Às vezes, não nos apaixonamos pela pessoa. Apaixonamo-nos por aquilo que imaginámos que ela era.
Há uma coisa curiosa no amor: não projetamos apenas nos outros aquilo que somos. Muitas vezes, projetamos neles aquilo que gostaríamos que fossem.
Vemos um gesto de carinho e imaginamos cuidado.
Uma mensagem e imaginamos interesse.
Um momento de proximidade e imaginamos cumplicidade.
Uma promessa e imaginamos compromisso.
E, pouco a pouco, vamos preenchendo os espaços vazios com aquilo que o nosso coração deseja encontrar.
Sem perceber, começamos a conhecer não a pessoa que está diante de nós, mas a pessoa que gostaríamos que ela fosse.
E é aqui que nasce uma das maiores ilusões do amor: a romantização.
Romantizamos comportamentos que talvez devessem ser questionados. Damos significado a silêncios, justificamos ausências, encontramos explicações para incoerências e transformamos pequenas migalhas de atenção em grandes provas de amor.
Não porque sejamos ingénuos, mas porque quando desejamos muito que alguma coisa seja verdadeira, tornamo-nos especialistas em encontrar razões para acreditar nela.
E talvez seja essa a parte mais dolorosa: por vezes, não fomos enganados por ninguém. Fomos nós que, sem perceber, construímos uma realidade paralela onde a pessoa correspondia exatamente àquilo que precisávamos que ela fosse.
Apaixonámo-nos pela versão que criámos.
E quando a realidade finalmente começa a contrariar a fantasia, custa aceitar. Porque não estamos apenas a perder uma pessoa. Estamos a perder também a história que construímos sobre ela.
Por isso, conhecer verdadeiramente alguém exige uma coisa difícil: olhar para essa pessoa sem acrescentar aquilo que gostaríamos de encontrar.
Ver o que ela faz, e não apenas o que diz.
Observar como nos trata, e não apenas como nos faz sentir.
Aceitar aquilo que ela demonstra, mesmo quando não corresponde àquilo que desejávamos.
Porque amar alguém não deveria significar transformar a realidade para que ela caiba no nosso sonho.
Às vezes, o que chamamos de amor é apenas a nossa esperança a trabalhar horas extraordinárias.
E talvez seja por isso que este texto do Bruno Fernandes seja tão certeiro.
Porque, no fim, há duas ilusões possíveis: alguém pode estar a vender-nos uma versão de si próprio… e nós podemos estar a comprar essa versão porque é exatamente aquilo que queríamos acreditar.
Bruno Fernandes
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