas vitórias.
sábado, 15 de fevereiro de 2025
William Shakespeare’s Macbeth
William Shakespeare’s Macbeth is a dark, gripping tale of ambition, power, and the devastating consequences of unchecked desire. From its eerie opening scenes to its bloody climax, the play immerses audiences in a world of moral decay and psychological turmoil, leaving an indelible mark on anyone who experiences it. At its heart, Macbeth is a cautionary tale about the corrupting nature of ambition and the lengths to which people will go to achieve their goals—only to find that the price of their actions is far greater than they ever imagined.


