sábado, 19 de setembro de 2026

Não devemos adiar a nossa vida, porque ela pode acabar de repente!

 O AMANHÃ É O HOJE ADIADO

O amanhã é o lugar para onde enviamos tudo aquilo que não tivemos coragem de viver hoje.
Depositamos nele as palavras que não dissemos, os abraços que economizamos, as decisões que o medo interrompeu e os sonhos que julgamos ainda não merecer. Transformamos o futuro numa espécie de armazém da existência, como se o tempo pudesse conservar intacto aquilo que a nossa hesitação abandona.
Amanhã, diremos.
Amanhã, iremos.
Amanhã, começaremos.
Amanhã, finalmente, seremos.
E assim, enquanto pronunciamos essa palavra tão cheia de promessas, retiramo-nos silenciosamente do único instante em que a vida realmente acontece. O corpo permanece no presente, mas a consciência já partiu. Continuamos respirando, trabalhando, atravessando ruas, respondendo perguntas, porém alguma parte essencial de nós se ausentou por antecedência.
Há uma forma discreta de morrer que não exige o fim do coração. Basta deixar de habitar os próprios dias.
Muitos de nós não perdemos a vida de uma só vez. Perdemos aos poucos, em pequenas concessões feitas à espera. Um afeto não declarado, uma viagem sempre remarcada, um pedido de perdão suspenso, um livro que jamais começamos, uma mudança que adiamos até que a permanência se torne destino. Cada adiamento parece insignificante quando considerado isoladamente, mas, reunidos, eles compõem a arquitetura inteira de uma existência não vivida.
O amanhã possui uma beleza perigosa. Como nunca chegou, ainda não foi ferido pela realidade. Nele, tudo permanece possível. Somos mais corajosos, mais livres, mais generosos. No futuro, teremos tempo, disposição, serenidade e certeza. No futuro, saberemos exatamente o que fazer com a vida.
Talvez seja por isso que amamos tanto o amanhã, ele jamais nos contradiz.
O hoje, ao contrário, é imperfeito. Chega desalinhado, trazendo cansaço, medo, obrigações e dúvidas. Não nos oferece as condições ideais, apenas a matéria bruta do possível. Exige que escolhamos sem garantias, que amemos sem conhecer o desfecho, que partamos sem possuir um mapa completo. O presente não promete segurança. Promete somente presença.
E talvez seja isso o que mais nos assusta.
Estar verdadeiramente presente significa não poder atribuir a outro tempo a responsabilidade por aquilo que somos. Significa reconhecer que a vida não está nos esperando em algum ponto distante da estrada. Ela está acontecendo enquanto hesitamos. Está passando enquanto preparamos uma versão futura de nós mesmos para vivê-la.
Há pessoas que aguardam durante anos a ocasião perfeita para serem felizes. Não percebem que a perfeição da ocasião é uma invenção criada pelo medo para permanecer imóvel. A vida não chega quando tudo estiver resolvido. Ela chega incompleta, desordenada, às vezes dolorosa, e pede que a acolhamos assim mesmo.
O amanhã não é um novo território. É apenas o hoje que atravessou a noite.
Se levamos para ele os mesmos temores, as mesmas desculpas e a mesma recusa de existir, nada verdadeiramente começa. Muda-se a data no calendário, mas a alma permanece sentada no mesmo lugar. O tempo avança, nós é que nem sempre avançamos com ele.
Existe, portanto, uma diferença profunda entre esperar e adiar. Esperar pode ser um gesto de sabedoria. Há frutos que não amadurecem sob a violência da pressa. Adiar, contudo, é muitas vezes a arte de oferecer ao futuro aquilo que nossa coragem se recusou a entregar ao presente.
Enquanto esperamos o momento certo, talvez seja o momento que esteja esperando por nós.
Um dia descobrimos que muitos dos nossos amanhãs já se tornaram ontens. As pessoas a quem pretendíamos dizer alguma coisa já não podem ouvir. Os lugares que desejávamos visitar já não existem como antes. O corpo que imaginávamos sempre disponível começa a impor suas fronteiras. Algumas portas, cansadas de permanecer abertas, finalmente se fecham.
Então compreendemos, tarde demais, que o tempo não nos roubou tudo. Algumas coisas fomos nós que deixamos de receber.
A tragédia do adiamento não está apenas na perda das oportunidades, mas na lenta transformação daquele que espera. Cada gesto não realizado modifica silenciosamente quem poderíamos ter sido. Toda escolha recusada também nos escolhe. O caminho que não percorremos continua existindo dentro de nós, não como estrada, mas como ausência.
Talvez os arrependimentos sejam justamente isso, fantasmas das vidas que abandonamos antes que pudessem nascer.
Viver o hoje não significa agir impulsivamente, como se não houvesse consequências ou futuro. Significa apenas não utilizar o futuro como esconderijo. Significa compreender que o amanhã deve ser preparado, mas não habitado antes de chegar. Podemos plantar para ele, sonhar com ele e construir em sua direção, sem abandonar o chão sobre o qual os nossos pés agora repousam.
Porque a vida não nos pede heroísmo em todos os instantes. Às vezes, pede apenas uma pequena fidelidade ao presente. Fazer a ligação. Pronunciar a verdade. Começar a primeira página. Sentar-se ao lado de quem amamos. Olhar demoradamente o céu. Permitir que um momento seja suficiente sem obrigá-lo a tornar-se memória antes mesmo de terminar.
Talvez a existência não seja a soma dos grandes acontecimentos, mas a maneira como permanecemos dentro dos pequenos. Talvez a felicidade não esteja guardada no futuro, mas espalhada em fragmentos tão discretos pelo presente que somente uma alma verdadeiramente atenta consegue recolhê-los.
O amanhã continuará sendo necessário. Precisamos dele para que a esperança possua uma janela. Mas não podemos fazer dessa janela uma porta de fuga. Quem vive sempre inclinado sobre o futuro acaba contemplando a própria vida à distância.
E nenhuma existência deveria ser apenas observada.
É preciso habitá-la.
Hoje.
Mesmo sem certeza. Mesmo sem perfeição. Mesmo com medo.
Porque o amanhã é o hoje adiado, e toda vez que entregamos a ele aquilo que poderíamos viver agora, ausentamo-nos por antecedência do único lugar em que ainda estamos vivos.
Oliver Harden

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"Unrequited love" - a romantização de uma relação - quem nunca passou por isso, atire a primeira pedra!

 


Às vezes, não nos apaixonamos pela pessoa. Apaixonamo-nos por aquilo que imaginámos que ela era.

Há uma coisa curiosa no amor: não projetamos apenas nos outros aquilo que somos. Muitas vezes, projetamos neles aquilo que gostaríamos que fossem.
Vemos um gesto de carinho e imaginamos cuidado.
Uma mensagem e imaginamos interesse.
Um momento de proximidade e imaginamos cumplicidade.
Uma promessa e imaginamos compromisso.
E, pouco a pouco, vamos preenchendo os espaços vazios com aquilo que o nosso coração deseja encontrar.
Sem perceber, começamos a conhecer não a pessoa que está diante de nós, mas a pessoa que gostaríamos que ela fosse.
E é aqui que nasce uma das maiores ilusões do amor: a romantização.
Romantizamos comportamentos que talvez devessem ser questionados. Damos significado a silêncios, justificamos ausências, encontramos explicações para incoerências e transformamos pequenas migalhas de atenção em grandes provas de amor.
Não porque sejamos ingénuos, mas porque quando desejamos muito que alguma coisa seja verdadeira, tornamo-nos especialistas em encontrar razões para acreditar nela.
E talvez seja essa a parte mais dolorosa: por vezes, não fomos enganados por ninguém. Fomos nós que, sem perceber, construímos uma realidade paralela onde a pessoa correspondia exatamente àquilo que precisávamos que ela fosse.
Apaixonámo-nos pela versão que criámos.
E quando a realidade finalmente começa a contrariar a fantasia, custa aceitar. Porque não estamos apenas a perder uma pessoa. Estamos a perder também a história que construímos sobre ela.
Por isso, conhecer verdadeiramente alguém exige uma coisa difícil: olhar para essa pessoa sem acrescentar aquilo que gostaríamos de encontrar.
Ver o que ela faz, e não apenas o que diz.
Observar como nos trata, e não apenas como nos faz sentir.
Aceitar aquilo que ela demonstra, mesmo quando não corresponde àquilo que desejávamos.
Porque amar alguém não deveria significar transformar a realidade para que ela caiba no nosso sonho.
Às vezes, o que chamamos de amor é apenas a nossa esperança a trabalhar horas extraordinárias.
E talvez seja por isso que este texto do Bruno Fernandes seja tão certeiro.

Porque, no fim, há duas ilusões possíveis: alguém pode estar a vender-nos uma versão de si próprio… e nós podemos estar a comprar essa versão porque é exatamente aquilo que queríamos acreditar.

Bruno Fernandes

domingo, 23 de agosto de 2026

Semana de 16 a 23 de agosto de 2026 - melhores sons da semana!

 

Semana de 16 a 23 de agosto de 2026

A partir de hoje, e com alguma periodicidade, escreverei um pequeno artigo sobre os grupos musicais que mais me chamaram à atenção, e que valem a pena, ouvir um pouco sobre cada um dos seus projetos. Darei alguma informação sobre cada grupo / artista e colocarei, sempre, uma faixa de introdução; o nome do artista/ grupo; o álbum que está para estrear, e respetiva data, ou, que já está nas plataformas de streaming.

Esta semana a minha escolha recai sobre os seguintes artista / grupo:

Arab Strap; Venus Grrrls; Fontaines D. C.; Westside Cowboy; Swapmeet; Wishy; Beck; Sweeping Promises; Deceits; Phoebe Bridgers; Getdown Services, Fawlers e Gurriers.

1.    Os Arab Strap são uma influente banda escocesa de indie rock e música alternativa fundada em 1995 pelo vocalista Aidan Moffat e pelo guitarrista Malcolm Middleton. A banda tornou-se um marco do cenário independente ao misturar guitarras atmosféricas com batidas eletrónicas de club, elementos de folk e pós-rock. São mundialmente conhecidos pela voz de barítono sussurrada e laconismo falado de Moffat, que narra letras cruas, explícitas e de uma honestidade brutal sobre relações problemáticas, sexo, noites de excessos e a melancolia do quotidiano.

Be a Man – Arab Strap – Half- told Tales – 4 de setembro 2026.

2.    As Venus Grrrls são uma banda de rock alternativo originária de Leeds e Newcastle, no norte de Inglaterra. O grupo descreve-se frequentemente como um "clã" (coven) de goth-grunge, combinando uma forte atitude feminista com sonoridades sombrias e místicas.

Mother knows – Venus Grrrls – To die as Lovers May – 16 de outubro 2026.

3.    Os Fontaines D.C. são uma das bandas mais aclamadas do rock alternativo e pós-punk contemporâneo, formada em Dublin, Irlanda, em 2017. O grupo ganhou enorme destaque internacional pela sua energia crua, sonoridade intensa e letras profundas influenciadas pela poesia.

Marianne – Fontaines D. C. Dopamine Chamber – 16 de outubro de 2026

4.    Os Westside Cowboy são uma banda britânica de rock alternativo formada em Manchester em 2023. O grupo destaca-se pela sua sonoridade única que mistura indie rock, folk e um estilo próprio batizado de "Britainicana", sendo conhecidos pelas suas harmonias vocais dinâmicas, uma vez que todos os elementos cantam.

Pin-up boys – Westside Cowboy – It goes on – 21 de setembro 2026

5.    os Swapmeet são uma banda de indie rock e slowcore formada em Adelaide, Austrália, em 2022. O grupo ganhou grande destaque internacional com o lançamento do seu álbum de estreia, Mount Zero, lançado pela editora norte-americana Winspear.

  • Membros: Venus O'Broin (vocalista principal e guitarra), Jack Medlyn (guitarra/bateria), Maxwell Elphick (guitarra/bateria) e Joshua Doherty (baixo).
  • Estilo musical: A sonoridade combina melodias calmas de slowcore com explosões distorcidas de shoegaze e rock alternativo dos anos 90.

 

Bonny – Swapmeet – Mount Zero – já disponível

 

6.    Os Wishy é um dos nomes mais empolgantes do indie rock atual, misturando shoegaze, emo e dream pop 🎸 É isso o que fala a imprensa especializada sobre a discografia curta, mas envolvente da banda de Indianapolis, nos EUA.

 

Sensational – Wishy – Natur’s Pill – 2 de outubro de 2026

 

Beck (Beck Hansen) – O Artista Solo

Na maioria das vezes, quando as pessoas falam de "Beck" hoje em dia, referem-se a Beck Hansen (nascido Bek David Campbell). Ele não é um grupo, mas sim um cantor, compositor e multi-instrumentista norte-americano muito famoso.

  1. Estilo: É conhecido como o "camaleão" do rock alternativo. Ele mistura tudo na mesma canção: pop, rock, hip-hop, folk, blues e música eletrónica.

       Sucessos: Ficou mundialmente conhecido em 1994 com o superêxito "Loser" e       com o aclamado álbum Odelay (de onde saiu a música "Where It's At").

 

Disappering Act – Beck – Ride Lonesome – 18 de setembro 2026

 

8.    Os Sweeping Promises são um duo norte-americano de música pós-punk e new wave, formado por Lira Mondal (vocalista e baixista) e Caufield Schnug (guitarrista e produtor)

A banda segue uma filosofia totalmente independente (do-it-yourself), gravando e produzindo a sua própria música num estúdio caseiro. O som do grupo destaca-se por linhas de baixo enérgicas, estética lo-fi e vocais intensos.

Abduction on Camera – Sweeping Promises – You say I romanticize – já disponível.

9.    Os DECEITS é uma banda independente de post-punk e goth/darkwave baseada em Los Angeles, Califórnia. Formado no final de 2021, o grupo destaca-se na cena underground alternativa pelas suas melodias melancólicas combinadas com performances ao vivo enérgicas. O projeto rejeita a sonoridade fria e monótona tradicional do género, autointitulando a sua música como "passionate post-punk" (post-punk apaixonado).

One day you’ll hurt as much as me – Deceits – ainda não há data disponível para o álbum.

10.  Phoebe Bridgers é uma cantora, compositora e produtora norte-americana nascida em Pasadena, Califórnia, em 1994. Ela é uma das vozes mais aclamadas da música indie contemporânea, conhecida pelas suas letras profundas e melancólicas, e pelo icónico traje de esqueleto que usa frequentemente em concertos.

As above – Phoebe Bridgers – Lost Weekend – já disponível.

11.  Os Gurriers são uma banda irlandesa de post-punk e noise rock formada em Dublin. O grupo ganhou grande destaque na vibrante cena alternativa da Irlanda (ao lado de nomes como Fontaines D.C. e Gilla Band) devido à sua sonoridade intensa, crua e aos concertos ao vivo altamente enérgicos e catárticos.

Nothing happens twice – Gurriers – Nobody’s coming to save you – 25 setembro 26

sábado, 22 de agosto de 2026

Oliver Harden - O VAZIO ENCANTADOR

 O VAZIO ENCANTADOR

Há dias em que olho para as pessoas e tenho a impressão de que todas carregam um espelho voltado para dentro, mas não para se conhecerem. Olham para si apenas para confirmar que ainda estão ali. E estar ali, para elas, parece bastar.

Talvez eu também faça isso.
É difícil confessar que, às vezes, não procuro uma verdade dentro de mim. Procuro apenas alguma coisa que faça barulho. Qualquer pensamento serve, desde que me impeça de escutar aquele silêncio que começa depois de tudo o que digo sobre mim. Porque existe um ponto em que meu nome termina. Existe uma região em que minhas lembranças já não me explicam, minhas preferências não me definem e minhas palavras não conseguem chegar.
É ali que começo a sentir medo.
Não medo de estar vazio, mas de descobrir que o vazio talvez seja a parte mais sincera de mim.
Vivemos cercados por pessoas encantadas consigo mesmas. Não necessariamente porque se amem. Talvez porque não suportem afastar os olhos da própria imagem. Há uma fascinação que se parece com amor, mas é apenas vigilância. A pessoa observa a si mesma para não desaparecer. Conta suas dores, exibe suas alegrias, organiza os próprios gestos como quem arruma uma vitrine e, depois, permanece diante dela esperando que alguém confirme que há vida lá dentro.
E talvez haja.
Mas há também uma espécie de ausência cuidadosamente iluminada.
Vejo rostos que aprenderam a sorrir antes de sentirem alegria. Vejo palavras que chegam antes do pensamento. Vejo pessoas que já sabem o que devem parecer enquanto ainda não descobriram o que são. Tudo nelas está pronto para ser mostrado, mas quase nada está preparado para ser vivido.
Isso me perturba porque reconheço nelas alguma coisa minha.
Também já escolhi palavras bonitas para esconder uma pobreza de sentimento. Também já falei muito porque não tinha o que dizer. Também já transformei uma dor em narrativa antes de permitir que ela me ferisse por inteiro. Quis explicar o que sentia para não precisar sentir aquilo que não conseguia explicar.
Talvez a linguagem seja, algumas vezes, a maneira mais elegante de fugir.
Mas o silêncio também pode mentir.
Há quem se cale não por profundidade, mas porque nada encontrou dentro de si. Há silêncios cheios, como uma casa na qual alguém respira atrás da porta. E há silêncios abandonados, nos quais até o eco parece ter partido. Nem toda pessoa misteriosa guarda um universo. Algumas apenas aprenderam a fechar as janelas para que ninguém perceba que os quartos estão vazios.
No entanto, quem poderia julgá-las?
Todos nós decoramos nossos vazios.
Alguns colocam neles livros, outros colocam viagens, opiniões, crenças, títulos, amores, fotografias, aplausos. Cada um escolhe os móveis com que pretende tornar habitável a própria ausência. Depois convidamos os outros a entrar e esperamos que eles admirem a decoração sem perguntar o que existe atrás das paredes.
Talvez seja isso que chamamos de personalidade, o modo particular como cada pessoa organiza aquilo que lhe falta.
Penso nisso e sinto uma espécie de vertigem. Se retirassem de mim tudo o que aprendi a mostrar, o que restaria? Se arrancassem meu nome, minha história, minhas convicções, meus gostos, minhas mágoas e até as pessoas que amo, quem encontrariam?
Talvez ninguém.
E esse ninguém seria eu.
A ideia deveria me apavorar, mas há nela uma estranha libertação. Porque talvez eu não precise estar completamente preenchido. Talvez essa exigência de possuir uma essência sólida seja apenas mais uma crueldade que inventamos contra nós mesmos. Queremos ser alguma coisa definitiva porque nos assusta viver como pergunta. Queremos dizer “eu sou” quando, na verdade, estamos sempre começando a ser.
O vazio não é necessariamente a falta de uma identidade. Pode ser o espaço onde uma identidade ainda respira sem se transformar em prisão.
Mas existe outro vazio, mais triste. É aquele que sentimos diante dos outros.
Converso com alguém e, de repente, percebo que nenhuma palavra alcança realmente a pessoa que está diante de mim. Ela me responde, sorri, talvez toque minha mão, mas permanece inacessível. Há nela um quarto ao qual jamais serei convidado. Posso conhecer seus hábitos, seus medos, a maneira como dorme e aquilo que costuma pedir quando está triste. Posso reconhecer o som de seus passos. Mesmo assim, haverá nela alguma coisa que morrerá sem ter sido conhecida por ninguém.
Talvez amar seja aceitar essa impossibilidade.
Amamos alguém que nunca conheceremos por inteiro. Abraçamos uma criatura cercada por portas. E, ainda assim, aproximamo-nos. Não porque possamos preencher o vazio do outro, mas porque, durante alguns instantes, conseguimos sentar-nos ao lado dele.
Há uma ternura terrível nisso.
Ninguém salva ninguém da solidão fundamental de existir. Podemos acompanhar, tocar, cuidar, escutar. Podemos acender uma pequena luz no corredor. Mas cada pessoa continuará tendo de entrar sozinha em certas regiões de si mesma. Há dores que não aceitam testemunhas. Há perguntas que se desfazem quando tentamos pronunciá-las. Há noites interiores nas quais nenhum amor consegue amanhecer por nós.
Talvez por isso as pessoas se exibam tanto. Mostrar-se é uma tentativa desesperada de ser alcançado. Cada fotografia parece dizer: estou aqui. Cada opinião grita: percebam que penso. Cada confissão pede: entrem em mim. Mas quanto mais alguém se mostra, mais cresce a suspeita de que aquilo que foi mostrado não era exatamente a pessoa.
Era apenas o que ela conseguiu retirar do escuro.
O resto permaneceu lá.
Estamos encantados com o vazio dos outros porque ele nos oferece uma superfície sobre a qual podemos projetar aquilo de que precisamos. Não amamos apenas quem está diante de nós. Amamos também aquilo que inventamos para preencher o que não conhecemos dessa pessoa. Completamos seus silêncios com nossos desejos, interpretamos seus gestos de acordo com nossas carências, atribuímos profundidade às suas ausências e chamamos de encontro aquilo que talvez tenha sido apenas a coincidência de duas imaginações.
Depois nos decepcionamos quando o outro deixa de caber naquilo que imaginamos.
Não perdoamos facilmente uma pessoa por ser diferente da personagem que criamos para ela.
Talvez o encantamento nasça justamente do espaço que desconhecemos. Aquilo que compreendemos por completo corre o risco de perder o mistério. Por isso, às vezes, desejamos alguém enquanto ainda podemos imaginá-lo. Quando a realidade chega com seus hábitos pequenos, suas repetições, seus egoísmos e suas limitações, sentimos que alguma coisa se quebrou. Mas talvez nada tenha se quebrado. Talvez apenas tenhamos finalmente encontrado a pessoa no lugar onde antes existia nossa fantasia.
Conhecer alguém é assistir lentamente ao desaparecimento de nossas invenções.
Se o amor sobreviver a isso, então talvez tenha começado.
Mas há pessoas que preferem o encantamento. Apaixonam-se pelo vazio porque o vazio não contradiz. Ele aceita todas as formas que lhe damos. Podemos colocar nele a beleza que desejamos, a bondade de que precisamos, a inteligência que admiramos. O vazio é obediente. As pessoas reais, não.
As pessoas reais chegam carregadas de imperfeições, memórias que não compartilhamos e dores que não fomos nós que causamos. Elas não existem para completar nossa narrativa. Possuem enredos próprios, alguns dos quais jamais conheceremos. Amar uma pessoa real exige abandonar o prazer de inventá-la.
Isso é quase uma violência contra o nosso desejo.
Queremos que os outros preencham o que nos falta, mas oferecemos a eles justamente aquilo que também nos falta. Dois vazios aproximam-se e esperam produzir plenitude. Às vezes conseguem produzir apenas dependência. Outras vezes produzem uma companhia tão delicada que a ausência deixa, por alguns instantes, de parecer abandono.
Talvez seja o máximo que podemos oferecer uns aos outros.
Não plenitude.
Presença.
A plenitude me parece cada vez mais uma palavra inventada por quem não tolerava a incompletude. Ninguém está cheio de si mesmo. Estamos cheios de fragmentos, vozes antigas, gestos herdados, medos que não escolhemos, lembranças modificadas pelo tempo. Há dentro de nós uma multidão que não se reconhece. Chamamos essa confusão de “eu” porque precisamos de um nome curto para continuar vivendo.
Mas o eu talvez seja apenas a borda do vazio.
E há beleza nisso, embora eu quase me arrependa de admitir.
Porque, se estivéssemos completos, nada poderia entrar. Nenhuma pessoa nos modificaria. Nenhuma música encontraria espaço. Nenhuma perda abriria uma nova profundidade. Nenhum amor deslocaria os móveis da alma. Seríamos inteiros e, por isso mesmo, fechados.
Talvez o vazio seja nossa capacidade de receber o mundo.
O problema começa quando fazemos dele um espetáculo. Quando deixamos de habitá-lo e passamos a exibi-lo. Quando transformamos nossas ausências em ornamentos, nossas fragilidades em identidades, nossa solidão em superioridade. Há quem se orgulhe de não sentir, como se a insensibilidade fosse uma forma de lucidez. Há quem trate a própria incapacidade de amar como prova de inteligência. Há quem chame de liberdade o medo de pertencer.
É possível ficar encantado até mesmo com a própria ruína.
A pessoa contempla o que perdeu, o que não consegue ser, o que jamais recebeu, e constrói ali uma espécie de altar. Começa a reverenciar a própria falta. Já não deseja curá-la porque não saberia quem seria sem ela. O vazio torna-se sua única posse, e qualquer tentativa de preenchê-lo parece uma ameaça.
Talvez algumas tristezas permaneçam porque se tornaram nossa maneira de existir.
Eu também tenho meus altares.
Não sei destruí-los. Às vezes apenas retiro a poeira e finjo que estou me despedindo. Depois volto e acendo outra vela.
Há em mim vazios que vieram de perdas e vazios que já estavam aqui antes de qualquer perda. Uns têm nomes. Outros não permitem sequer que eu os chame. Carrego todos como quem leva dentro do peito uma casa cujos cômodos não conhece completamente.
De vez em quando, uma porta se abre.
Não encontro respostas.
Encontro apenas uma espécie de silêncio vivo, alguma coisa que não é ausência nem presença, mas possibilidade. Então compreendo, por um instante, que talvez eu não esteja vazio. Talvez eu seja o próprio espaço no qual a vida acontece.
Não sou apenas aquilo que possuo.
Sou também o lugar deixado por aquilo que partiu, a abertura produzida por aquilo que ainda não chegou, a distância entre o que sinto e o que consigo dizer.
E os outros talvez sejam assim.
Não mistérios a serem resolvidos, mas vazios a serem respeitados.
Talvez devêssemos parar de tentar preencher uns aos outros. Há uma brutalidade escondida nesse desejo de completar alguém, como se a incompletude alheia fosse um defeito que nos cabe corrigir. Talvez amar seja tocar a borda do abismo do outro sem empurrá-lo, sem exigir que ele saia, sem lançar dentro dele as nossas próprias necessidades.
Apenas permanecer.
Permanecer quando não há espetáculo. Quando a beleza se distrai. Quando as palavras falham. Quando o outro já não consegue nos encantar e começa, finalmente, a existir.
Porque viver é isto, descobrir que somos vazios, encontrar outros vazios pelo caminho e, apesar de tudo, oferecer presença.
Às vezes, duas ausências se reconhecem.
E, por um instante, isso se parece muito com estar inteiro.