SEJAMOS HONESTOS: CONHECER ALGUÉM, HOJE, É MUITAS VEZES COMPRAR UMA PESSOA PELA FOTOGRAFIA E SÓ DESCOBRIR OS DEFEITOS QUANDO A ENCOMENDA CHEGA A CASA.
No início, toda a gente vem em “versão de demonstração”: tranquila, segura, independente, divertida, muitos risinhos, borboletas no estômago, emocionalmente saudável, zero ciúmes, zero dramas e, claro, aquela frase que nunca falha: “Eu prezo muito a liberdade de cada um. Numa relação, cada pessoa tem de ter o seu espaço.” É praticamente uma entrevista de emprego onde toda a gente mente no currículo.
Porque ninguém, no auge da conquista, olha para ti e diz: “Olha, antes de te apaixonares, convém saberes algumas coisas. Sou possessiva. Sou desconfiada. Tenho ciúmes. Não gosto muito que o meu parceiro saia sem mim. Cafés com amigas também são um conceito que vou precisar de analisar.
E quando não sei onde estás, a minha cabeça não descansa: produz uma série da Netflix com oito episódios, duas temporadas e um final que, normalmente, não tem nada a ver com a realidade. Ahhh… sou teimosa. Tenho uma dificuldade monumental em pedir desculpa. Às vezes amuo e espero que descubras sozinho porquê. E, para terminar, tenho um pequeno lado vingativo que prefiro não explorar nesta primeira fase da relação.”
Ninguém diz isto. Diz-se: “Sou muito segura de mim.” Até aparecer a Patrícia. “Quem é a Patrícia?” “Uma colega.” “Ah…” “E porque é que ela pôs um coração? Que put@!!!”
E eles fazem exatamente o mesmo. “Sou super saudável emocionalmente.” “Não ligo nada às redes sociais.” “Não sou ciumento.” “Sou muito simples.” “Não gosto de dramas.” Claro. Não liga às redes sociais, mas sabe perfeitamente quem viu o teu story.
Não é ciumento, mas reparou que começaste a seguir uma pessoa nova. É emocionalmente saudável, mas quando alguma coisa o incomoda responde “nada”, desaparece durante três horas e espera que desenvolvas capacidades de investigação criminal. E é “muito simples” até perceberes que essa simplicidade vem acompanhada de 37 regras que nunca te contou, mas que devias obviamente conhecer.
E aqui está a parte mais absurda: fazemos isto para sermos escolhidos. Escondemos aquilo que achamos que pode afastar o outro e mostramos aquilo que acreditamos que ele quer encontrar. Chamamos-lhe omissão, estratégia, prudência, medo de assustar… No fundo, muitas vezes é só marketing emocional.
E depois, quando a relação avança e começam a aparecer as letras pequeninas dos termos e condições, lá vem a frase: “Nunca pensei que ele/ela fosse assim.” Pois não. Porque no início não estavas a conhecer uma pessoa. Estavas a conhecer a candidatura dela ao cargo de “amor da tua vida”.
O problema é que a candidatura vem sempre impecável. O contrato é que traz as cláusulas. E quando finalmente aparece a pessoa real com ciúmes, manias, inseguranças, defeitos, contradições, mau feitio, medos, virtudes e toda a tralha que vem dentro de um ser humano ficamos chocados.
“Mas onde estava esta pessoa?” Estava lá. Tu é que estavas demasiado ocupado a apaixonar-te pela versão que te estavam a vender. E talvez a verdade mais incómoda seja esta: não queremos realmente conhecer alguém. Queremos encontrar alguém que corresponda àquilo que já decidimos que queremos.
Por isso, quando alguém mente para nos conquistar, dizemos que fomos enganados. Quando alguém é sincero e não corresponde ao nosso ideal, chamamos-lhe red flag.
E depois ainda temos a lata de perguntar porque é que já ninguém se mostra como é. Talvez porque perceberam uma coisa muito simples: Neste mercado, a verdade pode fazer perder a venda.
Autor: Bruno Fernandes
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