domingo, 20 de setembro de 2026

Consideração é conhecer os pequenos detalhes - excelente texto de António Craveiro! Valorizemos quem nos valoriza!

 A CONSIDERAÇÃO

A vida, na verdade, não é simples. Mas torna-se mais leve quando aprendemos a escolher quem também nos escolhe.
Querer caber onde não há espaço é o que torna tudo pesado e exaustivo. A vida ganha outra leveza quando deixamos de insistir naquilo que é unilateral e decidimos investir em quem não tem dúvidas sobre o nosso valor.
A reciprocidade não exige malabarismos, jogos ou grandes demonstrações. É simples. É clara. É estar. É fazer questão.
Talvez por isso existam pessoas que dizem gostar muito de nós e, ainda assim, nos fazem sentir tão pouco importantes. Porque gostar sem consideração pode ser apenas um sentimento bonito que nunca aprendeu a transformar-se em cuidado.
E é aqui que entra a consideração.
Considerar alguém é pensar antes de agir. É não deixar de fazer as nossas escolhas, mas lembrar que algumas delas podem tocar, magoar ou desiludir quem está ao nosso lado.
É pensar antes de falar, não por medo de dizer o que sentimos, mas porque sabemos que as palavras também deixam marcas.
É tomar uma decisão e, antes de avançar, perguntar a nós próprios:
“Se esta pessoa é importante para mim, será que aquilo que estou a fazer também leva em conta o que ela poderá sentir?”
Consideração é conhecer os pequenos detalhes.
É lembrar aquilo que o outro valoriza. É perceber quando a nossa presença é importante. É cumprir uma palavra. É não deixar alguém à espera sem uma explicação. É não tratar como indiferente quem nunca nos tratou como indiferentes.
Porque, muitas vezes, a maior prova de consideração não está naquilo que fazemos por alguém.
Está naquilo que escolhemos não fazer porque sabemos que poderia magoá-lo.
E isto não vale apenas para relações amorosas.
Vale para amigos, irmãos, pais, filhos, colegas. Vale para qualquer pessoa a quem dizemos que é importante para nós.
No fundo, considerar alguém é incluí-lo na forma como caminhamos pelo mundo.
Não significa viver em função dessa pessoa. Não significa abdicar da nossa liberdade ou deixar de fazer as nossas escolhas.
Significa apenas reconhecer que, quando alguém ocupa um lugar na nossa vida, merece também ocupar um pequeno espaço nos nossos pensamentos antes de algumas decisões.
Porque dizer “gosto de ti” é bonito.
Mas fazer alguém sentir que foi tido em consideração talvez seja uma das formas mais silenciosas, mais bonitas e mais sinceras de dizer exatamente a mesma coisa.
No final, consideração é isso: lembrar que não estamos sozinhos no mundo e que, quando alguém importa, as nossas escolhas também podem ter impacto no coração dessa pessoa.

António Craveiro
setembro 2026

Nem tudo o que parece é!

 SEJAMOS HONESTOS: CONHECER ALGUÉM, HOJE, É MUITAS VEZES COMPRAR UMA PESSOA PELA FOTOGRAFIA E SÓ DESCOBRIR OS DEFEITOS QUANDO A ENCOMENDA CHEGA A CASA.

No início, toda a gente vem em “versão de demonstração”: tranquila, segura, independente, divertida, muitos risinhos, borboletas no estômago, emocionalmente saudável, zero ciúmes, zero dramas e, claro, aquela frase que nunca falha: “Eu prezo muito a liberdade de cada um. Numa relação, cada pessoa tem de ter o seu espaço.” É praticamente uma entrevista de emprego onde toda a gente mente no currículo.
Porque ninguém, no auge da conquista, olha para ti e diz: “Olha, antes de te apaixonares, convém saberes algumas coisas. Sou possessiva. Sou desconfiada. Tenho ciúmes. Não gosto muito que o meu parceiro saia sem mim. Cafés com amigas também são um conceito que vou precisar de analisar.
E quando não sei onde estás, a minha cabeça não descansa: produz uma série da Netflix com oito episódios, duas temporadas e um final que, normalmente, não tem nada a ver com a realidade. Ahhh… sou teimosa. Tenho uma dificuldade monumental em pedir desculpa. Às vezes amuo e espero que descubras sozinho porquê. E, para terminar, tenho um pequeno lado vingativo que prefiro não explorar nesta primeira fase da relação.”
Ninguém diz isto. Diz-se: “Sou muito segura de mim.” Até aparecer a Patrícia. “Quem é a Patrícia?” “Uma colega.” “Ah…” “E porque é que ela pôs um coração? Que put@!!!”
E eles fazem exatamente o mesmo. “Sou super saudável emocionalmente.” “Não ligo nada às redes sociais.” “Não sou ciumento.” “Sou muito simples.” “Não gosto de dramas.” Claro. Não liga às redes sociais, mas sabe perfeitamente quem viu o teu story.
Não é ciumento, mas reparou que começaste a seguir uma pessoa nova. É emocionalmente saudável, mas quando alguma coisa o incomoda responde “nada”, desaparece durante três horas e espera que desenvolvas capacidades de investigação criminal. E é “muito simples” até perceberes que essa simplicidade vem acompanhada de 37 regras que nunca te contou, mas que devias obviamente conhecer.
E aqui está a parte mais absurda: fazemos isto para sermos escolhidos. Escondemos aquilo que achamos que pode afastar o outro e mostramos aquilo que acreditamos que ele quer encontrar. Chamamos-lhe omissão, estratégia, prudência, medo de assustar… No fundo, muitas vezes é só marketing emocional.
E depois, quando a relação avança e começam a aparecer as letras pequeninas dos termos e condições, lá vem a frase: “Nunca pensei que ele/ela fosse assim.” Pois não. Porque no início não estavas a conhecer uma pessoa. Estavas a conhecer a candidatura dela ao cargo de “amor da tua vida”.
O problema é que a candidatura vem sempre impecável. O contrato é que traz as cláusulas. E quando finalmente aparece a pessoa real com ciúmes, manias, inseguranças, defeitos, contradições, mau feitio, medos, virtudes e toda a tralha que vem dentro de um ser humano ficamos chocados.
“Mas onde estava esta pessoa?” Estava lá. Tu é que estavas demasiado ocupado a apaixonar-te pela versão que te estavam a vender. E talvez a verdade mais incómoda seja esta: não queremos realmente conhecer alguém. Queremos encontrar alguém que corresponda àquilo que já decidimos que queremos.
Por isso, quando alguém mente para nos conquistar, dizemos que fomos enganados. Quando alguém é sincero e não corresponde ao nosso ideal, chamamos-lhe red flag.
E depois ainda temos a lata de perguntar porque é que já ninguém se mostra como é. Talvez porque perceberam uma coisa muito simples: Neste mercado, a verdade pode fazer perder a venda.