domingo, 16 de fevereiro de 2025

Como derrotar Trump - Ensaio na Relógio D'Água

 «Enquanto a maior parte dos outros líderes ocidentais cruzam os braços e cometem erros, Donald Trump reforça politicamente o seu poder arrogante. A única maneira de o travar é criar uma verdadeira nova ordem mundial.

As decisões impulsivas de Trump, como a sua recusa de aceitar a declaração do G7 aprovada no Quebec, não são simples expressão dos seus caprichos pessoais. São, pelo contrário, reação perante o fim de uma época do sistema económico global, reações que assentam numa compreensão inadequada do que está a acontecer. No entanto, a visão distorcida de Trump baseia-se apesar de tudo na intuição acertada de que o sistema global existente deixou de funcionar.»
Neste conjunto de artigos, Slavoj Žižek confirma a sua capacidade de abordar de modo original temas da atualidade.
É o caso da ação de Trump, do conceito de felicidade, da relação entre a sexualidade e do movimento liberal, dos direitos de robôs, dos problemas de identidade, do politicamente correto no Vaticano e até do casamento real britânico.
«Žižek é um pensador que considera que nada está fora do seu campo de reflexão: o resultado é profundamente interessante e provocador.» [The Guardian]
Como Derrotar Trump e Outros Ensaios (trad. Miguel Serras Pereira), editado pela Relógio D’Água em 2018, e outras obras de Slavoj Žižek estão disponíveis em https://relogiodagua.pt/autor/slavoj-zizek/
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De quê que eu não gosto, afinal?

 

Como não gostar de coisas: um manual de auto-ajuda

De vez em quando, um amigo distraído ou um parente tresmalhado recomenda-me um qualquer produto cultural (um filme, um livro, uma série televisiva), vocalizando a sugestão com um despropositadamente confiante “acho que vais gostar”. Isto não acontece com frequência, mas acontece mais vezes do que o desejável (que seria zero). Nunca encorajei, nem compreendo, estes comportamentos descompensados. Não me lembro de gostar de nada mais ou menos desde 2012, e o reduzido catálogo das coisas de que gosto foi quase totalmente formado entre os 16 e os 25 anos (a idade correcta para gostar de coisas). Desde então, a minha posição dominante sobre as coisas é não gostar delas.

Não gostar de coisas é um talento e, como qualquer talento, pode ser treinado e aperfeiçoado. Neste ponto, não é difícil imaginar a reacção de quem já está habituado a não gostar de coisas e, portanto, não gostou da frase anterior: responderá que não gostar de coisas é fácil, e qualquer idiota pode torcer o nariz perante um quadro ou suspirar o seu enfado ao longo de um filme. Mas não gostar de coisas não pode ser uma operação apenas reactiva — um reflexo, um acidente fisiológico — tal como não deve ser uma postura artificial, nem uma provocação, nem um alicerce identitário. Deve ser algo mais raro, e mais puro: uma prática refinada, metódica e consciente. Isto não é cinismo (que seria preguiçoso) nem niilismo (que seria adolescente), mas uma rigorosa disciplina metafísica. Eis algumas dicas.

Identifiquem a falha

Tudo, se examinado com atenção suficiente, tem um momento em que se atraiçoa. Um filme pode manter-se transpiradamente coeso durante 130 minutos até que um diálogo pedestre ou uma composição desleixada quebra o encanto. Um romance vai conter sempre palavras desnecessárias. Por que estão ali? O que nos dizem sobre as debilidades secretas do autor? Habituem-se a reconhecer estes momentos e a atribuir-lhes importância injusta e * desproporcional.

Cultivem o olhar impassível

É crucial reconhecer que gostar não é algo que fazemos, mas algo que nos é feito, uma invasão externa através de pontos fracos. O prazer começa na pupila. O olhar arregalado, a dilatação estúpida do deslumbramento — este é o rosto do submisso, ou do fanático já convertido. Num mundo desenhado para nos capturar a atenção, a primeira linha de defesa é a profilaxia do olhar desfocado, do cepticismo semiadormecido de quem já viu tudo antes, demasiadas vezes.

Militarizem o desconforto

Durante séculos, o ser humano acreditava que a verdade se adquiria com sofrimento. Os prisioneiros da caverna de Platão tiveram de ser arrastados aos gritos para a luz; os ascetas cristãos f agelavam-se para chegar ao Divino.

 O prazer floresce mais facilmente num corpo bem alimentado, descansado, relaxado. Desestabilizem essa paz. Sentem-se em cadeiras desconfortáveis. Mantenham o volume da música sempre demasiado alto ou demasiado baixo para ser realmente satisfatório. Privilegiem o que é áspero, amargo, assimétrico, ineficiente. Quando lerem o último romance “importante” ou “incontornável”, não o façam com a segurança da edição cuidada, do papel macio, do candeeiro bem posicionado; usem um ebook descarregado ilegalmente, lido num telemóvel com retroiluminação, até ficarem com os olhos secos e raiados de sangue, e sofrerem um terçolho semestral. E tenham sempre uma janela aberta e vestuário insuficiente: o frio mantém-nos vigilantes e irritadiços.

Inventem um inimigo imaginário

Um exercício útil: perante um novo objecto cultural, não perguntem “Eu gosto disto?”, mas antes “Quem são as pessoas que gostam disto, e quanto é que as desprezo?”

Tentem evocar visualmente os que desfrutam das coisas que detestamos: uma hidra plácida e gelatinosa, com milhares de queixos caídos.

Não me lembro de gostar de nada mais ou menos desde 2012, e o reduzido catálogo das coisas de que gosto foi quase totalmente formado entre os 16 e os 25 anos (a idade correcta para gostar de coisas). O gesto não deve procurar o desdém pessoal e individualizado, mas sim a criação de um adversário abstracto, uma heurística de oposição, um compósito de cada aficionado sorridente, cada consumidor incapaz de discriminar, cada turista cultural que só se exprime através de um gargarejar constante de imerecida gratidão.

Não ser do contra

É o erro mais comum entre os aspirantes a não gostar de coisas. O aprendiz acredita que lhe basta assumir a posição oposta à da maioria. As massas aplaudem? Ele apupa. Os críticos comovem-se? Ele troça. Isto é o equivalente ao cachorrinho que ladra agressivamente para o próprio eco. Quem é meramente do contra nunca é livre: permanece agrilhoado à mesma cultura do entusiasta militante. Se se limita a dizer o contrário, continua a seguir-lhe os passos, a combater sombras projectadas por prazeres alheios. Não gostar de coisas implica a recusa em participar nesta dialéctica grosseira. O erro parte da crença vulgar e pueril de que um consenso está simplesmente errado, e que, portanto, deve ser disputado e derrubado. A mente sofisticada não argumenta contra o consenso — prefere redescrevê-lo como um delírio, o lodo coalhado de coerções invisíveis, o produto acumulado de in inércia, fadiga, e pavor de estar sozinho. Do lado de fora dessa bolha, cultivamos uma espé espécie de sinestesia negativa, cuida cuidadosamente calibrada, uma inver inversão dos sentidos que conv converta o mundo num lugar em que t tudo o que é aclamado nos queim queima a língua, toda a harm harmonia louvada nos perfura os tímp tímpanos, toda a imagem vene venerada nos chega através do filtro vermelho do rancor. Não se trata de repulsa reaccionária, nem de rebeldia adolescente, mas de uma recusa tão total que rejeit rejeita até o prazer fácil da sua próp própria postura. O que se deve faze fazer ao consenso, portanto, nã não é contestá-lo, mas torná-lo i irrelevante, negando-lhe sequer a dignidade da argumentação. Aqueles que gostam do que não gostamos nunca devem sentir que fazem parte de um debate. Devem sentir-se no interior de uma sala vasta, mas silenciosa, cujas paredes se dissolvem em vapor, onde a gravidade deixou de funcionar, onde toda a arquitectura do seu prazer nunca chegou a existir.

Nunca dar justificações coerentes

Uma das manobras mais traiçoeiras dos que gostam de coisas é exigir explicações. “Porque é que não gostas disto?”, perguntam, como se a recusa em partilhar o seu deleite fosse um enigma para ser decifrado. Mas qualquer explicação é uma armadilha. Racionalizar uma aversão é reduzi-la a um estatuto condicional, algo que poderia, noutras circunstâncias, ser modificado ou corrigido. O impulso para organizar todas as preferências num sistema com lógica interna consistente é, em si mesmo, um sintoma da doença. Não há nada mais suspeito do que alguém que consegue explicar com precisão porque adora todas as coisas que adora e detesta todas as coisas que detesta. As teorias unificadas do gosto são para burocratas: as chefias intermédias do edifício cultural. Só eles acreditam numa correspondência perfeita entre os seus princípios, a sua sensibilidade e o seu sistema nervoso. Há que resistir a isto, e abraçar o caos e a contradição. Autorizem-se a não gostar de coisas pelas mesmas exactas razões que, no passado distante, vos levaram a gostar de outras. Deixem que as vossas aversões sejam guiadas por caprichos erráticos, repulsas irracionais, vendettas pessoais inconscientes. Nunca expliquem nada a ninguém. A opinião mais medíocre de todas é a que se esforça por encaixar numa tabuada de outras opiniões.

Este é o caminho certo. Interiorizem estes princípios, apliquem estes métodos, e experimentem viver assim durante uns meses. Garanto que não vão gostar, o que, se bem se lembram, é o objectivo. Será a primeira de muitas vitórias.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

William Shakespeare’s Macbeth

 William Shakespeare’s Macbeth is a dark, gripping tale of ambition, power, and the devastating consequences of unchecked desire. From its eerie opening scenes to its bloody climax, the play immerses audiences in a world of moral decay and psychological turmoil, leaving an indelible mark on anyone who experiences it. At its heart, Macbeth is a cautionary tale about the corrupting nature of ambition and the lengths to which people will go to achieve their goals—only to find that the price of their actions is far greater than they ever imagined.

The story begins with Macbeth, a loyal and valiant Scottish general, who encounters three witches after a victorious battle. They prophesy that he will become the Thane of Cawdor and, eventually, the King of Scotland. This prophecy ignites a spark of ambition in Macbeth, but it is his wife, Lady Macbeth, who fans the flames. Her relentless determination and manipulation push Macbeth to murder King Duncan and seize the throne. What follows is a harrowing descent into guilt, paranoia, and madness as Macbeth and Lady Macbeth struggle to hold onto their ill-gotten power.
What makes Macbeth so compelling is its exploration of the human psyche. Macbeth is not a villain in the traditional sense; he is a man torn between his ambition and his conscience. His internal struggle is palpable, especially in the moments leading up to Duncan’s murder, where he wrestles with the moral implications of his actions. Yet, once he crosses that line, there is no turning back. The play masterfully portrays how one act of violence begets another, spiraling into a cycle of bloodshed and betrayal. Macbeth’s transformation from a noble warrior to a tyrannical ruler is both tragic and terrifying, a stark reminder of how power can corrupt even the most honorable individuals.
Lady Macbeth is equally fascinating, serving as both a catalyst for Macbeth’s actions and a mirror to his descent. Her famous soliloquy, in which she calls on spirits to “unsex” her and fill her with cruelty, reveals her own ambition and ruthlessness. Yet, as the play progresses, her steely resolve crumbles under the weight of guilt, culminating in her haunting sleepwalking scene. Her unraveling is a poignant reminder that no one is immune to the consequences of their actions.
Shakespeare’s language in Macbeth is nothing short of mesmerizing. The play is filled with vivid imagery—blood, darkness, and supernatural elements—that create an atmosphere of foreboding and tension. Lines like “Out, damned spot!” and “Life’s but a walking shadow” have become iconic, capturing the play’s themes of guilt, fate, and the futility of human ambition.
Ultimately, Macbeth is a timeless exploration of the human condition. It forces us to confront uncomfortable truths about ambition, morality, and the consequences of our choices. Its characters are complex, its themes universal, and its impact enduring. Whether you’re drawn to its psychological depth, its dramatic tension, or its poetic brilliance, Macbeth is a play that will stay with you long after the final act. It is a masterpiece that continues to captivate and haunt audiences, proving that Shakespeare’s insights into human nature are as relevant today as they were over four centuries ago.
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Beowulf

 Beowulf, the epic Old English poem, is a timeless tale of heroism, bravery, and the eternal struggle between good and evil. Composed over a thousand years ago, it remains one of the most enduring works of literature, capturing the imagination of readers with its vivid imagery, larger-than-life characters, and profound themes. At its core, Beowulf is a story about the triumph of courage over fear, the fleeting nature of life, and the legacy we leave behind.

The poem follows the adventures of Beowulf, a Geatish warrior of immense strength and honor, who travels to Denmark to aid King Hrothgar. Hrothgar’s mead hall, Heorot, is under siege by Grendel, a monstrous creature who terrorizes the Danes. Beowulf’s battle with Grendel is a gripping clash of brute force and cunning, showcasing the hero’s unwavering resolve. But the poem does not stop there; it delves deeper into Beowulf’s character as he faces Grendel’s vengeful mother and, decades later, a fiery dragon in his homeland. Each battle represents not only a physical challenge but also a moral one, as Beowulf confronts the darker aspects of human existence—fear, mortality, and the inevitability of death.
What makes Beowulf so captivating is its rich tapestry of themes and emotions. It is a celebration of heroism, yet it does not shy away from the complexities of leadership and the burdens of power. Beowulf is not just a warrior; he is a leader who must grapple with the responsibilities of protecting his people. His final battle with the dragon, though it ends in his death, is a poignant reminder of the sacrifices demanded by greatness. The poem’s elegiac tone underscores the transient nature of glory, as Beowulf’s legacy is both celebrated and mourned.
The language of Beowulf is another source of its beauty. The poem’s alliterative verse and vivid descriptions create a sense of grandeur and immediacy, drawing readers into its world of mead halls, misty moors, and mythical creatures. Lines like “Fate will unwind as it must!” echo with a sense of inevitability, reminding us of the inescapable forces that shape our lives.
Ultimately, Beowulf is more than just an epic; it is a meditation on what it means to be human. It speaks to our deepest fears and highest aspirations, reminding us that true heroism lies not in invincibility but in the courage to face life’s challenges with honor and integrity. Its timeless appeal lies in its ability to resonate across centuries, offering wisdom and inspiration to all who encounter it.
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