domingo, 2 de fevereiro de 2025

Espera que desespera!

 A Fila de Espera e a Filosofia do Tempo Perdido

Entre o Tédio e a Introspecção: O Tempo Subjetivo da Espera
O que significa esperar? À primeira vista, a espera parece um intervalo vazio, um hiato entre dois acontecimentos, um lapso temporal sem valor próprio. No entanto, esse “tempo morto” da fila de espera, do trânsito congestionado, do atendimento que não chega, carrega uma complexidade existencial profunda. Estaria o tempo, nesses momentos, sendo desperdiçado ou seria ele, paradoxalmente, um convite à introspecção?
A espera, em sua essência, é a confrontação do indivíduo com o tempo puro, sem distrações. No cotidiano acelerado, onde cada instante é instrumentalizado e cada ação exige um propósito, ser forçado a aguardar sem controle sobre a duração desse intervalo pode gerar angústia e impaciência. A fila é um espaço de impotência: estamos nela, mas não a comandamos. Como nos lembraria Sartre, em O Ser e o Nada, a angústia nasce quando o sujeito percebe que sua liberdade é limitada por circunstâncias que escapam à sua vontade.
Mas a espera também nos força a encarar um fenômeno fascinante: a distorção do tempo subjetivo. Henri Bergson, em Matéria e Memória, distingue o tempo físico, objetivo e mensurável, do tempo vivido, qualitativo e subjetivo. Quando estamos imersos em uma atividade prazerosa, o tempo escoa rapidamente; quando somos obrigados a esperar, ele se dilata, tornando cada minuto um fardo. Essa distorção demonstra que o tempo não é uma realidade fixa, mas uma experiência moldada pela nossa consciência e estado emocional.
1. A Espera Como Desperdício: A Ilusão da Produtividade Contínua
Na sociedade contemporânea, onde o tempo é reduzido a um recurso econômico, esperar é visto como um desperdício, uma falha no mecanismo da produtividade incessante. O indivíduo moderno teme a espera porque ela interrompe a ilusão de eficiência que sustenta a lógica capitalista. O ócio, antes valorizado pelos gregos como um espaço de contemplação filosófica (scholé), tornou-se sinônimo de inatividade improdutiva.
Nesse contexto, a fila — seja no banco, no aeroporto ou no tráfego — gera irritação porque contraria a ilusão de controle sobre o próprio tempo. Mas será que realmente “perdemos tempo” ao esperar, ou apenas temos a ilusão de que poderíamos usá-lo de maneira mais útil?
Martin Heidegger, em Ser e Tempo, argumenta que a relação do homem com o tempo não é objetiva, mas existencial. Não “possuímos” o tempo como uma moeda a ser gasta, pois somos o próprio tempo que vivemos. A fila de espera, ao frustrar nossa ânsia de ação, expõe a fragilidade dessa ilusão utilitarista: ela nos obriga a encarar o tempo não como algo externo que controlamos, mas como uma condição fundamental do nosso ser.
2. A Espera Como Experiência Filosófica
Se, por um lado, a espera pode ser percebida como um tormento, por outro, ela pode ser um portal para a introspecção. Pascal, em Pensamentos, já advertia que “todos os problemas humanos decorrem da incapacidade do homem de permanecer quieto em seu próprio quarto”. A fila, ao impedir o escapismo da ação, confronta-nos com a necessidade de habitar nosso próprio pensamento.
Nesse sentido, a espera pode ser um momento de suspensão da mecanicidade cotidiana, uma pausa forçada para a reflexão. Os estoicos, como Sêneca e Marco Aurélio, ensinavam que não temos controle sobre os eventos externos, mas apenas sobre nossa reação a eles. Em Cartas a Lucílio, Sêneca sugere que a sabedoria consiste em transformar qualquer situação adversa em um exercício de virtude. Se a espera é inevitável, por que não usá-la como um treinamento para a paciência e a contemplação?
Aqui, podemos invocar também Proust, para quem o tempo subjetivo não é linear, mas uma espiral onde passado e presente se entrelaçam. A espera pode ser um momento de redescoberta: memórias afloram, ideias se organizam, pensamentos que antes passavam despercebidos emergem. Na fila de espera, somos convidados a visitar a topografia do nosso próprio tempo interior.
3. O Tempo da Espera e a Ilusão do Futuro
Outro aspecto fascinante da espera é que ela desloca nossa consciência para um tempo futuro. Quando estamos na fila, não estamos plenamente no presente: projetamo-nos para o instante em que a espera terminará. O tempo da fila, portanto, é um tempo suspenso, um interregno onde vivemos apenas em antecipação.
Kierkegaard, em O Conceito de Angústia, adverte que a ansiedade nasce dessa projeção constante para o futuro. O homem moderno, ao viver sempre no “depois” — no próximo compromisso, no próximo entretenimento, na próxima realização — perde a capacidade de habitar plenamente o agora. A espera é, assim, um espelho da nossa incapacidade de estar no presente.
No entanto, e se aprendêssemos a viver a espera não como um tempo perdido, mas como um tempo pleno? E se, em vez de ansiarmos pelo instante em que a fila acabará, nos permitíssemos estar ali, atentos, presentes, conscientes? Esse seria o verdadeiro desafio filosófico da espera: transformá-la de um martírio em uma experiência autêntica.
4. A Espera Como Testemunha da Condição Humana
A fila de espera é um microcosmo da condição humana. Todos estão ali, lado a lado, presos ao mesmo destino inevitável. A fila é uma metáfora da finitude: assim como na vida, ninguém pode evitar a espera, ninguém pode furar a fila do tempo.
Camus, em O Mito de Sísifo, descreve o absurdo da existência humana como um eterno empurrar de pedras montanha acima, apenas para vê-las rolar de volta. A espera, nesse sentido, é a experiência do absurdo em sua forma mais trivial: sabemos que ela é inevitável, mas resistimos a aceitá-la.
No entanto, Sísifo se torna um herói quando abraça sua condição e encontra sentido no próprio ato de empurrar a pedra. Da mesma forma, a espera pode ser resignificação: não um tempo perdido, mas um tempo vivido.
Conclusão: O Que Fazer com o Tempo da Espera?
A fila de espera é um teste para nossa relação com o tempo e com nós mesmos. Podemos vivê-la como um desperdício angustiante, alimentando a impaciência e a frustração. Mas também podemos ressignificá-la como um espaço de consciência, um instante de suspensão que nos permite refletir sobre a própria natureza da temporalidade.
No fim, a espera nos ensina aquilo que tentamos evitar: que o tempo não nos pertence, que o controle é uma ilusão, que somos, essencialmente, seres lançados no fluxo inexorável da existência. E talvez, se aprendermos a esperar sem desespero, possamos descobrir que o verdadeiro tempo perdido não está na fila — mas na recusa de percebermos a riqueza que ela nos oferece.
May be art
All reactions:
48

William Blake

 THE sun descending in the west,

The evening star does shine;
The birds are silent in their nest.
And I must seek for mine.
The moon, like a flower
In heaven's high bower,
With silent delight
Sits and smiles on the night.
Farewell, green fields and happy grove,
Where flocks have took delight:
Where lambs have nibbled, silent move
The feet of angels bright;
Unseen they pour blessing
And joy without ceasing
On each bud and blossom,
And each sleeping bosom.
They look in every thoughtless nest
Where birds are cover'd warm;
They visit caves of every beast,
To keep them all from harm:
If they see any weeping
That should have been sleeping,
They pour sleep on their head,
And sit down by their bed.
When wolves and tigers howl for prey,
They pitying stand and weep,
Seeking to drive their thirst away
And keep them from the sheep.
But, if they rush dreadful,
The angels, most heedful,
Receive each mild spirit,
New worlds to inherit.
And there the lion's ruddy eyes
Shall flow with tears of gold:
And pitying the tender cries,
And walking round the fold:
Saying, 'Wrath, by His meekness,
And, by His health, sickness,
Are driven away
From our immortal day.
'And now beside thee, bleating lamb,
I can lie down and sleep,
Or think on Him who bore thy name,
Graze after thee, and weep.
For, wash'd in life's river,
My bright mane for ever
Shall shine like the gold
As I guard o'er the fold.'
By William Blake, Night
May be art of twilight
All reactions:
1K

“Estamos instalados na vida como se nós próprios não existíssemos, como se fôssemos o próprio mundo que existe, a própria realidade que é, a sua presença absoluta de estar sendo. E a simples reflexão de que é o mundo que depende de nós, de que a sua maravilha está suspensa, para nós, do nosso olhar, dá-nos vertigens. Que admira que uma pequena invenção técnica nos perturbe, nos abra a velha interrogação? Eis que depois de abarcarmos a terra, de a colocarmos na mão como a pequena bola de um deus poderoso, depois de nos confrontarmos nas nossas raças, nos nossos sonhos milenariamente solitários, depois de esgotarmos a nossa procura mútua, eis que acabamos de rasgar os espaços até lá de onde a nossa imaginação descobre o vazio que nos circunda, descobre, num arrepio, o nosso pobre globo perdido na poeirada dos astros, recorda, com uma nova evidência, a infinitude das distâncias que o unem ao universo.”
– Carta ao Futuro, 1966
Vergílio Ferreira nasceu #NesteDia, 28 de janeiro, no ano de 1916.
📷 Inácio Ludgero
May be an image of 1 person and text
All reactions:
116

 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Imigração, what else!

 

Sobre imigração

Qualquer antropólogo sabe que no encontro de culturas diferentes se revela o etnocentrismo, a tendência para os grupos humanos se considerarem mais “normais” do que os outros. Isto pode resultar em situações de violência xenofóbica e racista, como em muitas situações coloniais; em situações pluriculturais e com igualdade de oportunidades; ou, ainda, em misturas criadoras de culturas novas. Tudo depende de pesos e poderes relativos. Mas uma coisa é certa: o encontro não tem destino marcado à partida.

Qualquer antropólogo sabe, também, que a diferença cultural não é um determinismo nem a única variável a considerar. Classe social, status, género e sexualidade, religião ou língua intersetam a identidade cultural mais genérica, criando não só diferenças e desigualdades no seio de cada grupo, como na sua interação com a sociedade envolvente.

Nas imigrações existe, à partida, uma desigualdade estrutural entre a maioria cultural que recebe e as minorias culturais que são recebidas. Racionalmente, isto obrigaria a pelo menos dois reconhecimentos: um, pela maioria, de que a minoria é necessária (por exemplo, por razões económicas; ou por obrigação moral de acolhimento dos necessitados; ou pelo enriquecimento cultural que proporciona); e outro, pela minoria, de que é necessária alguma adaptação aos modos de vida da sociedade hospedeira. Isto é o que aconteceu e acontece em muitos contextos em que a imigração foi ou é fundamental para a própria constituição da sociedade.

No caso europeu, as coisas têm sido mais complicadas. Neste “Velho Mundo”, os Estados-nação constituíram-se na base do exclusivismo cultural, uma espécie de etnocentrismo institucionalizado. E promovido. Para mais, as históricas relações de desigualdade entre o que agora se chama o Norte e o Sul globais criaram estruturas de preconceito que, no extremo, levaram a fenómenos como o antissemitismo, a islamofobia ou o racismo antinegro — e também propiciaram fundamentalismos reativos.

No caso específico português, há, ainda, especificidades próprias que afetam a imigração e a sua receção. São as especificidades de um país caracterizado por ser o mais rico dos pobres e o mais pobre dos ricos. Destaco duas: o facto de o incremento da imigração ser recente e acelerado; e o facto de essa imigração se dar para um país que tem fortes desigualdades sociais, económicas e de capital cultural entre a população nativa.

Acrescente-se um fator comum ao mundo nas últimas décadas: as políticas neoliberais destruíram o conceito de sociedade e de bem comum, esgarçando as relações sociais e a rede do estado de bem-estar. E deixaram emergir, como alternativa às demandas sociais e económicas, as demandas identitárias. Os bodes expiatórios passaram a ser os imigrantes, as minorias étnicas e raciais, bem como as mulheres ou a população LGBT. As reivindicações nativistas — etnocêntricas e xenofóbicas — são parceiras de cama das reivindicações misóginas e homofóbicas, defendendo a “nação” como análoga à “família”. E são o pior identitarismo, porque excludente e não inclusivo.

Não foi, ao contrário da banalidade que anda a ser repetida, “a esquerda” que gerou esta revolta ao insistir nas políticas de igualdade, foi a aliança entre neoliberalismo económico e neoconservadorismo moral. Temos assistido em Portugal ao crescimento de uma extrema-direita identitária que estimula sentimentos anti-imigração; à cedência do centro-direita a essa agenda; e a uma culpabilização tanto da esquerda quanto da academia (em particular as ciências sociais) como avessa a equacionar “a questão da imigração” ou com tendência a edulcorá-la.

Quanto à academia, acontece que o grosso do conhecimento sobre migrações e sobre o encontro de grupos humanos diferentes resulta do conhecimento produzido pelas ciências sociais, junto com os movimentos sociais dos grupos diretamente afetados pelo etnocentrismo, a xenofobia e o racismo. Conhecimento esse que é descartado através de caricaturas simplistas ou categorias de acusação como “woke”.

Quanto à esquerda — e pensando na recente manifestação —, não se trata de uma disputa contra a polícia (precisamos de boa polícia, bem paga e defensora dos direitos, liberdades e garantias). Não se trata de um “amor” pelos imigrantes (não se ama coletivos e abstrações, sejam imigrantes ou nativos...). E tampouco o antirracismo é simétrico do racismo, pois são realidades de natureza diferente: o último é uma pecha, o primeiro, uma vontade de a curar, apelando aos princípios constitucionais e dos direitos humanos.

É errado pensar que os portugueses “à esquerda” fecham os olhos à “questão da imigração”. Não só são eles que saem à rua para dizer que a xenofobia e o racismo não são aceitáveis, como eles sabem que políticas há que defender. Trata-se de assegurar igualdade de oportunidades a nativos e imigrantes. Trata-se de diminuir a desigualdade socioeconómica que afeta ambos. Trata-se de garantir direitos de cidadania a ambos. Trata-se, também, de prestar atenção à desvantagem estrutural em que as minorias migrantes naturalmente se encontram. Só estas políticas de fundo podem garantir uma integração mútua.

O encontro de culturas diferentes não tem destino marcado à partida. Mas os arautos do neoliberalismo económico e do neoconservadorismo moral exploram o potencial etnocêntrico, para que a revolta não seja contra a desigualdade mas contra a diferença. Na vanguarda, a extrema-direita; na retaguarda, aproveitando a oportunidade, cada vez mais o “arco da governação”.

Antropólogo; professor catedrático, Iscte — IUL



E agora, que futuro para o Brexit?

 

Cinco anos de “Brexit”, cinco anos de crises no Reino Unido

Promessas brexiteers para a economia e imigração no pós-saída da UE ainda não se cumpriram. Governo trabalhista defende reaproximação aos 27, mas sem alienar eleitorado eurocéptico britânico

BEN STANSALL/REUTERS

“A coisa mais importante que se deve dizer hoje é que isto não é um fim, mas um início. [O ‘Brexit’] é um momento de verdadeira renovação e de mudança nacional. É o despertar de uma nova era, em que deixamos de aceitar que as oportunidades das vossas vidas e das vossas famílias possam depender da zona do país onde cresceram.” Estas foram as ideias fortes que o então primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, deixou aos britânicos, através de uma mensagem divulgada pelo seu Governo pouco antes das 23h do dia 31 de Janeiro de 2020, a hora oficial da saída do país da União Europeia, que cumpriu o resultado do referendo de 2016 (52% a favor do “Brexit”).

Pode ser difícil argumentar contra a ideia de que a consumação do “Brexit” foi, de facto, o início de algo; está, no entanto, por confirmar se, aos dias de hoje, a “nova era” proclamada por Johnson corresponde ao que o antigo governante conservador e outras figuras de proa do universo brexiteer prometeram aos eleitores. Cinco anos depois do divórcio com os 27, o PIB do Reino Unido encolheu; a imigração líquida aumentou; as exportações diminuíram; o preço dos bens alimentares disparou; contam-se pelos dedos de uma mão os tratados comerciais bilaterais (e nem sequer começaram as conversas para o prometido acordo de livre comércio com os EUA); e o Partido Conservador, que governava o país desde 2010 e que negociou e implementou o acordo do “Brexit”, já nem está no governo.

Pelo meio, houve uma pandemia mundial, uma guerra europeia e uma crise energética e inflacionária, que, para os “leavers” mais convictos, foram decisivas para transformar o “Brexit” num projecto adiado ou incompleto, e, por isso, passível de ainda ser um caso de sucesso.

Houve ainda uma crise política explosiva dentro dos tories, que tiveram três primeiros-ministros entre 2020 e 2024. Johnson caiu e afastouse da política por causa do escândalo das festas em Downing Street durante a pandemia, entre outros; Liz Truss teve a governação mais curta de sempre, depois de o seu plano económico ter atirado a libra para mínimos históricos; e Rishi Sunak foi derrotado nas urnas com um dos piores resultados de sempre.

Boris Johnson (em cima), do Partido Conservador, proclamou “nova era” a 31 de Janeiro de 2020. Cinco anos depois, é o trabalhista Keir Starmer (em baixo) que está no poder

Reino Unido poderá perder mais de 371 mil milhões de euros até 2035 por causa do “Brexit”

“Andámos a fazer anúncios sem termos planos adequados. Anunciámos que íamos sair da UE antes de termos um plano de crescimento fora da UE”, admitiu Kemi Badenoch, nova líder dos tories.

“Desastre histórico”

Durante a campanha para o referendo, os apoiantes da saída asseguraram que o “Brexit” iria permitir a injecção de “350 milhões de libras” por semana no sistema nacional de saúde britânico. Mas segundo um estudo publicado este mês pela Cambridge Econometrics, a saída da UE já custou cerca de 140 mil milhões de libras (mais de 167 mil milhões de euros) à economia do Reino Unido, que, a este ritmo, pode registar perdas na ordem dos 311 mil milhões de libras (371 mil milhões de euros) em meados da próxima década. Até 2035, diz o estudo, o país terá menos três milhões de postos de trabalho, menos 32% de investimento e menos 16% de importações do que teria se não tivesse abandonado a UE.

Nos termos do Acordo de Comércio e Cooperação UE-Reino Unido, em vigor desde o início de 2021, os britânicos abandonaram o mercado único e a união aduaneira europeia, o que implica a realização de controlos alfandegários à entrada e saída de produtos do país.

“Há um debate que podemos afirmar de forma segura que está encerrado: o ‘Brexit’ teve, e continua a ter, um impacto negativo na economia do Reino Unido”, decretam Anand Menon e Joël Reland, do think tank britânico UK in a Changing Europe. “É mais complicado e dispendioso comercializar com um bloco [a UE] que representa mais de metade de todas as nossas trocas comerciais. Isto reflecte-se no investimento e, talvez de forma mais notória, no comércio de mercadorias”, sublinham os investigadores, num artigo publicado no semanário The Observer.

Michael Heseltine, antigo vice-primeiro-ministro conservador, não tem dúvidas em descrever o “Brexit” como um “desastre histórico”. “Destruiu a liderança do Reino Unido na Europa, precisamente numa altura em que era extremamente necessária; acabou com as oportunidades para a geração mais jovem partilhar os benefícios da Europa; e negou à base industrial britânica o acesso à investigação e às políticas da Europa”, lamenta, citado pelo Independent.

No campo da política migratória, frases fortes como “retomar o controlo” das fronteiras também foram amplamente promovidas pelos “leavers”. Mas o fim da liberdade de circulação e a entrada em vigor das novas regras britânicas levaram a um aumento histórico do número de entradas de imigrantes no Reino Unido. Segundo os dados oficiais, só nos primeiros 12 meses de “Brexit”, a migração líquida subiu para 484 mil pessoas, o número mais alto da última década. Entre Junho de 2021 e Junho de 2024, pelo menos 3,6 milhões de imigrantes entraram no Reino Unido, fixando a migração líquida em 2,3 milhões.

Desde que o Governo de Keir Starmer entrou em funções, a imigração e a crise económica têm continuado no topo da agenda política e mediática, também por causa do crescimento do Reform UK, o partido populista de direita radical, herdeiro do Partido do Brexit, de Nigel Farage, que tem conseguido roubar tempo de antena ao Partido Conservador.

Uma das prioridades políticas do primeiro-ministro trabalhista tem sido a de levar a cabo um “reset” nas relações com a União Europeia e com os governos dos principais países europeus. Starmer tem, ainda assim, consciência do peso do eleitorado eurocéptico ou que ficou marcado pelo trauma do período pós-referendo, pelo que, tal como fez durante a campanha eleitoral, continua a tratar o “Brexit” ou o debate sobre um regresso à UE como temas tabu.

Para Jannike Wachowiak, investigadora do think tank belga European Policy Centre, as políticas do Governo britânico relacionadas com a UE, nomeadamente no campo económico, têm sido demasiado “vagas”: “É difícil evitar a impressão de que a política da UE é periférica para o Governo de Starmer”.