Muito real essa ideia de que a gente amadurece pelos tombos que leva na vida, e não só pelo passar dos anos. A dor tem um papel fundamental no processo de crescimento. Não porque sofrer seja bonito ou necessário o tempo todo, mas porque é nos momentos difíceis que somos obrigados a olhar pra dentro de verdade.
sexta-feira, 11 de julho de 2025
A gente amadurece pelos tombos que leva na vida
quinta-feira, 10 de julho de 2025
As vantagens do surf!
Aprender o mar
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
É muito boa ideia inscrever filhas e filhos em aulas de surf. Vou só falar das vantagens que nada têm que ver com os prazeres do surf. Falo com conhecimento de causa. Há anos que almoçamos na praia, observando os miúdos no areal, quando chegam do mar, falando uns com os outros.
Em primeiro lugar, não há melhor maneira de conhecer os perigos do mar: vencendo, sim, os medos que não fazem sentido, mas trocando-os por medos reais, daqueles que ajudam a salvar a vida.
Não é tomando banho com os pais e com os amigos na zona da rebentação que se conhece o mar. É flutuando numa prancha, no meio de outras crianças a fazer a mesma coisa, falando calmamente, esperando por uma onda jeitosa. Os surfistas que dão aulas conhecem o mar melhor até do que os nadadores-salvadores — e, sobretudo, o mar numa determinada praia, ao longo do ano
— e estão habituados a ensinar a ler o mar.
Outra coisa que os alunos de surf fazem é passar muito tempo no areal, conversando uns com os outros ou simplesmente descansando. Não há telemóveis nem parecem fazer falta. Sente-se o tempo a passar — aquela calma de praia, que é um tédio conspirativo, e que pensávamos ter desaparecido quando as pessoas deixaram de passar os dias inteiros na praia.
Vê-se que as crianças estão cansadas: o mar cansa muito. Sabe-lhes bem estar esticadas na areia, sem nada para fazer.
Depois almoçam lentamente, como se estivessem numa paisagem do Malhoa, fazendo durar cada sanduíche, porque a fome é uma convidada fugidia. É impossível encontrar nestas crianças o século XXI ou o século XX: estão para além do tempo. Se calhar, estão aborrecidas. Mas não será o aborrecimento uma bênção nos dias de hoje, obrigando-nos a tirar partido do convívio humano e da observação da paisagem, que numa praia tem muito de escondido?
O surf é maravilhoso, mas também é maravilhoso pelo mergulho na natureza, nas forças que existem sem nós, sem fios, sem nos ligar patavina, fora do tempo
— e das nossas vidas.
sábado, 5 de julho de 2025
"O homem que imprimiu o futuro..."
"O homem que imprimiu o futuro..."
A vida é uma dádiva de Deus e, por conseguinte, cada minuto é sagrado...
Arranjar coragem
- Público - Edição Lisboa
- Miguel Esteves Cardoso
No pesadelo recorrente que me põe diante São Pedro, enquanto este faz as contas para ver se me deixa entrar no Paraíso, não são os meus pecados que se contabilizam, mas os tempos que perdi. “Sabe”, diz Pedro com o dedo a percorrer uma lista onde constam todos os meus desperdícios horários, “A vida é uma dádiva de Deus e, por conseguinte, cada minuto é sagrado...”. “Eu sei, eu sei...”, digo eu, atrapalhado, “mas não me diga que perder tempo também não é um prazer divino...”.
“Sim, sim”, diz Pedro, zangado com os totais que vai encontrando, “mas o mais importante são as alegrias da vida que lhe passaram completamente ao lado...”.
A certa altura, Pedro deixa mesmo cair a lista e grita: “Mas o que é isto?” Tremo: “É o onanismo?”E ele: “Não, claro que não: o onanismo é importante para o desenvolvimento da sexualidade.”
“É isto!”, diz ele a apontar para uma rubrica que regista 83 mil horas e 45 minutos de vida. É a rubrica “Arranjar coragem”.
“Ó homem de Deus!”, diz Pedro, “mas em quantas guerras santas teve de participar, para ser preciso arranjar tanta coragem?”.
Como poderei defender-me? Eis as linhas gerais do que proponho dizer:
Arranjar coragem é uma ponte — uma ponte que custa muito a construir, para juntar duas margens que se repelem. De um lado, está a preguiça. E do outro, separada por um rio desgovernado, está a actividade odiada.
É por isso que leva tanto tempo a arranjar coragem. Não é de um momento para o outro que nos despedimos do quentinho de não fazer nada. É preciso jeitinho. O não fazer nada é muito sensível. É inseguro. Tem terror de ser abandonado. Não vai com “até jás”.
É preciso lentidão — e um grande cuidado para não ferir susceptibilidades.
Às vezes, para arranjar coragem para uma actividade que leva cinco minutos, é preciso uma hora. É uma hora de paciente mentalização perante a tarefa ameaçada. Para não falar na preparação psicológica para o sofrimento iminente.
Ganhar coragem é perder conforto. Custa porque é desumano.
Afirmar-se enquanto ser autêntico exige um ato de bravura rara, a coragem de não agradar.
Numa era marcada pela diplomacia superficial e pela estética da aceitação, afirmar-se enquanto ser autêntico exige um ato de bravura rara, a coragem de não agradar. Num mundo onde o valor do indivíduo parece estar diretamente vinculado à sua capacidade de ser palatável aos outros, tornar-se desagradavelmente verdadeiro é quase uma heresia existencial. E, no entanto, é justamente esse gesto que revela a fibra mais nobre da alma, a fidelidade a si mesmo.
The Bridges of Madison County (1995)
The Bridges of Madison County (1995)
LUÍS JARDIM, Que posso escrever ?? Quase tudo e quase nada…
LUÍS JARDIM, Que posso escrever ?? Quase tudo e quase nada…