Um novo normal. A romantização do sofrimento. António Craveiro, professor e pedagogo!
Responde-me a uma coisa com toda a honestidade do mundo: desde quando aceitamos que amar alguém significa viver a pisar ovos dentro da própria casa?
Em que momento começámos a acreditar que uma paixão verdadeira tem de nos tirar a paz, roubar-nos o sono, provocar ansiedade e deixar-nos constantemente a tentar perceber o que fizemos de errado?
Talvez tenhamos romantizado demasiado o sofrimento.
Há relações em que se passa o dia a medir palavras para evitar discussões, a engolir lágrimas para não parecer demasiado sensível, a aceitar silêncios como se fossem normais e a encontrar justificações para comportamentos que, no fundo, sabemos que não são aceitáveis.
E, pior ainda, começamos a chamar intensidade àquilo que é instabilidade, chamamos paixão àquilo que é dependência e confundimos migalhas de afeto com amor.
Receber carinho depois de uma semana de frieza parece um acontecimento extraordinário. Um abraço depois de dias de distância transforma-se numa espécie de recompensa. E nós agarramo-nos àquele pequeno momento bom, esquecendo todos os momentos que nos fizeram sentir pequenos.
É assim que a montanha-russa emocional vai destruindo a autoestima em silêncio.
Mas existe algo ainda mais importante: amor sem respeito deixa de ser amor vivido a dois.
Quem ama não precisa de concordar sempre, mas precisa de respeitar.
Quem ama não precisa de estar permanentemente colado ao outro, mas quer estar presente.
Quem ama não precisa de abandonar a sua individualidade, mas sabe criar uma parceria.
Quem ama não procura constantemente razões para se afastar; procura razões para construir.
Quem ama cuida.
Quem ama procura.
Quem ama pergunta como estamos.
Quem ama preocupa-se.
Quem ama dá importância.
Quem ama faz do outro uma prioridade — não necessariamente a única, mas uma prioridade.
Porque prioridades também são escolhas.
E quando numa relação começamos a sentir que somos sempre a última opção, quando o nosso tempo é aquele que sobra, quando a nossa presença é dispensável e quando existe sempre alguma coisa ou alguém mais importante, não podemos fingir que isso não tem consequências.
Uma relação não se alimenta apenas de palavras bonitas, química ou momentos extraordinários. Alimenta-se de presença, respeito, lealdade, cuidado, cumplicidade e reciprocidade.
Lealdade não é apenas não trair.
Lealdade é proteger a relação quando o outro não está presente.
É não fazer deliberadamente aquilo que sabemos que magoaria quem amamos.
É saber colocar limites.
É não alimentar situações que podem ferir a confiança.
É agir de acordo com aquilo que dizemos sentir.
Porque amar alguém também é pensar: “Como é que as minhas escolhas vão fazer esta pessoa sentir-se?”
E talvez seja aqui que muitas relações se perdem.
Confundimos liberdade com ausência de consideração. Confundimos independência com indiferença. Confundimos espaço com distância emocional. E, quando damos por nós, duas pessoas que um dia queriam estar juntas passam a viver uma ao lado da outra, mas emocionalmente cada vez mais longe.
Depois vem a desculpa habitual: “É assim mesmo uma relação.”
Não.
Não é assim que uma relação tem de ser.
Amor não é viver permanentemente em estado de alerta, sem saber qual será a versão da pessoa que vamos encontrar. Não é ter medo de falar. Não é sentir culpa por tudo. Não é implorar por atenção. Não é aceitar desprezo em troca de alguns momentos de carinho.
E também não é sofrer todos os dias em nome de um futuro que talvez nunca chegue.
Temos uma tendência perigosa para acreditar que quanto mais difícil for uma história, maior será o amor no final. Como se todas as noites mal dormidas fossem provas de amor e todas as feridas fossem apenas capítulos necessários para chegar ao “felizes para sempre”.
Mas a vida não é um filme.
O sofrimento não transforma uma relação numa grande história de amor.
Às vezes, transforma apenas duas pessoas cansadas em duas pessoas feridas.
Uma relação saudável não significa ausência de problemas. Haverá discussões, diferenças, dias difíceis, cansaço e momentos de afastamento.
Mas existe uma diferença enorme entre ter problemas numa relação e fazer da própria relação um problema.
Quando duas pessoas se amam, procuram soluções.
Quando se magoam, procuram reparar.
Quando se afastam, procuram reencontrar-se.
Quando erram, procuram reconhecer.
Quando existe uma dificuldade, enfrentam-na juntos.
Porque uma relação é, acima de tudo, uma parceria.
É olhar para o outro e perceber: “Eu não estou aqui apenas para receber amor. Estou aqui também para cuidar do teu coração.”
E talvez esta seja uma das maiores provas de amor: ter consciência de que aquilo que fazemos pode destruir a pessoa que dizemos amar — e, mesmo assim, escolher não o fazer.
Não adianta existir uma química absurda se a convivência nos desmonta por dentro.
Não adianta dizer “amo-te” se as atitudes dizem “não és importante”.
Não adianta querer alguém na nossa vida se não queremos verdadeiramente estar na vida dessa pessoa.
Porque amar não é apenas sentir.
Amar é escolher.
É cuidar.
É respeitar.
É procurar.
É estar.
É ser leal.
É construir.
E, sobretudo, é fazer com que a pessoa que amamos se sinta segura dentro da relação que construímos juntos.
Por isso, talvez esteja na hora de deixarmos de chamar “amor” àquilo que nos destrói.
Nem toda a história difícil é uma grande história de amor.
Às vezes, é apenas uma história onde nos esquecemos de nós próprios enquanto tentávamos salvar alguém que nunca teve a mesma vontade de nos salvar.
O amor da nossa vida não deve ser a nossa tempestade diária.
Deve ser o lugar onde, mesmo quando o mundo lá fora desaba, encontramos um cais onde podemos finalmente descansar.