O VAZIO ENCANTADOR
Há dias em que olho para as pessoas e tenho a impressão de que todas carregam um espelho voltado para dentro, mas não para se conhecerem. Olham para si apenas para confirmar que ainda estão ali. E estar ali, para elas, parece bastar.
Talvez eu também faça isso.
É difícil confessar que, às vezes, não procuro uma verdade dentro de mim. Procuro apenas alguma coisa que faça barulho. Qualquer pensamento serve, desde que me impeça de escutar aquele silêncio que começa depois de tudo o que digo sobre mim. Porque existe um ponto em que meu nome termina. Existe uma região em que minhas lembranças já não me explicam, minhas preferências não me definem e minhas palavras não conseguem chegar.
É ali que começo a sentir medo.
Não medo de estar vazio, mas de descobrir que o vazio talvez seja a parte mais sincera de mim.
Vivemos cercados por pessoas encantadas consigo mesmas. Não necessariamente porque se amem. Talvez porque não suportem afastar os olhos da própria imagem. Há uma fascinação que se parece com amor, mas é apenas vigilância. A pessoa observa a si mesma para não desaparecer. Conta suas dores, exibe suas alegrias, organiza os próprios gestos como quem arruma uma vitrine e, depois, permanece diante dela esperando que alguém confirme que há vida lá dentro.
E talvez haja.
Mas há também uma espécie de ausência cuidadosamente iluminada.
Vejo rostos que aprenderam a sorrir antes de sentirem alegria. Vejo palavras que chegam antes do pensamento. Vejo pessoas que já sabem o que devem parecer enquanto ainda não descobriram o que são. Tudo nelas está pronto para ser mostrado, mas quase nada está preparado para ser vivido.
Isso me perturba porque reconheço nelas alguma coisa minha.
Também já escolhi palavras bonitas para esconder uma pobreza de sentimento. Também já falei muito porque não tinha o que dizer. Também já transformei uma dor em narrativa antes de permitir que ela me ferisse por inteiro. Quis explicar o que sentia para não precisar sentir aquilo que não conseguia explicar.
Talvez a linguagem seja, algumas vezes, a maneira mais elegante de fugir.
Mas o silêncio também pode mentir.
Há quem se cale não por profundidade, mas porque nada encontrou dentro de si. Há silêncios cheios, como uma casa na qual alguém respira atrás da porta. E há silêncios abandonados, nos quais até o eco parece ter partido. Nem toda pessoa misteriosa guarda um universo. Algumas apenas aprenderam a fechar as janelas para que ninguém perceba que os quartos estão vazios.
No entanto, quem poderia julgá-las?
Todos nós decoramos nossos vazios.
Alguns colocam neles livros, outros colocam viagens, opiniões, crenças, títulos, amores, fotografias, aplausos. Cada um escolhe os móveis com que pretende tornar habitável a própria ausência. Depois convidamos os outros a entrar e esperamos que eles admirem a decoração sem perguntar o que existe atrás das paredes.
Talvez seja isso que chamamos de personalidade, o modo particular como cada pessoa organiza aquilo que lhe falta.
Penso nisso e sinto uma espécie de vertigem. Se retirassem de mim tudo o que aprendi a mostrar, o que restaria? Se arrancassem meu nome, minha história, minhas convicções, meus gostos, minhas mágoas e até as pessoas que amo, quem encontrariam?
Talvez ninguém.
E esse ninguém seria eu.
A ideia deveria me apavorar, mas há nela uma estranha libertação. Porque talvez eu não precise estar completamente preenchido. Talvez essa exigência de possuir uma essência sólida seja apenas mais uma crueldade que inventamos contra nós mesmos. Queremos ser alguma coisa definitiva porque nos assusta viver como pergunta. Queremos dizer “eu sou” quando, na verdade, estamos sempre começando a ser.
O vazio não é necessariamente a falta de uma identidade. Pode ser o espaço onde uma identidade ainda respira sem se transformar em prisão.
Mas existe outro vazio, mais triste. É aquele que sentimos diante dos outros.
Converso com alguém e, de repente, percebo que nenhuma palavra alcança realmente a pessoa que está diante de mim. Ela me responde, sorri, talvez toque minha mão, mas permanece inacessível. Há nela um quarto ao qual jamais serei convidado. Posso conhecer seus hábitos, seus medos, a maneira como dorme e aquilo que costuma pedir quando está triste. Posso reconhecer o som de seus passos. Mesmo assim, haverá nela alguma coisa que morrerá sem ter sido conhecida por ninguém.
Talvez amar seja aceitar essa impossibilidade.
Amamos alguém que nunca conheceremos por inteiro. Abraçamos uma criatura cercada por portas. E, ainda assim, aproximamo-nos. Não porque possamos preencher o vazio do outro, mas porque, durante alguns instantes, conseguimos sentar-nos ao lado dele.
Há uma ternura terrível nisso.
Ninguém salva ninguém da solidão fundamental de existir. Podemos acompanhar, tocar, cuidar, escutar. Podemos acender uma pequena luz no corredor. Mas cada pessoa continuará tendo de entrar sozinha em certas regiões de si mesma. Há dores que não aceitam testemunhas. Há perguntas que se desfazem quando tentamos pronunciá-las. Há noites interiores nas quais nenhum amor consegue amanhecer por nós.
Talvez por isso as pessoas se exibam tanto. Mostrar-se é uma tentativa desesperada de ser alcançado. Cada fotografia parece dizer: estou aqui. Cada opinião grita: percebam que penso. Cada confissão pede: entrem em mim. Mas quanto mais alguém se mostra, mais cresce a suspeita de que aquilo que foi mostrado não era exatamente a pessoa.
Era apenas o que ela conseguiu retirar do escuro.
O resto permaneceu lá.
Estamos encantados com o vazio dos outros porque ele nos oferece uma superfície sobre a qual podemos projetar aquilo de que precisamos. Não amamos apenas quem está diante de nós. Amamos também aquilo que inventamos para preencher o que não conhecemos dessa pessoa. Completamos seus silêncios com nossos desejos, interpretamos seus gestos de acordo com nossas carências, atribuímos profundidade às suas ausências e chamamos de encontro aquilo que talvez tenha sido apenas a coincidência de duas imaginações.
Depois nos decepcionamos quando o outro deixa de caber naquilo que imaginamos.
Não perdoamos facilmente uma pessoa por ser diferente da personagem que criamos para ela.
Talvez o encantamento nasça justamente do espaço que desconhecemos. Aquilo que compreendemos por completo corre o risco de perder o mistério. Por isso, às vezes, desejamos alguém enquanto ainda podemos imaginá-lo. Quando a realidade chega com seus hábitos pequenos, suas repetições, seus egoísmos e suas limitações, sentimos que alguma coisa se quebrou. Mas talvez nada tenha se quebrado. Talvez apenas tenhamos finalmente encontrado a pessoa no lugar onde antes existia nossa fantasia.
Conhecer alguém é assistir lentamente ao desaparecimento de nossas invenções.
Se o amor sobreviver a isso, então talvez tenha começado.
Mas há pessoas que preferem o encantamento. Apaixonam-se pelo vazio porque o vazio não contradiz. Ele aceita todas as formas que lhe damos. Podemos colocar nele a beleza que desejamos, a bondade de que precisamos, a inteligência que admiramos. O vazio é obediente. As pessoas reais, não.
As pessoas reais chegam carregadas de imperfeições, memórias que não compartilhamos e dores que não fomos nós que causamos. Elas não existem para completar nossa narrativa. Possuem enredos próprios, alguns dos quais jamais conheceremos. Amar uma pessoa real exige abandonar o prazer de inventá-la.
Isso é quase uma violência contra o nosso desejo.
Queremos que os outros preencham o que nos falta, mas oferecemos a eles justamente aquilo que também nos falta. Dois vazios aproximam-se e esperam produzir plenitude. Às vezes conseguem produzir apenas dependência. Outras vezes produzem uma companhia tão delicada que a ausência deixa, por alguns instantes, de parecer abandono.
Talvez seja o máximo que podemos oferecer uns aos outros.
Não plenitude.
Presença.
A plenitude me parece cada vez mais uma palavra inventada por quem não tolerava a incompletude. Ninguém está cheio de si mesmo. Estamos cheios de fragmentos, vozes antigas, gestos herdados, medos que não escolhemos, lembranças modificadas pelo tempo. Há dentro de nós uma multidão que não se reconhece. Chamamos essa confusão de “eu” porque precisamos de um nome curto para continuar vivendo.
Mas o eu talvez seja apenas a borda do vazio.
E há beleza nisso, embora eu quase me arrependa de admitir.
Porque, se estivéssemos completos, nada poderia entrar. Nenhuma pessoa nos modificaria. Nenhuma música encontraria espaço. Nenhuma perda abriria uma nova profundidade. Nenhum amor deslocaria os móveis da alma. Seríamos inteiros e, por isso mesmo, fechados.
Talvez o vazio seja nossa capacidade de receber o mundo.
O problema começa quando fazemos dele um espetáculo. Quando deixamos de habitá-lo e passamos a exibi-lo. Quando transformamos nossas ausências em ornamentos, nossas fragilidades em identidades, nossa solidão em superioridade. Há quem se orgulhe de não sentir, como se a insensibilidade fosse uma forma de lucidez. Há quem trate a própria incapacidade de amar como prova de inteligência. Há quem chame de liberdade o medo de pertencer.
É possível ficar encantado até mesmo com a própria ruína.
A pessoa contempla o que perdeu, o que não consegue ser, o que jamais recebeu, e constrói ali uma espécie de altar. Começa a reverenciar a própria falta. Já não deseja curá-la porque não saberia quem seria sem ela. O vazio torna-se sua única posse, e qualquer tentativa de preenchê-lo parece uma ameaça.
Talvez algumas tristezas permaneçam porque se tornaram nossa maneira de existir.
Eu também tenho meus altares.
Não sei destruí-los. Às vezes apenas retiro a poeira e finjo que estou me despedindo. Depois volto e acendo outra vela.
Há em mim vazios que vieram de perdas e vazios que já estavam aqui antes de qualquer perda. Uns têm nomes. Outros não permitem sequer que eu os chame. Carrego todos como quem leva dentro do peito uma casa cujos cômodos não conhece completamente.
De vez em quando, uma porta se abre.
Não encontro respostas.
Encontro apenas uma espécie de silêncio vivo, alguma coisa que não é ausência nem presença, mas possibilidade. Então compreendo, por um instante, que talvez eu não esteja vazio. Talvez eu seja o próprio espaço no qual a vida acontece.
Não sou apenas aquilo que possuo.
Sou também o lugar deixado por aquilo que partiu, a abertura produzida por aquilo que ainda não chegou, a distância entre o que sinto e o que consigo dizer.
E os outros talvez sejam assim.
Não mistérios a serem resolvidos, mas vazios a serem respeitados.
Talvez devêssemos parar de tentar preencher uns aos outros. Há uma brutalidade escondida nesse desejo de completar alguém, como se a incompletude alheia fosse um defeito que nos cabe corrigir. Talvez amar seja tocar a borda do abismo do outro sem empurrá-lo, sem exigir que ele saia, sem lançar dentro dele as nossas próprias necessidades.
Apenas permanecer.
Permanecer quando não há espetáculo. Quando a beleza se distrai. Quando as palavras falham. Quando o outro já não consegue nos encantar e começa, finalmente, a existir.
Porque viver é isto, descobrir que somos vazios, encontrar outros vazios pelo caminho e, apesar de tudo, oferecer presença.
Às vezes, duas ausências se reconhecem.
E, por um instante, isso se parece muito com estar inteiro.
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