Não estou com pachorra
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
Lembro-me de um tempo em que as pessoas não tinham tempo. Agora não: as pessoas agora não estão com tempo. Lembro-me de um tempo em que as pessoas não tinham paciência para me aturar. Agora, não estão com paciência.
As mudanças na nossa língua apanham-se bem — basta estar com memória. Mas as perguntas fascinantes nunca têm resposta imediata: porque é que as pessoas começaram a falar assim? Para onde vai levar esta nova maneira de falar? É bom ou mau para a língua portuguesa? E significa o quê?
Diz-me um jovem que apanhei na rua que dizer “não tenho tempo” é um bocadinho duro, um bocadinho malcriado, um bocadinho “vai mas é chatear outro!”.
É mais elegante, mantém o jovem linguista, dizer “não estou com tempo”, porque dá a ideia que tivemos de sair à rua de repente e, com a pressa, deixámos o tempo em casa. Dá a ideia, enfim, de que amanhã já poderemos estar com tempo.
Será assim? Se é assim, é mais um triunfo para a hipocrisia. Será que já se diz aos mendigos “não estou com dinheiro”, em vez de “tenha paciência”?
Dir-se-ia que os novos portugueses têm, desculpem, estão com um problema com o verbo “ter”. Será que ter é feio? Talvez excessivamente definitivo? Não será mais agradável estar com uma grande barriga do que tê-la? Não pode ser isso. Senão não haveria o péssimo hábito de desejar aos espectadores “tenha uma boa noite”.
É uma batalha mais do que perdida, mas uma boa noite não é tida: é passada. Em português diz-se “passe uma boa noite”. O verbo passar é muito mais bonito e muito mais verdadeiro.´ Ter uma noite é diferente. Digo isto, mas sei lá se qualquer dia começam a dizer “esteja com uma boa noite”, em vez de “tenha uma boa noite”?
Agora que tenho 70 anos, não é dizendo que estou com 70 anos que alguém mos tira. Não vou acordar amanhã com 69. Estar com 70 anos não consola nada — só lembra que, agora, estou com 70, mas, não tarda, sem saber ler nem escrever, estou com 71, porque isto de estar é mais instável que eu sei lá.
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